quarta-feira, agosto 17, 2022
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Archie Shepp presta homenagem a John Coltrane no Sesc Jazz

Depois de se apresentar em Sorocaba, o grupo do lendário saxofonista toca no Sesc Pompeia

Por Daniel Benevides no Folha de São Paulo

John Coltrane acordou no meio da noite para atender ao telefone. Era Bob Thiele, produtor da gravadora Impulse: “Você precisa ouvir isso!” O entusiasmo se justificava. Thiele estava no estúdio em que Archie Shepp gravava “Four For Trane” (1964), hoje um dos grandes clássicos do jazz. Coltrane se vestiu como pôde e saiu correndo. Na pressa, esqueceu as meias. É assim que ele aparece na capa do disco, ao lado de Shepp, seu discípulo e amigo.

Aquele era o primeiro álbum de Shepp propriamente como líder —logo de cara uma releitura das músicas do mentor Coltrane, com quem iria tocar na obra-prima “A Love Supreme” (1964; sua participação pode ser ouvida na versão integral, lançada em 2002) e na marcante experiência de free jazz “Ascension” (1965). No mesmo ano, ainda dividiriam o ao vivo “New Thing at Newport”.

A homenagem de Shepp & Ritual Trio, com Kahil El Zabar no Sesc Jazz ganha, assim, ares de celebração, memória afetiva e resgate de um projeto que já foi chamado de nova música afro-americana, que se inseria de forma mais ampla na defesa dos direitos civis e na luta pela identidade negra nos anos 1960. As apresentações ocorrem neste sábado (1º), às 21h, e domingo (2), às 18h, no Sesc Pompeia.

Falando de Paris à Folha por telefone, Shepp, também professor universitário, dramaturgo e poeta, um dos grandes intelectuais da cultura negra combativa, conta como era tocar com Coltrane: “John não falava muito nessas sessões, na verdade ele dizia para a gente se sentir livre; ele gostava de criar um ambiente de absoluta liberdade entre os músicos. Era improvisação coletiva. Não queria que ninguém se sobressaísse.”E lembra como o conheceu: “Em Nova York eu ia sempre ao Five Spot ver o Thelonious Monk tocar. Às vezes John tocava com ele. Um dia criei coragem e fui pedir que ele me ajudasse com algumas dificuldades que eu tinha no sax, especialmente nos registros mais altos. Para mim, ele é o criador de todos nós, virou a música afro-americana do avesso. Dias depois, fui até sua casa, esperei umas três horas e, quando ele apareceu, simplesmente tocou ‘Giant Steps’ por dez minutos de uma forma que eu nunca tinha ouvido antes. Foi uma epifania. Depois pediu que eu tocasse e a gente ficou horas conversando sobre suas ideias, os enormes desafios técnicos que se impunha e os músicos de que ele mais gostava: Miles Davis, Art Tatum, Monk. Eu tentava imitá-lo, mas nunca consegui e acabei aceitando minhas limitações. Meu som é mais próximo de um Ben Webster, que devo ter ouvido pequeno, nos velhos discos da banda de Duke Ellington do meu pai.”

O pai tocava banjo e chegou a fazer excursões pela América Latina, inclusive Brasil. “Meu gosto pela música vem dele e de minha mãe, que me incentivaram a fazer aulas de piano. Passei para o clarinete, porque é uma etapa importante para aprender o saxofone. Em casa, ouvia falar muito de política também, pois vivíamos numa região (Fort Lauderdale, na Flórida) em que havia segregação por toda parte: nos banheiros públicos, bebedouros, bancos de parque. Na minha cidade um negro foi barbaramente linchado dois anos antes de eu nascer. Na escola, lembro de escrever uma redação sobre racismo que chamou a atenção da professora. Eu era apenas uma criança, não percebia os problemas que iria enfrentar. Fui mudando de acordo com a idade e as situações que surgiram. Mas eu aceitava os problemas como parte dos obstáculos naturais do crescimento. Já na faculdade foi diferente, me tornei bem mais consciente da segregação e me tornei um ativista. A verdade é que a tomada de consciência do racismo não se dá num único momento, mas dura a vida inteira.”

Apesar de ser considerado um dos expoentes do free jazz, por conta de discos como “Fire Music” (1965) e “Mama Too Tight (1966), entre outros, Shepp é um músico inclassificável, que sempre costurou a experimentação mais radical ao blues, spirituals e mesmo standards, confundindo e surpreendendo críticos e ouvintes. Seu começo profissional já dava uma pista da importância que ele dá às raízes da música de orientação africana: “Era bem difícil para um músico iniciante naquela época. Comecei tocando blues com o Lee Morgan, que era só um ano mais velho que eu, mas me ensinou muito. Quando me mudei para Nova York, passei a tocar numa orquestra porto-riquenha, o que foi uma grande experiência pra mim. Aprendi os ritmos caribenhos e afro-cubanos como a salsa e o merengue. Aprendi samba também, que ainda não era tanto popular porque a Bossa Nova não tinha estourado, com as gravações de Astrud, João Gilberto e Stan Getz.”

O saxofonista Archie Shepp durante apresentação no New Orleans Jazz & Heritage Festival – Carlos Calado/Folhapress

Depois de lecionar em escolas públicas de Nova York e Boston, Shepp foi professor por décadas na Universidade de Massachussets. Dava aula de Black Studies. Seu interesse estava, de fato, nas origens. Quando fala sobre música brasileira, por exemplo, diz, com entusiasmo, que “o que interessa para mim são as raÍzes do samba no candomblé de Bahia. Não conheço bem as músicas, sei um pouco sobre os orixás, Ogum, Xangô, e as danças, mas gostaria muito de conhecer melhor e um dia, quem sabe, ir à Bahia. Tenho um amigo que vai sempre para lá e me conta tudo.” E continua: “O importante é que a música negra vem do blues e da experiência da escravidão. O grito do negro no campo está no som do sax de Coltrane. Daí que vem sua beleza e seu poder.”

No entanto, a música não foi sua primeira opção: “Na verdade, comecei a estudar direito para fazer alguma coisa pelo meu povo. E aí passei para a dramaturgia, uma área bastante racista que nunca deu muito espaço aos negros. Cheguei a escrever uma peça que foi publicada e encenada na Off-Broadway, ‘The Communist’ (cujo título foi mudado para ‘Junebug Graduates Tonight’). Eu me inspirei parcialmente nos musicais do Kurt Weill e Berthold Brecht, tentei fazer algo próximo de uma versão negra da ‘Ópera dos Três Vinténs’. É sobre um jovem idealista que quer transformar os Estados Unidos econômica e socialmente. Eu a reli recentemente e achei que suas críticas continuam fortes, refletem bem o que eu penso. Seria interessante montá-la hoje, mas talvez não haja espaço nesses tempos tão conservadores, reacionários, com Donald Trump no poder. Depois disso decidi só tocar música.”

Garota de Ipanema

No disco “Fire Music, tido por muitos como seu melhor, há uma versão curiosa de “Garota de Ipanema”, que destoa um tanto do discurso militante. Mas sua explicação dá outro contexto para o clássico de Jobim e Vinícius: “‘Garota de Ipanema’ é um ideal, uma mulher inatingível. E eu associava isso a uma América Negra e livre que parecia difícil de consolidar. Eu toco de forma alegórica, como minha peça, ‘The Communist’, que tem uma garota chamada America, pela qual o protagonista se apaixona —e ela nunca está lá. Pra mim a ‘Garota de Ipanema’ era essa America da peça. ”

Outro mentor importante em sua vida foi o pianista de vanguarda Cecil Taylor, com quem tocou por um par de anos: “Foi com ele que fiz meu primeiro show profissional. Era um sujeito bastante profundo intelectualmente que transformou as fronteiras do jazz. Aprendi muito com ele. Ele que me falou sobre Malcolm X. Ouvi muitos dos discursos de Malcolm a partir daí: era uma experiência extremamente poderosa. Mas não era exatamente seu seguidor. Eu seguia também Martin Luther King, que conseguiu unir brancos e negros em sua proposta de não-violência, e que trouxe uma transformação real e efetiva. O escritor e ativista James Baldwin, que era meu amigo, e a quem conheci através do Cecil, também pensava assim e expunha a realidade afro-americana em seus livros com muita força. Nessa época, eu também participava do círculo de artistas, ativistas e músicos em torno de Amir Baraka (LeRoi Jones).”

Em 1969, Shepp tocou na Argélia, no Festival Pan-Africano. O evento, produzido pelo governo socialista do país, reuniu ativistas e músicos negros de todo mundo, além de representantes dos países africanos recém-libertos. Miriam Makeba e Nina Simone passaram por lá e também integrantes dos Panteras Negras. Shepp, incansável nas suas explorações musicais (que depois incluiriam até participações com rappers, como Chuck D, do Public Enemy) reuniu uma orquestra de percussionistas tuaregues para tocar com ele, além de poetas que recitavam slogans ideológicos, como “África é poder! África é jazz! Nous sommes revenus (estamos de volta)” Ao lembrar do festival, ele diz: “no meu coração, sempre fui africano.” Em discos como “The Magic of Ju-Ju” (1967), com muita percussão, a afirmação ganha mais força.

Attica Blues

E então veio a guinada de “Attica Blues” (1972), disco que lembra o massacre na prisão de Attica (EUA), em 1971. Ampliando a utilização que sempre fizera de poemas falados ou cantados, Shepp gravou funk, spirituals, blues, gospel e de certa forma antecipou a fusion que viria a ser conhecida mais tarde com Miles Davis. “Era importante para mim que as pessoas ouvissem o que eu estava tocando. Eu queria que elas se identificassem com o disco, queria atingir um público bem maior. Era algo que minha mãe sempre dizia: ‘por que você não toca uma música que eu entenda?’”

Com o tempo, Shepp suavizou sua música e se voltou ainda mais para o blues e também o bepob, que chama de “período barroco da música clássica afro-americana”, em discos gravados só com sax e piano, ou sax e baixo como os bonitos “Goin’ Home” (1977) e “Looking at Bird” (1980).

Certa vez, declarou: “Eu toco porque tenho uma necessidade íntima de tocar; para fazer as chuvas chegarem, para acabar com as guerras”. Perguntado sobre o poder de transformação da música, declara: “Tenho acompanhado a história desse jovem músico e ativista Bobi Wine, que foi preso em Uganda por suas posições contra o governo, que já dura 33 anos no poder. Milhares de pessoas saíram às ruas pedindo sua libertação. Hoje temos o rap ou o hip-hop, que para mim vem direto das tradições do spiritual e da revolução de artistas como Louis Armstrong e Ella Fitzgerald, com seu scat singing. O poder da música africana vai direto para o coração e a alma das pessoas. É a música religiosa, a música da chamada e resposta. Você pega, por exemplo, ‘Respect’, da Aretha Franklin. Para mim, a resposta do coro é tão poderosa quanto o refrão. Quando ela diz: ‘All I’m asking is for a little respect’, e o coro emenda: ‘just a little bit’. Aí está o poder da música, que eletrifica o público, que participa. Sim, a música tem o poder de transformar, a cultura tem o poder de transformar. O som do saxofone é uma voz, a voz de uma uma geração de jovens sem posses, sem poder de fala. Hoje é interessante ver como artistas como Chaka Kahn, Beyoncé e Jay-Z dão voz a essa mesma tradição num novo contexto e atingem milhões de jovens, de todas as cores. Eles se tornaram os novos pregadores. Pode ser no Brasil, na Jamaica ou em Chicago. Estão pedindo por mais liberdade, educação, oportunidades iguais.”

Archie Shepp & Ritual Trio, com Kahil El Zabar

Sesc Pompeia – teatro – R. Clélia, 93, Água Branca, tel. (11) 3871-7700. Sáb. (1º): 21h. Dom. (2): 18h. 90 min. 12 anos.Ingr.: R$ 18 a R$ 60. Ingr. p/ sescsp.org.br

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