Barbárie, por Sueli Carneiro

Morar em São Paulo está se tornando uma experiência tão dantesca que a idéia que ronda o tempo todo na cabeça dos paulistanos é: ‘‘Pára o mundo que eu quero descer”.

Por Sueli Carneiro

Até há pouco se sabia, com base na experiência cotidiana, quem eram, em geral, as vítimas da violência: negros, pobres, moradores das periferias, reféns da dinâmica de uma violência estrutural em que coadjuvam policiais corruptos, grupos de extermínios e controladores do tráfico de drogas. O crime de seqüestro também tinha um padrão claro – atingia pessoas das classes dominantes.  O caráter endêmico que a violência vem assumindo, estimulada pela omissão do poder público, alcança hoje, além dos de sempre, pobres remediados e diferentes extratos das classes médias. Muitos dos quais se vêem obrigados a vender um carro velho, sua moradia, ou endividar-se para salvar a vida de um parente em mãos de criminosos.

O mais chocante e desesperador é a evidência de que os homens públicos, responsáveis pela nossa segurança se mostram tão perplexos e desorientados quanto a própria população indefesa. Planos propostos não são executados e quando o são mostram-se ineficazes.

Acreditou-se que essa violência ficaria confinada, no bordão de Elio Gaspari, ao ‘‘andar de baixo”, limitando-se ao extermínio dos que, de fato, já agonizam socialmente, na miséria, na pobreza e na desesperança. Na ausência de projetos de inclusão da ‘‘gentalha”, a indiferença e impunidade diante da eliminação física que os abate é um correlato do abandono social em que estão imersos. E supôs-se que se poderia apenas ‘‘administrar” casos eventuais que envolvessem os do ‘‘andar de cima”, para os quais é preciso dar satisfações à opinião pública e, portanto, aplicar as técnicas rigorosas de investigação, identificação e punição de criminosos.
A indiferença que cerca a violência de que são vítimas os segmentos excluídos da cidadania, aliada à impunidade de seus autores e dos setores abastados pelo próprio crime, permitiram que a articulação da marginalidade de ‘‘baixo” com a de ‘‘cima” instituísse novos e diversificados padrões de violência que ameaçam a todos. Poderes paralelos aos do Estado de Direito se instituem. Agrupamentos de marginais, à revelia do Estado, e por vezes com a conivência deste, se apropriam de territórios, impõem neles formas de regulação da vida social: códigos de ética e de conduta são estabelecidos, ajustados a interesses criminosos, dos marginais de ‘‘baixo” e dos de ‘‘cima”, situação corrente em bairros periféricos e favelas das grandes cidades. Nos territórios ‘‘livres”, as classes médias e altas constroem fortalezas que cada vez mais menos as protegem.

No mesmo dia em que foi assassinado o prefeito de Santo André, Celso Daniel, 109 outros brasileiros também o foram. É a média diária nacional, perfazendo 40 mil assassinatos anuais, sendo as vítimas, em sua maioria, jovens. O Brasil dá-se ao luxo de perder 40 mil vidas/ano por descaso, insensibilidade social, impunidade e todos os adjetivos redundantemente repetidos pela opinião pública.

Conheci Celso Daniel. Acredito que seria seu desejo que sua morte trágica resultasse em um fato político capaz de produzir ações concretas para o fim desse extermínio silencioso de brasileiros. Mas a tendência é continuarmos a perder brasileiros como ele, que se empenham em alterar as condições que determinam essa absurda realidade, e a permanência da matança dos de sempre.

Diante da barbárie, a primeira vítima é a lucidez.

 

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