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Bibi Perigosa: glamourização da mulher no tráfico de drogas ou realidade social?

Bibi Perigosa: glamourização da mulher no tráfico de drogas ou realidade social?

A novela da Rede Globo “A força do querer”, que começou no mês de abril, trouxe na figura da personagem da atriz Juliana Paes, Bibi Perigosa, apelido de Fabiana Escobar, ex-mulher do traficante Saulo de Sá Silva, chefe do tráfico de drogas na favela da Rocinha no Rio de Janeiro.

Por Henrique Oliveira e Victória Dias Do Justificando

A trama em torno da personagem de Juliana Paes se espelha no envolvimento que Fabiana Escobar teve com o tráfico de drogas, após a prisão do seu companheiro. Mas Fabiana contou que se envolveu com a criminalidade em dois momentos distintos da sua vida, a primeira vez quando ajudou um namorado a escapar da cadeia, porém depois ele foi assassinado. A segunda vez foi quando já casada com Saulo de Sá, o mesmo resolve entrar para o tráfico de drogas e se tornou o ‘Barão do Pó’. Fabiana Escobar conta que não chegou a ser presa, mas fala que seu envolvimento com o tráfico aconteceu por amor ao ex-marido.

Hoje, Fabiana não é mais casada com Saulo, vive do aluguel de uma loja na favela da Rocinha, já escreveu três livros, entre eles um autobiográfico intitulado de “Perigosa”, escrito em 2011, quando ocorreu a ocupação da favela da Rocinha na Operação Choque de Paz, e uma matéria sobre ela foi exibida no programa Fantástico.

A escritora Glória Perez descobriu o blog de Fabiana, quando realizava uma pesquisa para escrever a novela Salve Jorge, e se mostrou interessada primeiramente em produzir uma minissérie sobre a sua vida. Mas a minissérie não foi feita, a vida de Fabiana Escobar veio a tona então por meio da novela.

Entretanto, a personagem Bibi Perigosa recebeu algumas críticas em torno de uma suposta glamourização do estilo de vida, as críticas apontavam para uma apologia ao tráfico de drogas, principalmente no episódio em que Bibi tira umas fotos em meio a várias notas de dinheiro. A autora rebateu as críticas no seu perfil do twitter dizendo que “a novela não é uma cartilha de moral e cívica”, e que isso era coisa de gente que quer esconder a “realidade embaixo do tapete”, pois Bibi foi processada por associação ao tráfico e não existe glamour nisso.

A grande questão referente à personagem, é que infelizmente não se trata de uma mera peça de ficção da novela global, mas sim de uma realidade que envolve milhares de mulheres brasileiras, principalmente quando se discute o crescimento da população carcerária feminina, que aumentou 700% nos últimos 15 anos, e na maioria dos casos a causa é o tráfico de drogas a partir da relação afetiva com homens envolvidos no tráfico.

Mulheres no tráfico de drogas, uma vida sem glamour 

A população carcerária brasileira está em um crescimento vertiginoso, atualmente ocupando o posto de quarta maior população aprisionada, com 622.202 mil presos, uma taxa de encarceramento de 306 pessoas para cada 100 mil habitantes. E dentro dessa explosão de corpos humanos enclausurados, o número de mulheres presas nos últimos 15 anos chegou a 44.721 mil, enquanto que no ano 2000 esse contingente era de 5.601 mil mulheres. Só para termos uma noção da velocidade do encarceramento feminino, em dois anos, de 2014 a 2016, o aumento registrado foi de 19,6% subindo de 37. 380 para 44. 471.

Os dados do Infopen Mulheres lançado em 2015 demonstram que 60% dessas mulheres foram presas pelos crimes de tráfico e associação ao tráfico, no qual as mulheres não exercem papel de destaque na hierarquia dos grupos e não fazem parte, por exemplo, dos postos de segurança armada e nem de comerciante das substâncias, seu potencial ofensivo na realidade é muito baixo.

A relação das mulheres com o tráfico de drogas quase sempre acontece juntamente com o estabelecimento de vínculos afetivos com homens que já são envolvidos ou que no decorrer do relacionamento entram para o tráfico, o que é exatamente abordado na novela.

A sociedade brasileira está recheada de casos similares ao que é apresentado na ficção, mas que não são apenas meras personagens, não se trata de casos isolados. O portal de notícias UOL divulgou uma matéria no último dia 15, contando a história de Ana Paula Lopes, 35 anos, que se envolveu com o tráfico de drogas por causa do ex marido com quem foi casada durante 16 anos. Na matéria, Ana Paula relata que assumiu o comando do tráfico quando o marido foi preso, acreditava que esse ato foi uma prova de amor e que era perdidamente apaixonada. Guardava drogas, recebia, entregava e estabelecia contato com outros traficantes, chegando a faturar 30 mil reais por semana.

Ana Paula conta que foi presa quando a sua filha mais nova tinha 8 meses de idade, a sua mãe não falava com ela, o marido estava foragido em São Paulo, e que tinha guardado um pouco de dinheiro, o que ajudou na sua sobrevivência no sistema prisional.

A única pessoa que a visitava na cadeia era sua amiga, e que comprava comida e materiais de higiene. O que coloca em evidência um dos problemas enfrentados por mulheres presas, a solidão e abandono.

Segundo os dados da Secretaria de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro publicado no ano passado, apenas 1,6% das mulheres presas  nas seis unidades prisionais receberam visitas íntimas.

O diretor do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRACO) da Bahia, delegado Marcelo Sansão, disse que tem crescido o número de mulheres na criminalidade. No Presídio Feminino de Salvador, uma de cada sete mulheres teve a prisão relacionada à influência do marido ou companheiros.

O jornal Correio da Bahia afirma que das 107 mulheres presas, 53 delas cumpriam pena por tráfico de drogas, sendo que 15 delas relataram terem entrado no tráfico por ‘amor’ ao marido ou namorado.

O aumento do encarceramento feminino relacionado ao tráfico de drogas com vinculação aos maridos presos se apresenta diariamente através de operações que resultam na prisão de mulheres, como no caso ocorrido na última quinta-feira no Rio de Janeiro onde onze mulheres desenvolviam funções coadjuvantes no tráfico, como transmitir informações e gerenciamento de drogas e dinheiro, pois mantinham vínculo afetivo com homens pertencentes à mesma facção criminosa que já estavam presos, similar ao exemplo da personagem Bibi Perigosa.

Esses exemplos cada vez mais frequentes demonstram que essa realidade não oferece às mulheres nenhuma vantagem, como dito nas críticas a autora, a partir do momento em que na grande maioria das situações ocorre a prisão, e consequente abandono dessas mulheres nos presídios, levando a uma total desestruturação no âmbito familiar.

É uma realidade que não pode de forma alguma ser escamoteada por discursos conservadores, que igualem uma representação social a apologia, o envolvimento das mulheres com a criminalidade é um problema político que deve ser amplamente debatido, urgentemente.

Victória Dias é graduanda em Farmácia pela Universidade Federal da Bahia e atua como Redutora de Danos pelo Coletivo Se Plante.

Henrique Oliveira é graduado em História, mestrando em História Social pela UFBA, colaborador da Revista Rever e militante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira/Bahia.

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