“Cadê o Roque Santeiro que estava aqui?” | Atlânticos em transe sob a lua de Luanda, por Cidinha da Silva. Ep.4

Eu já tinha ouvido falar do Roque Santeiro, mas, quando li Jaime Bunda, fiquei encantada, decidi conhecê-lo. Ir até a Sambizanga tornou-se uma meta de vida, como conhecer o comércio no rio Congo. Tu me levas, kota? Vi num filme e achei fascinante. Não, não, não tenho curiosidade de estar numa das embarcações. Deus me livre e guarde, mas quero olhar da margem do rio e sentir a pulsação do comércio feito pelas mulheres. Tu vais comigo para eu me sentir segura. Guarda teus preconceitos congofóbicos e vamos. Que horrível essa expressão que vocês criaram para identificar balbúrdias e lugares desorganizados. Vocês parecem europeus ao chamar esses sítios de “congo”.

É verdade que tenho o mesmo espírito do agente secreto Jaime Bunda e planejava escutar as conversas da contravenção e do crime, disfarçada de quê, não sei; cumpre confessar que não sou boa de disfarces, mas até o momento da escuta eu providenciaria um que fosse convincente. Queria ver como se encomendavam mortes, feitiços, vinganças leves ou ardilosas, as pequenezas que Pepetela havia entremeado ao comércio de comida, computadores, eletrodomésticos, roupas, calçados. Ali também se comercializava vida e morte, como sabes melhor do que eu. Mas deram de acabar com o Roque e transferiram os comerciantes para Panguila. Lá também vais me levar, tu não escapas de me ciceronear.

Quando perguntei às pessoas pelo Roque na intenção de ouvir histórias, apenas me mandaram para o São Paulo. No caminho para lá, vi a linha férrea, mas não me calhou de utilizar o comboio e entender um pouquinho o vosso sistema de transporte coletivo. Do mercado São Paulo para comprar tecidos, nos deslocamos no carrão do adido. Daquela turba de pessoas empobrecidas, saltou um homem muito magro, de olhos estatelados, vermelhos e assustados, dava ordens aos motoristas dos veículos sobre o local para estacionar. Gritava, gesticulava com um braço, com o outro manejava um fuzil antigo. O quadro era tenso e temi que ele disparasse por acidente ou por destempero. No momento da partida, vi que nosso motorista deu algum dinheiro a ele. Fiquei pensando se era um recurso auxiliar ao que as lojas seguradas lhe pagavam ou aquelas moedas recebidas dos motoristas conformavam sua remuneração final. Tu sabes me dizer?

Notei que os seguranças dos bancos, do shopping e das lojas do bairro São Paulo pareciam pertencer à mesma etnia, eram muito semelhantes fisicamente. Será que existe uma linhagem de seguranças, como havia de ferreiros, de pedreiros? Mistérios de Luanda.

Aliás, vi fuzis espalhados por toda a cidade, supostamente para controlar os adultos, e porretes para agredir as crianças na orla gourmetizada. Foi umas das cenas mais violentas a que assisti, um jovem negro com uma barra grossa de madeira ameaçando e batendo em meninos que ousavam pedir água aos frequentadores dos bares à beira do mar cimentado, me lembrei da praia da Barra, em Salvador.

O comércio de rua se intensificou na segunda-feira depois do final de semana prolongado em que as ruas estiveram vazias. Mulheres diversas vendiam quitutes: frituras de mandioca, peixe e bananas; frutas frescas, como abacate, ananás, mamões, cocos, bananas, cana, gomos de cana. Senti o cheiro das palhas da cana no terreiro de casa, quando parentes nos visitavam aos domingos e meu pai escolhia um caule maduro de cana, aparentemente doce, descascava e oferecia a todos.

Na orla, no domingo, observei várias mulheres caminhando em direção à praia com pentes de ovos na cabeça, um fogareiro e potes com um molho vermelho. Por meio de minhas atividades detetivescas descobri que os ovos estavam cozidos e eram servidos com aquele molho e mariscos. Ainda bem, pois, caso estivessem in natura e aquilo caísse, seria um grande prejuízo para as comerciantes.

Os homens, por sua vez, vendiam pastéis na orla. Como eram vários homens carregando embalagem branca similar, coberta por plástico transparente, deduzi que tivessem um fornecedor em comum, mas não cheguei a perguntar.

Fiquei intrigada com os cintos, pares de tênis e sapatos que alguns vendedores carregavam pelas ruas e ofereciam a outros homens, inclusive aos guardas que brotavam de todos os cantos. Mas surpresa mesmo fiquei ao ver um sapateiro com uma roupa alaranjada que me lembrava o uniforme dos garis brasileiros. Quando cheguei bem próximo, percebi que era mesmo a farda dos garis. Como aquela roupa teria chegado até ali? Pode ter sido numa daquelas doações internacionais feitas para vítimas de catástrofes em África. Eu poderia ter arranjado um jeito de conferir a origem da roupa com o sapateiro, mas deixei escapar.


Cidinha da Silva/Foto: Daisy Serena

Cidinha da Silva (MG) publicou entre outros livros, os premiados: “Um Exu em Nova York” (Biblioteca Nacional, 2019) e “O mar de Manu” (APCA 2021, melhor livro infantil). Tem dois livros no acervo do PNLD Literário (FNDE), “Os nove pentes d’África” (2020) e “Oh, margem! Reinventa os rios!” (2021). Suas obras integram ainda outras políticas públicas de formação de acervo nas escolas do Brasil. É curadora de Almanaque Exuzilhar (Youtube), conselheira da Casa Sueli Carneiro e doutora em Difusão do Conhecimento.


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