sexta-feira, janeiro 14, 2022
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“Já fiquei com um Negro” é o argumento mais furado para se defender de acusações de racismo

A torcedora do Grêmio Patrícia Moreira, acusada de injúria racial contra o goleiro Aranha, teve uma reação comum a quem é chamado de racista. Em entrevista ao Jornal Zero Hora, apelou para as relações pessoais entre negros e brancos. “Eu sei que não sou racista. Já fiquei com um cara negro”.

por :   do: noticias e sociedade

Ela usou expediente parecido com o do ex-presidente gremista Luiz Carlos Silveira Martins, o Cacalo. Em entrevista à Rádio Gaúcha, ele lembrou que tem amigos negros para minimizar as ofensas sofridas pelo goleiro do Santos.

O racismo sutil do Brasil tem tantas nuances que o fato de ter amigos negros não abona ninguém do preconceito. A pessoa pode andar com negros e mesmo assim apresentar comportamentos racistas. O mito da democracia racial criou formas de discriminação tão sofisticadas que até mesmo negros cometem atos preconceituosos contra pessoas da mesma cor.

Torcedores negros também xingaram Aranha de macaco no fatídico jogo. Vigilantes de supermercado negros perseguem clientes igualmente negros sem nenhuma razão senão a aparência.  Policiais corruptos pretos ou pardos encarnam a versão pós-moderna de capitães do mato e executam jovens negros nas periferias de norte a sul do país.

O racismo à brasileira é complexo, cheio de camadas, sutilezas e comportamentos dúbios. Dentro deste cenário, sentir desejo sexual por negros ou negras não é atestado de tolerância. Lembra da marchinha “O teu cabelo não nega”, de Lamartine Babo?

Não há igualdade racial neste tipo de relação, assim como o mito da lascívia do homem negro não é elogio. Ele tem origens em teorias que animalizavam os africanos, deixando-os em um patamar inferior ao dos europeus supostamente civilizados.

Se o argumento de Patrícia estivesse correto, o fenômeno das europeias que viajam ao Quênia em busca de sexo com rapazes locais seria um exemplo de igualdade racial e não de solidão e exploração econômica.

Não tenho informações para refutar a sinceridade do relacionamento de Patrícia com um rapaz negro. Questiono, somente, o emprego de relações inter-raciais como escudo para se defender das acusações de racismo.

A torcedora pretende se tornar um símbolo brasileiro contra o racismo. Pode até dar certo, mas precisa estudar antes. Uma boa dica para ela começar seria dar uma olhada na história do supremacista branco e ex-líder da Ku Klux Klan Frazier Glenn Miller.

Em abril deste ano ele atacou dois centros judaicos nos Estados Unidos e matou três pessoas. Depois de identificado e preso surgiram histórias do seu passado. Uma delas informa que Miller fora flagrado mantendo relações sexuais com outro homem. Negro.

Fornicar com o prostituto negro não faz de Miller menos preconceituoso. Só deixa sua história de ódio racial ainda mais doentia.

Deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata!

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