‘Cansei de engolir sapo’ diz médico que apura casos de abusos sexuais na USP

Paulo Saldiva, médico responsável pela apuração de casos de abuso sexual na USP, se afasta da universidade

 por  

Paulo Saldiva, médico patologista que presidia a comissão responsável pela apuração das denúncias de abuso sexual na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), pediu afastamento da instituição na última quarta-feira (12). Na ocasião, o professor escreveu um post no Facebook em que afirmou: “A falta de uma ação construtiva e pró-ativa da parte de todos nós, professores, fez com que os alunos da FMUSP fossem submetidos a situações inaceitáveis.”

paulo-saldiva

Apesar do tom ameno no decorrer do texto naquela ocasião, Saldiva — que ocupa o cargo de professor titular na universidade desde 1996 — fez críticas mais duras à instituição em entrevista publicada hoje na Folha de S.Paulo.

“A faculdade [de Medicina da USP] se comportou mal. Houve demora da congregação, ficaram na defensiva [sobre as denúncias de estupro das alunas]. Há uma crise de conduta, de valores. Cansei de engolir sapo”, disse o professor.

As denúncias a que Saldiva se refere são similares à de Leandra, aluna da FMUSP que gravou um depoimento para a Ponte.

Durante audiência na Assembleia Legislativa de São Paulo na última quarta-feira, alunos relataram, além de oito casos de violência dentro da USP, a omissão por parte da faculdade na apuração dos casos — as primeiras denúncias surgiram em 2011 e a FMUSP nunca fez averiguação alguma para não danificar a própria imagem. “A faculdade nunca fez nada. Como professor, sinto que falhei, não desempenhei meu papel. Todos os professores deveriam se sentir assim. Isso diz respeito a todos nós”, afirmou Saldiva.

De acordo com o patologista, os casos relatados pelos alunos é apenas uma fração do que acontece na FMUSP. Relatório da comissão a ser entregue à congregação da Faculdade de Medicina trará outras denúncias, como “abuso de álcool e de drogas, de assédio moral, de intolerância religiosa e étnica.”

Em nota à Folha, a direção da FMUSP disse que “lamenta, mas respeita” a decisão de Saldiva de deixar a instituição. Além disso, afirma que os casos de abuso estão sendo investigados.

Leia mais matérias sobre Show Medicina

 

+ sobre o tema

Violência contra mulheres no Brasil de hoje

Só a partir dos anos 50 foi destinado às...

Violência contra a Mulher: Aluna hostilizada por usar roupa curta na Uniban

'Eles estavam possuídos, fiquei com muito medo', afirmou estudante. Tumulto...

Patriarcado da violência

A brutalidade não é constitutiva da natureza masculina, mas...

Violência contra a mulher

  As causas das variadas formas de violência contra a...

para lembrar

Eu aprendi que temos que ‘andar juntas’ para combater o assédio

Sobre o meu primeiro assédio, eu não saberia dizer....

Aplicativo busca coibir violência doméstica em Porto Alegre

Mulheres com medidas protetivas passam a contar com uma...

Aplicativo ajuda a combater violência contra a mulher no Rio Grande do Sul

Com apenas quatro toques, a polícia, a Justiça e...

Política embolorada

Diante da defesa do PMDB a Pedro Paulo, mulheres...
spot_imgspot_img

Avaliação de mérito acadêmico, ações afirmativas e os 90 anos da USP

Alguns consideram que a fonte para a implementação de ações afirmativas nas universidades estadunidenses tenha sido a teoria da justiça de John Rawls. Eu...

USP oferece mais de 4 mil vagas em cursos gratuitos para público 60+

O programa USP 60+ completa 30 anos de sua criação e está com as inscrições abertas para o primeiro semestre de 2024. A abertura de vagas se...

‘Não’ é ‘Não’, inclusive na igreja

No dia 29 de dezembro, o presidente Lula sancionou a lei do protocolo "Não é Não" (lei 14.786/2023), que combate violência e assédio sexual contra mulheres...
-+=