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Carolina Maria de Jesus: Quem foi a escritora que denunciou a fome no país

A intimidade com a fome e a discriminação sentida na pele deixaram marcas na obra de uma das mais importantes escritoras negras da literatura brasileira. Mulher negra, mãe solo e moradora de uma comunidade pobre, Carolina Maria de Jesus nunca deixou de retratar em seus livros problema sociais e de atribuir culpas a governantes do país já no início do século passado.

Sua voz ativa e atenta lhe conferiu relevância não apenas literária, mas também na política. Em um momento em que metade da população brasileira se encontra em insegurança alimentar e que a pauta social permeou o debate político das eleições, Ecoa conta um pouco da história inspiradora desta escritora mineira, nascida na cidade Sacramento em 14 de março de 1914.

Acusada de roubo

Carolina era filha de uma família de lavradores, estudou apenas dois anos formalmente e sua infância foi marcada por adaptações a novas cidades. A família viveu em três municípios diferentes em seis anos, entre 1923 e 1929: Lajeado (MG), Franca (SP) e Conquista (MG). Mais tarde retornaram para Sacramento, onde ela permaneceu durante a adolescência.

O professor mineiro Warley Matias de Souza, especialista em literatura, conta que Carolina se mudou para São Paulo em 1937, após ter sido acusada injustamente, junto com a sua mãe, de um roubo em Minas Gerais.

O episódio acabou com a mãe dela presa até que a verdade fosse restabelecida e provada a sua inocência. Essa passagem deixou marcas e foi o que motivou a sua mudança para o estado de São Paulo.

Faxineira do doutor Zerbini

Na capital paulista, ela foi trabalhar como empregada doméstica na casa de um cardiologista renomado. Na residência de Euryclides de Jesus Zerbini, o primeiro médico da América Latina e do Brasil a realizar um transplante de coração, passava as suas folgas dentro da biblioteca que ele tinha saciando sua sede por leitura.

Carolina deixou a casa após ficar grávida. Como não pôde cuidar do serviço pesado, teve que se virar catando papéis e outros materiais recicláveis para sobreviver.

Em 1948, foi para Comunidade do Canindé, na zona norte da cidade. “Foi lá que teve seus três filhos. E passou a ter contato com a realidade difícil dos moradores da comunidade. Começou a escrever e publicou seu primeiro texto no jornal O Defensor, um poema que homenageava Getúlio Vargas”, destaca o professor.

A escritora foi acumulando vários textos em seus diários esses trabalhos, segundo Souza, que foram descobertos pelo jornalista Audálio Dantas, que a conheceu em 1958 quando foi fazer uma reportagem na comunidade.

Carolina Maria de Jesus e o jornalista Audálio Dantas, que a ajudou a publicar seu primeiro livro (Foto: Domínio Público)

Dantas se encantou com a postura de Carolina, que estava ameaçando denunciar a depredação de brinquedos públicos por parte da população no entorno de onde vivia, e procurou saber mais sobre a sua vida.

Primeiro livro

O jornalista teve acesso, então, aos diários nos quais ela relatava a realidade dos moradores das comunidades, ficou encantado com a sua escrita e a ajudou a publicar seu primeiro livro, em 1960. ‘Quarto de despejo: diário de uma favelada’ fez sucesso e não demorou muito para que ela ganhasse notoriedade.

No mesmo ano, foi homenageada pela Academia Paulista de Letras e pela Academia de Letras da Faculdade de Direito de São Paulo. “Ela recebeu também o título honorífico da Orden Caballero del Tornillo, na Argentina. Carolina seguiu escrevendo, mas suas outras obras não alcançaram o mesmo sucesso da primeira”, diz Souza.

Trabalhos e legado

Segundo o professor, a obra da escritora é baseada em memórias. É um importante testemunho sobre a vida com reflexões sobre os problemas cotidianos. Souza aponta como seus principais trabalhos o ‘Quarto de despejo’ (1960), ‘Casa de alvenaria’ (1961), ‘Diário de Bitita’ (1986) e ‘Meu estranho diário’ (1996).

Em 1976, o ‘Quarto de despejo’ foi relançado pela editora Ediouro. A obra foi traduzida para vários idiomas e alcançou cerca de 40 países. O livro continuou a ser editado mesmo após a sua morte, em 1977, assim como as diversas homenagens que recebeu.

Carolina Maria de Jesus virou nome de rua e biblioteca, foi tema de livros de outros autores e inúmeras dissertações e teses acadêmicas. Isso tudo garantiu a ela destaque na literatura nacional. “Era uma pessoa que tinha gosto pela leitura, foi o que fez a diferença na vida dela. Apesar da miséria, sempre achou maneiras para não abandonar o hábito”, explica o professor.

Voz política

A fome sempre aparece nos textos da escritora. Warley de Souza conta que o jornalista Audálio Dantas, que apresentou Carolina para o mundo, chegou a comentar sobre isso declarando, à época, que a fome aparecia nos textos com “uma frequência irritante”.

É que Carolina sentiu a fome na pele e levou seus desabafos e críticas aos governos para dentro de suas narrativas, demonstrando profunda consciência social. Criticou bastante o governo da época.

“Em um trecho de uma de suas peças, disse: ‘O que o senhor Juscelino (Kubitschek) tem de aproveitável é a voz. Parece um sabiá e a sua voz é agradável aos ouvidos. E agora, o sabiá está residindo na gaiola de ouro que é o Catete. Cuidado sabiá, para não perder esta gaiola, porque os gatos quando estão com fome contemplam as aves nas gaiolas. E os favelados são os gatos. Têm fome’. Os apontamentos para as responsabilidades do governo apareciam com certa frequência”

Warley de Souza, especialista em literatura

A escritora responsabiliza o governo também pela pobreza e criticava a postura eleitoreira de alguns políticos, que só visitavam a comunidade em que vivia em tempo de eleição, com único objetivo de angariar votos. Criticava igualmente os que tinham o contato constante com os problemas dos pobres, mas que desapareciam após serem eleitos.

Carolina Maria de Jesus não se casou. Levou a vida com toda a independência, fazendo da literatura seu lugar de prazer e indignação. E assim viveu até 1977. A escritora morreu no dia 13 de fevereiro, no bairro de Parelheiros, da cidade de São Paulo.

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