Censura a livro de Jeferson Tenório é sintoma de racismo e intolerância

'Quarto de Despejo', nos anos 1960, também sofreu extremismo e negação

Carolina Maria de Jesus, autora de “Quarto de Despejo“, publicado em 1960 com a ajuda do jornalista Audálio Dantas, foi censurada pelo governo do ditador Oliveira Salazar, de Portugal, que recusou a entrada do seu livro no país. Para os censores, por tratar da pobreza no Brasil, a obra não era “bem-vinda” ao povo português –e, por extensão, às suas colônias africanas—, o que resultou em forte protesto da escritora mineira, na época muito lida e festejada.

“Ouvi dizer que o sr. Oliveira Salazar não gosta de preto”, declarou Carolina para os jornais brasileiros. Mais adiante, na mesma entrevista, declarou: “É típico de ditador querer calar a voz do povo”.

Não satisfeita, a escritora, nascida em Sacramento, há 110 anos, compôs a letra de uma marchinha, que dizia: “O Salazar diz assim… / O povo tem que obedecer / Aqueles que estão contra mim! / Não têm direito de viver”.

Carolina Maria de Jesus, fotografada em 27 de maio de 1952, por Norberto Neves – Imagem: Coleção Arquivo Público do Estado de São Paulo, Fundo Jornal Última Hora, São Paulo, Folhapress

Viajando de táxi, indignada com a proibição do seu livro pelo Estado Novo, chefiado por Salazar, Carolina ia cantando a marchinha para o motorista e tirou dele a seguinte frase: “O Salazar está muito velho”.

Depois do nazi-fascista Hitler, na Alemanha, Salazar foi o dirigente que mais proibiu e censurou livros na Europa. Estima-se que cerca de 10 mil publicações foram barradas por seu regime. Além de Carolina, os brasileiros Jorge Amado e Graciliano Ramos também deixaram de circular em Portugal, no mesmo período, além de Vergílio Ferreira, Ítalo Calvino, Joseph Conrad, William Faulkner, Máximo Gorki, André Malraux, Nietzsche e Lev Tolstoi.

Os censures portugueses, para vetar ou dispensar tais obras, alegavam “imoralidade” ou “pornografia”, e ainda “subversão comunista ou comunizante”.

O episódio da sexta-feira (1°), sobre a proibição do livro “O Avesso da Pele“, de Jeferson Tenório, por Janaína Venzon, diretora da Escola Estadual Ernesto Alves de Oliveira, em Santa Cruz do Sul (RS), repercutiu no país pela veemência com que ela defendeu seus argumentos: “vocábulos de baixo nível”, “nojento”, além de dizer que a obra propaga “atos sexuais”.

O escritor Jeferson Tenório – Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress

Depois da repercussão negativa, Venzon explicou que não tinha dito o que disse, o que faz todo mundo nesses casos, apesar do registro que deixou por vídeo nas redes sociais.

No site sobre a escola, cujo patrono é o advogado, jornalista e deputado federal constituinte Ernesto Alves de Oliveira (1861-1891), nascido em Rio Pardo, diz que a unidade prima por “formar seres humanos que sejam sujeitos transformadores da sociedade, oportunizando o desenvolvimento intelectual, cognitivo e afetivo”, tornando os alunos “comprometidos com um projeto de vida que contemple a socialização, humanização e inclusão.” E ainda fala de valores como respeito, senso crítico, solidariedade, justiça e moral.

Arbitrariamente, ao expurgar “O Avesso da Pele”, Janaína Venzon extrapola suas funções —prevaricando como servidora pública, cometendo o crime de racismo e abuso de poder.

Provavelmente centenas de outras obras literárias, sobretudo de autoria negra, passem pelo mesmo crivo moralista no país. É preciso verificar isso. Quanto à diretora, ela precisa ser afastada da escola, ato que cabe ao governador Eduardo Leite, a menos que queira passar por conivente e omisso.

O livro “O Avesso da Pele”, publicado pela Companhia das Letras, em 2020, logo se tornou sucesso de público e crítica. Vencedor do prêmio Jabuti, na categoria “romance literário”, e traduzido a 12 países, trata de complexas relações raciais, violência, negritude e identidade. O mais provável é que Janaína Venzon não tenha lido a obra e sua avaliação tenha se baseado apenas na sua capa –onde um jovem negro, de sunga de banho, se posiciona no trampolim, para um mergulho na piscina.

Se leu o livro, algo improvável, achou “nojenta” a história, onde Pedro, após o assassinato brutal e covarde do pai, um homem negro, pela polícia, “sai em busca de resgatar o passado da família e refazer os caminhos paternos”, como forma de se encontrar no mundo.

Jeferson Tenório, ex-professor em Porto Alegre, onde morou, é um dos escritores mais brilhantes da literatura afro-brasileira. Há dois anos, sofreu revés parecido por uma escola privada de Salvador. A história de seus personagens já teve adaptação para o teatro, encenada com sucesso pelo Coletivo Ocutá, de São Paulo.

O autor, com razão, rebate todo o ódio pelo livro no país.

“As distorções e fake news são estratégias de uma extrema direita que promove a desinformação. O mais curioso é que as palavras de ‘baixo calão’ e os atos sexuais do livro causam mais incômodo do que o racismo, a violência policial e a morte de pessoas negras”. Sigamos na luta.

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