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Dar voz aos dominados na língua do dominador

Dar voz aos dominados na língua do dominador

A FLIP homenageou este ano o escritor Lima Barreto, um neto de escravos que, há cem anos, zurzia as elites brasileiras em português de lei. Na plateia, Diva Guimarães, neta de escravos, pediu o microfone e deixou a praça em lágrimas. A Festa Literária Internacional de Paraty vista do sofá

Por Isabel Coutinho Do Publico

O actor brasileiro Lázaro Ramos desceu do palco montado no altar da Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios e, já no meio do público que assistia à sessão de abertura da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), declamou: “Sobre a tal história da proclamação da República só me lembro que as patrulhas andavam, nas ruas, armadas de carabinas e que meu pai foi, alguns dias depois, demitido do lugar que tinha. E só”. Palavras escritas há muito tempo pelo homenageado nesta edição da FLIP, o jornalista e romancista carioca Afonso Henriques de Lima Barreto (1882-1922), crítico impiedoso e mordaz da Primeira República brasileira.

“A República no Brasil é o regime da corrupção. Todas as opiniões devem, por esta ou aquela paga, ser estabelecidas pelos poderosos do dia. Ninguém admite que se divirja deles e, para que não haja divergências, há a “verba secreta”, os reservados deste ou daquele Ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência (…) Ninguém quer discutir; ninguém quer agitar ideias; ninguém quer dar a emoção’”, lia Lázaro, mostrando até que ponto é actual a escrita deste contemporâneo de Machado de Assis, que descendia de portugueses e era neto de escravos africanos: “Todos querem ‘comer’. ‘Comem’ os juristas, ‘comem’ os filósofos, ‘comem’ os médicos (…), ‘comem’ os romancistas, ‘comem’ os engenheiros, ‘comem’ os jornalistas: o Brasil é uma vasta ‘comilança’”.

Este excerto da crónica A política republicana, que Barreto escreveu em 1918, é uma das epígrafes da biografia Lima Barreto: Triste Visionário (Companhia das Letras), na qual a historiadora e antropóloga brasileira Lilia Moritz Schwarcz trabalhou durante dez anos, e que serviu de base a esta aula dramatizada dada por ela e pelo actor. Não há dúvida de que Josélia Aguiar, a jornalista e biógrafa de Jorge Amado que, pela primeira vez, foi a curadora da FLIP, acertou na mouche quando afirmou que “uma nova história literária e um novo país podem ser repensados a partir de Lima Barreto”. A sessão, tal como todas as da programação principal desta edição, foi transmitida em streaming na Internet, o que nos permitiu acompanhá-la em directo a partir de um sofá lisboeta.

Pelo palco montado na igreja matriz passaram também a escritora Djaimilia Pereira de Almeida, autora de Esse Cabelo (Ed. Teorema), o escritor e tradutor Frederico Lourenço, cuja tradução da Bíblia está a ser publicada no Brasil, o escritor e rapper angolano Luaty Beirão e Pilar del Río, presidente da Fundação José Saramago, que em conjunto com a Fundação Casa de Jorge Amado se estreou na FLIP com uma programação própria na Casa Amado e Saramago, no centro histórico de Paraty. Aí foi lançado o livro Com o mar por meio. Uma amizade em cartas – Jorge Amado e José Saramago, e ainda o catálogo Intelectuais Negras Visíveis (que tem por lema: “Você pode substituir mulheres negras como objecto de estudo por mulheres negras contando a sua própria história”), a somar a um extenso programa que incluiu conversas com os escritores José Eduardo Agualusa e José Luís Peixoto.

Para Luciana Hidalgo, académica e romancista brasileira que também passou pelo palco da FLIP, “o Lima foi o autor brasileiro que mais forçou os limites do que se podia dizer na sociedade brasileira da época, e ainda hoje”. O escritor, lembra a autora da premiadíssima biografia Arthur Bispo do Rosario – O senhor do labirinto (1996) e do ensaio Literatura da urgência – Lima Barreto no domínio da loucura, escreveu do ponto de vista dos excluídos, dos pobres e dos negros, mas teve acesso à educação das classes dominantes. Filho de um tipógrafo e de uma “escravizada alforriada” que se tornou professora, e que morreu quando ele tinha seis anos, Lima Barreto estudou em óptimos colégios particulares graças ao pai e à ajuda do seu padrinho, Visconde de Ouro Preto, um político muito influente.

“Dominava totalmente a língua culta, mesmo se tivesse algumas falhas gramaticais ou de ortografia, e tinha uma sintaxe, uma formação de frases, um vocabulário… criou um estilo tão original, tão sem floreios, tão fora daquele rococó que se fazia na época”, diz Hidalgo, a quem o autor brasileiro recorda, nesse domínio da linguagem, o francês Jean Genet, que escrevia sobre “um mundo dito marginalizado de prostitutas, travestis, criminosos, bandidos, com um francês super-sofisticado e uma linguagem super-poética, um francês comme il faut.” E quando lhe perguntaram por que o fazia, Genet, lembra a escritora, respondeu: “Eu tinha de me dirigir ao meu torturador exactamente na linguagem dele.” Foi o que fez o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma e de Recordações do escrivão Isaías Caminha, sublinhou Hidalgo no palco da FLIP: “Usou a língua do dominador para falar em nome dos dominados”.

O poder das mães e a libertação pela educação

Esta era uma FLIP em que as grandes atracções eram Marlon James, escritor jamaicano, professor de escrita criativa e de literatura no Minnesota, nos Estados Unidos, prémio Man Booker 2015 pelo livro Breve História de Sete Assassinatos (Relógio d’Água), que o New York Times descreveu como “uma remake do filme Balada Sangrenta feito por Tarentino, com banda sonora de Bob Marley e argumento de Oliver Stone e William Faulkner”, e Paul Beatty, professor de escrita criativa na universidade de Columbia, em Nova Iorque. Formado em psicologia, Beatty começou a carreira como poeta, mas foi com o romance O Vendido (Elsinore) que recebeu o prémio Man Booker 2016. Contou que há uma questão que lhe fazem recorrentemente: “Será que alguém não-negro poderia ter escrito o seu livro?”. Ao que ele costuma responder : “Eu sou a única pessoa viva que podia ter escrito o meu livro ou espero ser o único, é só o que posso dizer”.

Mas acabou por ser Na Minha Pele (Objetiva), de Lázaro Ramos, uma mistura de memórias, diário e reflexão, o livro que mais vendeu nesta 15.ª edição da FLIP. O actor é casado com a actriz Taís Araújo (que foi a protagonista da novela Xica da Silva) e juntos — tal como intitulou a revista Isto É, que os colocou na capa em Março — “simbolizam a vitória do talento sobre a barreira racial”. Apresenta há doze anos o programa de televisãoEspelho, no Canal Brasil, onde discute temas de actualidade e é autor de vários livros de literatura infantil. No prólogo de Na Minha Pele, o autor conta que as duas perguntas que mais lhe fazem enquanto actor negro são: “– Sendo um actor negro, o que acha dessa coisa toda de racismo?” e “– Como é fazer um médico, arquitecto, surfista, Roque Santeiro, boémio da Lapa, padre, gay ou seja lá quem for… negro?”. E escreve que quando ouve essa pergunta tem sempre vontade de responder “algo bem esdrúxulo, do tipo: ‘Não sei, pois nunca fiz um médico, arquitecto, surfista, Roque Santeiro, boémio da Lapa, padre, gay ou seja lá o que for…verde”.

No livro, conta ainda que, quando se mudou da cidade baiana de Salvador para o Rio de Janeiro, teve uma conversa com o actor Wagner Moura, o capitão Nascimento do filme Tropa de Elite, que tinha feito o mesmo trajecto e se lamentava de só ser chamado para fazer “papéis de bandido ou de nordestino”. Lázaro diz que lhe respondeu, brincando: “E eu, brother, que só sou chamado para fazer negro? Você, pelo menos, ainda tem duas opções”…

O actor de 38 anos, que ganhou protagonismo internacional em 2002 no filme Madame Satã, de Karim Aïnouz, onde interpretava a famosa drag queen carioca, além de ter interpretado os textos de Lima Barreto na sessão de abertura, partilhou dias depois o palco exterior, montado na Praça da Matriz, com Joana Gorjão Henriques, jornalista do PÚBLICO e autora do livro Racismo em Português — O Lado Esquecido do Colonialismo(co-edição da Tinta-da-China, do PÚBLICO e da Fundação Manuel dos Santos), que resultou de uma série de reportagens à qual foi atribuído o prémio AMI – Jornalismo Contra a Indiferença. A mesa, intitulada A Pele que Habito, foi a que mais marcou esta FLIP, mas como não estava incluída na programação principal, não foi transmitida em directo na Internet.

Joana Gorjão Henriques, como depois da sessão recordou no Facebook, falou da “urgência de nós, brancos, tomarmos consciência da nossa situação de privilégio nas sociedades racistas em que vivemos: as vantagens que temos e a grande vantagem que é a de não sermos vítimas de racismo.” E “não precisamos necessariamente de abdicar do privilégio”, acrescentou, “temos é de o alargar a mais pessoas”. A jornalista fez em 2015 reportagens em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe para ouvir o lado africano sobre as marcas do racismo deixadas pelo colonialismo português, e tentando encontrar respostas à pergunta: “Racismo em português: como foi, como é?”.

Na noite anterior, tinham estado no palco da igreja matriz de Paraty, a escritora Scholastique Mukasonga, uma ruandesa tutsi que perdeu a família no genocídio, e a brasileira Noami Jaffe, filha de uma sobrevivente de Auschwitz e autora do livro O que os Cegos Estão Sonhando? (Relógio D’Água). A conversa teve por tema Em Nome da Mãe e foi moderada pela jornalista portuguesa Anabela Mota Ribeiro. Mukasonga contou que a sua mãe, Stefania, quando voltava a casa de um duro dia de trabalho nos campos, pedia: “‘Minhas filhas, quando eu morrer, quando vocês me virem morta, por favor cubram o meu corpo com o meu pano, ninguém deve ver o corpo de uma mãe’”, uma história que deixou relatada no seu livro La Femme Aux Pieds Nus. “Mataram Stefania. Éramos cinco filhas mulheres e todas morreram, eu fui a única que restou. Não pude cobrir o corpo dela. Foram as palavras, a escrita, que me permitiram tecer essa mortalha para cobrir o corpo da minha mãe Stefania. As palavras têm poder e permitem essa reparação de cumprir um dever que todo o ser humano deve poder cumprir um dia”, disse na FLIP.

A sessão impressionou Diva Guimarães, uma professora reformada que no dia seguinte, ao assistir à conversa entre Joana Gorjão Henriques e Lázaro Ramos, ganhou coragem para falar e acabou a fazer história na FLIP, com uma intervenção que emocionou os oradores e a plateia, e que a organização disponibilizou em vídeo nas redes sociais e se tornou viral. “Eu sou de uma região do sul, você já pode imaginar, vim do interior do Paraná, lá do mato, estudar em Curitiba”, começou Diva Guimarães, explicando que se comovera, na véspera, com o testemunho de Mukasonga. “Tocou-me profundamente porque eu sobrevivi, e sobrevivo hoje, como brasileira, porque tive uma mãe que fez de tudo, passou por tudo que era humilhação, para que nós estudássemos.”

A professora contou na festa literária brasileira, por onde ao longo dos anos já passaram vários escritores negros sempre surpreendidos por se depararem com uma plateia elitista e maioritariamente branca num país bem mais diverso, que foi para um colégio interno aos 5 anos. “As freiras tinham missões e passavam pelas cidades recolhendo crianças: você ia para a escola estudar, mas na verdade ia para trabalhar. Trabalhei duro desde os cinco anos. Sou neta de escravos, e aparentemente a gente teve uma libertação que não existe até hoje”, disse Diva Guimarães, contando que as religiosas lhes impingiam a história de que Deus criara um rio que todos tinham de atravessar, sendo que os mais diligentes, que se apressaram a cumprir a ordem, saíram brancos, ao passo que os mais preguiçosos, tendo entrado quando o rio já só levava lama, apenas conseguiram aclarar as palmas das mãos e as solas dos pés. “Elas contavam essa história para explicar aos brancos que nós, negros, éramos preguiçosos, e isso não é verdade, ou a gente não tinha sobrevivido”, acrescentou, com a voz embargada pelas lágrimas a tentar fazer-se ouvir entre os aplausos.

“Eu sou uma sobrevivente pela educação, pela luta da minha mãe”, afirmou, contando que que esta lavava roupa em troca de material escolar. E quando Diva, que tinha de ir entregar essas roupas às casas das senhoras, lhe dizia que, sendo assim, não queria ir mais para escola, a mãe perguntava-lhe se queria vir a ser como ela. “Eu, que era rebelde, respondia: ‘Igual à senhora? Nunca vou ser’, e a mãe dizia: ‘Então só tem um jeito, vai estudar’. E eu pegava no meu caderninho e saía correndo para a aula, acreditando”, lembrou.

“Quando ela falou do racismo [referia-se a Joana Gorjão Henriques], falei para a moça aqui do lado: ela não está falando de Portugal, está falando do Brasil nos dias de hoje. Em Curitiba, que todos acham que é como as cidades europeias, uma cidade de intelectuais… coisa nenhuma: vão viver como negro e morador da periferia para tirarem esse encanto de Curitiba”, sugeriu, concluindo: “A minha história é longa, mas eu, com todo o preconceito, venci”.

À sua volta muitos limpavam as lágrimas, e o mesmo aconteceu com Lázaro Ramos: “A senhora quer matar a gente, dona Diva. Meu coração está pequenininho. Obrigada pela coragem de contar a história. A senhora falou uma coisa muito importante: a gente precisa de fazer um pacto de investir em educação pública de qualidade. A escola pública tem de ser valorizada. O professor tem de ser valorizado”, afirmou. Joana Gorjão Henriques, horas mais tarde, colocou o vídeo no mural do seu Facebook com a mensagem : “A gente pode ler os livros todos do mundo mas na hora do testemunho real e emocionado nada é mais forte que isto. Diva encarna a imagem do racismo no Brasil e teve a coragem de se levantar e pôr o mundo a chorar. Obrigada Diva”.

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