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Em busca de uma infância cidadã: socialização, identidade e pertencimento racial

Eliane Cavalleiro2

Referência bibliográfica: COSTA, M. F. V. ; COLACO, V. F. R. ; CAVALLEIRO, E. . Em busca de uma infância cidadã: socialização, identidade e pertencimento racial. In: Fátima Vasconcelos da Costa,Veriana Rodrigues Colaço e Nelson Barros da Costa. (Org.). MODOS DE BRINCAR,LEMBRAR E DIZER: DISCURSIVIDADE E SUBJETIVAÇÃO. 01 ed. Fortaleza: Editora da UFC, 2007, v. , p. 117-139.

Considerações iniciais
Quando pensamos na infância, no direito à proteção e aos cuidados que toda criança deve ter, consideramos importante trazer à luz um tema controverso: o racismo presente na sociedade brasileira e a maneira como esse afeta o processo de socialização das nossas crianças.

O debate, no Brasil, em torno das relações raciais mostra-se em crescente visibilidade desde o final do século passado. A atualidade da discussão evidencia a existência e a permanência do racismo e seus derivados na dinâmica sociedade. Torna-se portanto necessária a compreensão de como os indivíduos negros lidam com os efeitos e prejuízos provocados pelo racismo, pelo preconceito e pela discriminação raciais.

No tocante à criança negra, a dinâmica social justifica o interesse investigativo sobre o processo de socialização a partir de um enfoque teórico que permita analisar não somente o social, mas também a singularidade dos sujeitos que, em função do seu pertencimento racial, convivem com o racismo e seus derivados, visto que a compreensão da realidade exige a investigação da maneira pela qual esta realidade é construída (Berger e Luckman, 1976; Silva, 1987; Oeting, 1999; Cavalleiro, 2000).

O objetivo de apreender a construção da realidade remete para a investigação da família, que constitui um espaço privilegiado para a existência de relações mais íntimas, fundamentais para a construção da identidade pessoal. Todavia, há que se considerar que, na atualidade, outras agências socializadoras como a escola, os meios de comunicação, as igrejas, etc. realizam tarefa complementar/suplementar ao processo de socialização desenvolvido no lar e, portanto, colaboram também para a mediação entre a criança e a sociedade, apresentando/significando o mundo social (Rose, 1970; Afonso, 1995; Oeting, 1999; Garcia, 1999; Kelly e Donohew, 1999). É fundamental a analise das dimensões pessoais, culturais e sociais que se encontram em constante interação. A interiorização da realidade é marcada por dois processos básicos de socialização: o de socialização primária e o de socialização secundária (Berger e Luckman, 1976)3 .

O processo de socialização primária refere-se à fase inicial da socialização, que ocorre desde o nascimento do indivíduo, sem que lhe seja possível escolher suas fontes socializadoras, estando, portanto, restrito a aprender o que lhe é ensinado sobre a sociedade e a cultura. Já o processo de socialização secundária, que pressupõe o processo de socialização primária, refere-se a qualquer processo subseqüente que introduz um indivíduo já socializado em novos setores do mundo objetivo de sua sociedade. Podem ocorrer, portanto, vários processos de socialização secundária, dependendo, apenas, da variedade de instituições sociais a que o sujeito se ligará, por opção pessoal ou por determinação social, ao longo de sua vida.

Em se tratando da análise sobre socialização e pertencimento racial em crianças, importa-nos o processo de socialização primária que, ao pegar o indivíduo desde seu nascimento e ao submetê-lo por toda infância, torna-o um ser social típico de sua classe, de sua sociedade, de sua cultura.

Para que esse processo se efetive, o processo de socialização primária criará na consciência da criança uma abstração progressiva dos papéis e atitudes dos “outros significativos” – pais ou adultos responsáveis pela sua educação e cuidado -, para os papéis e atitudes em geral. Berger e Luckman explicam:

“Esta abstração dos papéis e atitudes dos outros significativos concretos é chamada o outro generalizado. Sua formação na consciência significa que o indivíduo identifica-se agora não somente com os outros concretos mas com uma generalidade de outros, isto é, com a sociedade.”

O processo de socialização constitui uma relação dialética na qual o indivíduo ao mesmo tempo em que internaliza o mundo que lhe é mostrado, pode agir para transformar e intervir em seu meio, pois esse processo não é simplesmente ensinado: a criança mostra-se um parceiro ativo, podendo procurar novas informações em outros lugares, que não exclusivamente o familiar. Descarta-se, sobretudo, a possibilidade de um desenvolvimento puramente espontâneo. Ele está diretamente ligado às influências externas a que as crianças são submetidas, visto que é ela um ser social que reproduz o mundo de acordo com as suas experiências.

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1 Artigo elaborado a partir da tese de doutorado intitulada: Veredas das noites sem fim: um estudo com famílias negras de baixa renda sobre o processo de socialização e a construção do pertencimento racial. , defendida na Universidade de São Paulo, em junho de 2003. Nesse estudo foi investigado o processo de socialização em três gerações sucessivas de famílias negras, de baixa renda, moradoras da região central do município de São Paulo. Para esse artigo, privilegiou-se a analise das entrevistas das crianças pertencentes à 3ª. geração. Ver: Veredas das noites sem fim: socialização e pertencimento racial em gerações sucessivas de famílias negras.  Editora UNB, 2007(no prelo).

Doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília.

3 Para uma maior compreensão sobre o processo de socialização secundária, ver: Berger P. e Luckman T. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. Petrópolis, Vozes, 1976.

Berger e Luckman (1976) ressaltam que a socialização primária ocorre, portanto, num contexto de fortes laços afetivos, razão por que o mundo internalizado no decorrer desse processo se torna muito mais persistente e resistente à erradicação do que outras internalizações ocorridas em socializações posteriores.

Tal abordagem compreende a família como aquela que desempenha importante papel na socialização dos indivíduos, pois em seu interior, por meio das relações que nele são estabelecidas, é transmitido um modo de pensar, sentir, agir e reagir a determinados objetos e situações,”o que torna o indivíduo um ser social típico: de um gênero, de uma classe, de um bairro, de uma região, de um país”, como vemos em Gomes, 1994.

Contudo, é importante atentar para o fato de que Oetting (1999), Garcia(1999), Whitbeck (1999) e Kelly e Donohew (1999), sem discordar da impossibilidade que os indivíduos, na primeira infância, têm em escolher as fontes de sua socialização, definem socialização primária de maneira diferente e mais ampla. Para Oetting (1999), o processo de socialização primária muda com a idade, podendo ser realizado simultaneamente pela família, pela escola e pelos pares coetâneos. Assim, em um primeiro estágio de socialização primária, a criança pequena será influenciada fundamentalmente pela família, fonte principal de socialização. Nesse período a família é responsável por desenvolver/consolidar o vínculo com a criança, o que lhe permitirá manter-se influente para transmitir normas sociais.

O segundo estágio na socialização primária começa, para Oetting (1999), quando a criança entra na escola primária e passa, com o avançar da idade, a sofrer uma maior influência de seus pares. Contudo, ela separa as experiências familiares das escolares, mas aprende normas e valores com ambas. Nesse segundo estágio, que vai até a pré-adolescência, a criança começa a formar fortes agrupamentos com outras crianças da mesma idade, e começa a ser fortemente influenciada por essas, paralelamente às influências familiares. Oetting (1999) enfatiza que isto não ocorre subitamente, porém, gradualmente, com o aumento de relações entre os iguais, que passam a assumir um notável papel no processo de socialização. Ele considera a existência de variação de uma sociedade para outra, assim como a possibilidade de as crianças e os adolescentes se associarem com outros iguais, sem ou com a supervisão de adultos.

A aquisição de normas e valores, a construção de características pessoais e de maneiras de se relacionar com as demais pessoas e objetos da sociedade ocorre dentro do processo de socialização primária, que tem como fonte socializadora não apenas os medidores no espaço familiar, mas conta, também, com os profissionais da escola e com as crianças nela presentes, bem como, os iguais do bairro (Oetting; 1999; Garcia,1999; Whitbeck, 1999; Nurco e Lerner (1999).

Street-Porter (1978) e Kelly e Donohew (1999) acreditam também que os meios de comunicação de massa exercem forte influência nesse processo, pois atuam sobre as fontes de socialização primária e possibilitam, também, que a criança internalize crenças normativas, conhecimento e comportamentos em relação a membros de grupos sociais.

Como a questão racial afeta a socialização das crianças?
Como parte integrante do processo de socialização, a criança aprenderá as atitudes em relação ao seu grupo e a outros grupos raciais representativos em sua sociedade que são sustentados pela família e pela sociedade mais ampla. Com isso, aprenderá de qual grupo racial ela é integrante, e disso derivará parte de sua identidade social. Nesse caminhar, tende a adquirir preconceitos raciais, pois as idéias preconceituosas presentes na sociedade em relação à raça são transmitidas – da mesma maneira que todos os valores sociais: por gestos, palavras, atitudes cotidianas, e, em geral, dos mais velhos para os mais jovens.

Rose afirma:

“Os preconceitos fazem parte de uma tradição cultural que se transmite, por assim dizer, espontaneamente: as crianças adquirem-nos pelo contato com os seus professores, colegas, mestres da escola dominical (religiosa), e, sobretudo, com seus pais. Entre estes últimos, alguns não querem que suas crianças tenham preconceitos; outros, pelo contrário, inculcam-nos nelas, porque eles próprios foram educados na convicção de que é conveniente e natural tê-los (…)Mas, na maior parte dos casos, os adultos não têm consciência de que inculcam preconceitos nas crianças” (1970, p. 180).

Deve-se considerar que a organização de uma sociedade racista conta com mecanismos estruturados de discriminação racial. Tais mecanismos encontram-se presentes nos mais diversos fatores que colaboram para a socialização da criança, como já foi enfatizado anteriormente: a família, a escola, os pares, a igreja, os meios de comunicação etc. Estas, ao realizarem a mediação entre criança e sociedade, podem proporcionar-lhes aprendizagens que enfatizem a hierarquia entre os grupos raciais, contribuindo para a propagação de valores, crenças e comportamentos racistas às futuras gerações.

A família, portanto, exerce grande influência na transmissão de valores e crenças a respeito dos grupos raciais, de maneira explícita ou implícita. Os familiares, fontes de socialização, reforçam normas e monitoram comportamentos em relação aos grupos.
No que diz respeito ao sistema de ensino em uma sociedade racista, desde a educação infantil, por meio do currículo escolar, as crianças, brancas e negras, desenvolvem uma série de atividades que, de maneira sub-reptícia, lhes apresentam atitudes e comportamentos socialmente valorizados em relação às pessoas pertencentes a diferentes grupos raciais.
As crianças contam ainda com os meios de comunicação (televisão, jornal, filmes, livros, gibis, revistas, rádio etc.) como um importante influenciador para as atitudes raciais. Assim, no processo de socialização primária, por meio das relações sociais, a criança pode ser levada a cristalizar sentimentos e idéias racistas. E, dada a sistemática dessas relações, ela pode, mesmo sem se dar conta, paulatinamente, incorporar um modo de pensar e agir em relação aos grupos raciais, a ponto de tomar como seus crenças e valores que lhes foram transmitidos por outros.

Desse modo, é possível afirmar que a aprendizagem de racismo começa muito cedo, e constitui um produto de interações com pessoas influentes, que inclui a família, amigos, Igreja, escola e outros.
A reflexão sobre o processo, no que tange à questão racial, para Gomes (1990), mostra-se fundamental dada sua importância na constituição do ser, visto que ao término da socialização primária a criança já terá construído um mundo subjetivo bem como já terá incorporado “papéis sociais básicos – seus e de outros, presentes e futuros” e também terá adquirido “as características fundamentais de sua personalidade e identidade” (p. 60).

Nesse processo gradativo de desenvolvimento, a criança para além de aprender a “realidade objetiva”, vai desenvolver também uma subjetividade: vai, aos poucos, tomar consciência de que possui características físicas e emocionais e atributos próprios – seu autoconceito -, elaborando imagens a respeito de si que a diferencia das demais pessoas (Brice-Heath, 1988; Spencer, 1988; e Klein, 2000). No curso deste desenvolvimento, o autoconceito e a auto-imagem – avaliação que o indivíduo estabelece em relação às suas características próprias bem como aos seus atributos -, de maneira dinâmica, integrarão a construção da identidade, que incluirá ainda elementos fundamentais, como o gênero e a raça (Campbel-Watley e Comer, 2000).

O autoconceito é moldado por uma experiência particular – sem igual -, em um sistema interativo que inclui a família e sua cadeia social primária de amigos e família e organizações significantes. As visões desse coletivo, e o que produzem como as políticas e práticas sociais, estabelecem tanto as percepções e respostas individuais quanto eventualmente determina as bases de avaliação do autoconceito. Ainda, o autoconceito que emerge nesse processo influência o desempenho e a performance individual na escola e na vida. O que significa dizer que a sociedade e as relações sociais estabelecidas pelos indivíduos exercem forte influência na formação de qualquer identidade, pois ela está condicionada a fatores sociais (gênero, raça, classe social, etc.).

Por identidade entende-se um contínuo sentimento de individualidade que se firma a partir de dados biológicos e sociais. Por sua vez, denota características, ao mesmo tempo, subjetivas e objetivas, individuais e sociais, podendo ser entendidas como produto de uma construção e de uma transformação das relações sociais. Resulta de um processo dialético onde o indivíduo é co-produtor, tanto da sociedade como de si mesmo Goffman (1963), Erikson (1976), Berger e Luckmann (1976).

Por seu turno, a identidade racial é uma percepção de que o indivíduo compartilha uma herança racial comum com um grupo particular. Miller (1999) afirma que a identidade racial opera de maneira multifacetada, podendo afetar o comportamento e estados psicológicos de um indivíduo. Tem como uma de suas funções defender e proteger o indivíduo de insultos psicológicos, e advertir de prováveis ataques psicológicos que ele sofrerá por viver em uma sociedade racista. Esse autor considera que o desenvolvimento de identidade é uma tarefa importante para todos os adolescentes. Porém, para aqueles que são membros de grupos raciais que sofrem racismo, como o negro brasileiro, ou de minorias étnicas, como os negros e orientais, nos Estados Unidos, esta constitui uma tarefa particularmente complicada, dado seu ambiente hostil. Miller, apoiando-se em diversos estudos e pesquisas, afirma que identidade racial fortalecida mostrou-se um fator significante na manipulação bem sucedida de tensões quando da experiência com conflitos raciais.

Assim, a identidade racial se desenvolve através de consciência racial (Street-porter, 1978; Spencer, 1988; Connoly, 1998 e Miller, 1999). Por sua vez, a consciência racial é facilitada pela socialização racial: “Enquanto socialização racial é um fator importante no desenvolvimento de identidade racial, socialização é influenciada pela identidade racial da família”, defende Miller (1999, s.p.)

Deste modo, socialização racial e identidade racial estão indissoluvelmente ligadas e podem servir como um “pára-choque” contra as hostilidades presentes em ambientes racistas.
Tendo em vista essas afirmações e a presença do racismo e seus derivados na sociedade brasileira, preocupa a socialização das novas gerações de negros e negras: como a criança pequena está construindo o seu pertencimento racial?

Expressão, sentimento e pensamento da criança negra sobre o seu pertencimento racial 
Para a análise em tela, tomamos com base as entrevistas realizadas com 3 crianças, com idade de 8 anos, moradoras da cidade de São Paulo, estudantes da 2ª. série do ensino fundamental de escola pública da região central da cidade. Vale lembrar que essas entrevistas compõem um estudo com três gerações sucessivas de famílias negras, assim para além das entrevistas com as crianças, contamos também com informações obtidas nas entrevistas realizadas com as mães e as avós. As entrevistas com as crianças foram realizadas em suas casas, em espaço reservado, apenas com a presença da pesquisadora e do(a) entrevistado(a). Em outra situação, no caso de Tobias e de Letícia, realizou-se um diálogo em grupo com mais crianças na escola. A seguir passo a apresentar e analisar as entrevistas das três crianças.

Tobias: para a tez ‘cor de índio’ e para as agressões amnésia
Tobias é um menino de pele bem escura, com um sorriso de dentes perfeitos, sempre estampado em seu rosto. Encontra-se um pouco acima do peso ideal para o seu tamanho e idade, fato que faz com que a avó e a mãe o classifiquem como “gordo”.

Tobias recebe os cuidados, carinho e atenção de sua mãe e de sua avó. A avó cuida do neto ao longo do dia, pois a mãe trabalha fora. A relação entre avó e neto mostra-se bastante afetiva e tem um ar de cumplicidade e proteção mútuos4 . Por sua vez, a mãe, Laura, cuida para que nada lhe falte, estando atenta em lhe providenciar os brinquedos anunciados nas propagandas de TV e por ele pedidos.

As entrevistas com Tobias foram bastante rápidas, pois suas respostas, em muitas questões, com olhar que demonstrava ora espanto ora incerteza, foram vagas, ou então resumiam-se a um ‘sim” ou a um “não”, evidenciando que para ele conversar sobre as relações raciais não era algo comum.

Assim, percorreremos com Tobias sua experiência a respeito do racismo na sociedade, bem como o que pensa sobre seu pertencimento racial. Vale ressaltar que é a primeira vez que ele está sendo levado a refletir sobre essa questão. Em seu lar, como foi explicitado, pela mãe e pela avó, não tem oportunidade de conversar sobre o racismo e outras questões que dele derivam.
Contudo, Tobias, ao refletir sobre pessoas negras e brancas, demonstra a influência de sua avó e de sua mãe, ao afirmar a existência de uma igualdade humana:

“Não tem diferença, branco é igual a negro, negro é igual a branco. É tudo ser humano. Todo mundo sente dor igual.”

Sua fala parece repetir as palavras de sua avó. Todavia, ele sinaliza uma preferência ao compor seu rol de amizade: “[Na escola] Todos os meus amigos são brancos.”
Sua mãe já havia percebido sua afinidade com crianças brancas. Mas ele revela também ter amigos negros: “Amigos pretos? Eu também tenho. Na minha classe tem várias [crianças] assim.”
Nota-se que a maneira como Tobias se refere às crianças negras não parece englobá-lo nesse grupo, como se ele não fosse uma criança negra.
Ao lhe ser pedido para identificar sua raça e/ou cor, ele mostra uma indefinição: “Não sei não…” .
A resposta de Tobias mostra sua incerteza, ou uma dificuldade de se ver enquanto criança negra? Estaria Tobias recusando ser negro?
Em uma segunda tentativa, Tobias esclarece: “Vou falar que sou que nem cor de índio.”5

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4.Quando da realização das entrevistas, Tobias cursava a 2 ª série do ensino fundamental, no período da manhã. O fato de estar nesse período reflete um cuidado de sua mãe, visto que acredita que nesse período as crianças têm mais disposição para aprender.

5 A pergunta que suscitou essa resposta foi: “Se alguém perguntar para você qual sua raça o que você vai dizer?”

Constata-se portanto que Tobias, mesmo possuindo tez escura, opta por declarar uma semelhança com os indígenas.
Sobre o espaço escolar, Tobias afirma a existência de violência física. Nessas situações, a ofensa racial ganha realce, deixando transparecer a presença de preconceito nas relações estabelecidas entre as crianças:

“A menina tinha dado um chute na cara do menino. Ele falou assim, vem sua negrinha feia. (…) O menino era o menino branco. A menina contou para a professora. (…) A professora colocou ele de castigo.”

Porém, no que se refere à experiência pessoal com o preconceito e a discriminação raciais, ele a nega enfaticamente:

“Não, ninguém nunca me xingou de preto… (…) Nem quando eu era pequeno.”

A negativa de Tobias ressalta uma questão: teria ele se esquecido das experiências com conflitos raciais vividas na pré-escola, que foram relembradas por sua avó e mãe? Ou quereria ele se esquecer? Sua resposta refletiria a inexistência de conversas no espaço familiar sobre as questões raciais?
Uma reflexão sobre tais questões torna-se possível considerando-se uma experiência recente vivida por Tobias, e relembrada por sua avó.
Cabe aqui a transcrição da fala da avó, para que seja possível a compreensão sobre o episódio em questão:

“O Tobias já falou. Ele estava complexado até pouco tempo, mas agora… porque outro dia passou aí um rapaz, um homem e falou para ele: ‘Saí da frente neguinho!’. Ele pode até contar para você. Ele sabe que eu sou briguenta, ele deixou o rapaz passar para depois me contar. Aí ele estava com complexo de cabelo. Ele achava que o cabelo dele era duro, esse negócio todo.”

Quando questionado por mim, Tobias afirma não se lembrar desse acontecimento. Mesmo quando descrevo o que sua avó me contou, ele oculta o acontecimento:

“Eu não me lembro dessa história.”

Tobias, mesmo sendo levado a relembrar o episódio, não tece qualquer comentário. Parece já ter aprendido a lição do silêncio que impera em sua família.
Estaria Tobias se defendendo da pergunta ou, melhor, do(s) sentimento(s) provocados pela situação?
É só, ao término da entrevista, com a interferência de sua avó, que ele se recorda da experiência. A avó lhe pergunta: “O cara que aqui na frente chamou você de negro, você não se lembra? Aqui na banquinha quando nós descemos da escola?”
Tobias responde:

“Hã… aquela vez que nós estávamos indo…”

A avó: “Isso…”
Tobias, então, meio sem jeito, comenta:

“Lembro.”

Dona Catarina, mais uma vez, procura fazer com que o neto amplie sua fala: “Então, é sobre isso que eu queria que você falasse para ela.”
Ele porém opta por ficar calado. Sua avó continua a analise:

“Ele não discute com ninguém na rua. Tem gente que acha que criança é sempre boba. (…) Ele é bobão, criado aqui dentro. [Dona Catarina pergunta ao neto:] Você não fica bravo? Você tem que aprender a ser mais aberto.

Tobias, nota-se, lembra do fato, mas sobre ele nada comenta. Mesmo com a insistência da avó, o menino permanece calado. Ela, ao perceber que o neto nada falaria, novamente interfere, e afirma o que pôde depreender do acontecimento: “Ele ficou muito chateado. Ele ficou triste”. 
Percebe-se com isso que a experiência permanecia guardada na memória de Tobias, embora ele a tivesse sufocado.

Quereria ele esquecer-se dessa experiência? Quereria ele evitar relembrá-la ou revivê-la? E o que pode ser pensado no que tange a possibilidade de Tobias viver a discriminação no espaço escolar e também se silenciar? Tobias, ao contar para a sua avó o ocorrido, estaria tentando transpor o silêncio familiar sobre essa questão?.
São questões que ficam sem respostas. Mas é certo que, como assinalou sua avó, a experiência provocou seu entristecimento, o que permite compreender que ele entendeu o tratamento diferenciado do qual foi vítima.

É importante atentar para o fato de que Tobias é uma criança estimulada e amada pelos seus familiares, mãe e avó. Mesmo assim, ao passar por uma experiência de humilhação e constrangimento, tendo como fundo o seu pertencimento racial, abateu-se. A experiência sofrida, segundo sua avó, o deixou complexado e desgostoso com seu cabelo crespo. Para sua mãe, esse episódio o magoou, provocando seu entristecimento.
Tal passagem deixa-nos muitas questões: Se a criança negra, ao ser racialmente ofendida por um adulto, estranho, mostra-se magoada e entristecida, o que podemos dizer dessa experiência quando realizada por pessoas conhecidas adultas e/ou crianças? E mais ainda, o que podemos dizer desses episódios sendo vividos em locais em que se façam presentes pessoas conhecidas? Para além da mágoa e da tristeza que se sente, o dizer a respeito da vergonha e da humilhação? .

Tobias ressalta ainda ser vítima de outras formas de preconceito, pois na escola o chamam de “gordinho”. Para essa situação, ele diz ter xingado seu ofensor e contado o ocorrido para sua professora.
Todavia, para o caso de ser xingado ou racialmente ofendido, o auxílio da professora será por ele buscado, porém o revide à agressão verbal não é anunciado.
Quando perguntado sobre o conteúdo que ele estudava sobre os negros, Tobias evidencia que esses aparecem apenas no contexto da escravidão:

“Ela fala da Abolição, dos escravos… Ela dá lição de história. [Você gosta quando ela conta essa história?] … [Pausa]. Eu não ligo.”

O negro é apresentado a Tobias no espaço escolar em situação de submissão social. Ele procura não se envolver, pois parece não atentar para os acontecimentos, distantes no tempo, que afetavam o grupo negro.
Uma pergunta se faz necessária: Como Tobias constrói seu autoconceito tendo na sociedade, em geral, e no espaço escolar, em especial, poucas oportunidades para significar seu pertencimento racial de maneira positiva?
Nesse caminhar, Tobias fala da situação dos indígenas:

“Os brancos faziam os índios de escravos.”

Sobre a escravização de negros, mesmo ao ser indagado, Tobias não tece qualquer comentário.
Tobias esclarece que sua professora diz que a “escravidão” dos negros foi “injusta”. E, na seqüência, ao ser indagado sobre a situação vivida pelos negros, ele repete a fala de sua professora. Sua resposta, portanto, parece ter sido guiada pelos comentários da professora em sala de aula. Fato que evidencia a importância e a necessidade de apresentar às crianças uma leitura crítica sobre essa questão, visto a possibilidade de que eles se guiariam por ela.

De Tobias, vale a pena salientar que ele vive, desde seu nascimento, em uma família em que o amor, respeito e a admiração à sua pessoa sempre se fizeram presentes e constantes. Ele representa o sujeito que vive em um meio familiar favorável ao seu desenvolvimento, que recebe o amor materno e avoengo que favorece a construção do amor próprio.

Célio: o desejo de ser branco frente à descoberta das diferenças
Desse modo, Célio, criança negra, 8 anos, tez escura, cursando a segunda série do ensino fundamental, quando da realização da entrevista.
Célio afirma ter boas notas e diz apenas faltar na escola por motivo de doença. Para ele há que se estudar para ter emprego:

“Tem que estudar para depois trabalhar. Quem não estuda não consegue trabalhar. Não sabe ler e escrever… não tem emprego. Eu gosto de estudar.”

Célio, em sua pouca idade, já possui um modo de entender e analisar o problema racial, condizente com o modo de pensar de sua mãe:

“Isso é ruim [o racismo], porque deixa a gente triste. Deixa o negro sem dinheiro, sem trabalho. Tem até gente que não tem onde morar. Mora debaixo da ponte. Eu acho muito triste.”

Em sua pouca idade, Célio explica o que ele entende por racismo:

“É quando o branco não gosta do preto.”

Além disso, ele ilustra como o racismo e a discriminação racial operam na sociedade brasileira, e se mostra capaz de identificar os prejuízos que atingem o negro:

“Quando [o negro] não arruma trabalho. Quando as pessoas xingam: ‘Saí, seu negro, daqui!’.”

Ele percebe a existência de diferenças entre negros e brancos. Diferenças essas que vão além das características físicas: pele clara, pele escura; cabelo crespo, cabelo liso. As diferenças apontadas por Célio trazem à tona as hierarquias presentes na sociedade.
Quer seja no padrão estético:

“Não dá para ser branco. Eu queria ter cabelo liso. [Porque ter o cabelo liso?] Porque ia ser mais fácil cortar e sempre ia ficar bonito.”

Quer seja no padrão econômico:

“(…) A criança branca tem mais brinquedo, porque o pai trabalha e ganha mais dinheiro. O preto pode não ter emprego, aí não tem dinheiro para comprar brinquedo para o filho.”

Sobre o racismo contra o negro, Célio lembra-se de algo que viu no programa “Fantástico”, da Rede Globo:

“Tem gente que fala. Eu vi uma mulher que falou para o porteiro: ‘Seu negro sem vergonha, preguiçoso’! (…) Porque ela não gosta de preto. (…) Saiu na televisão. Ele [o porteiro] contou para todo mundo e para a polícia. (…) Ele ficou bravo, não gostou… e contou para todo mundo.”

Para Célio, conversar sobre as relações raciais, sobre os problemas que o negro enfrenta não é prazeroso:

“Eu não gosto muito disso [de conversar sobre ser negro]. [Por quê?] Porque é chato.”

Sobre as conversas com o pai e a mãe, Célio apresenta-se apenas como ouvinte:

“Também é [chato]. Ela fala. Eu só escuto. [o pai] Ele fala um pouco.”

Ele evidencia que, fora do espaço familiar, não tem vivido a possibilidade de refletir sobre essa questão:

“Em nenhum lugar. Não falo sobre isso com ninguém.”

De qualquer modo, sua compreensão sobre brancos e negros pressupõe a existência de igualdade de capacidade ambos:

“Os dois são inteligentes. Todo mundo é.”

Tal aprendizagem pode resultar dos ensinamentos de sua mãe:

“Ela [a mãe] fala que todo mundo é igual. Que não tem diferença. Que um tem que respeitar o outro. Que a gente não pode brigar.”

E também de sua professora:

“[A professora fala] Que branco e preto são iguais. Que o preto era filho de escravo, mas que agora não é mais.”

Contudo, Célio recorda do que é xingado no espaço escolar:

“(…) elas xingam dentro da escola. [Na sala de aula?] Elas [as crianças] xingam no pátio, na hora do lanche, nas brincadeiras “

Nessas situações, sua cor da pele é referida de maneira pejorativa:

“De preto, de escurinho… (…) Xinga de bobo, de preto fedido, de Pelé… “

Para Célio há apenas uma justificativa para os xingos que recebe na escola:

“Só porque eu sou preto.”

Célio afirma sua tristeza ao vivenciar tais situações. Sua lembrança, parece lhe provocar dor, a ponto de diminuir o tom de sua voz e desviar seus olhos dos meus. Deixa transparecer o desejo de não mais ir para a escola:

“Eu fiquei [triste]. Eu não queria ir… mas agora eles são meus amigos”.

Para os episódios em que é xingado, Célio entende que o melhor a fazer é manter-se afastado da criança que o xinga:

“Não vou mais brincar com ela. Eu vou ficar com raiva dela.”

Constata-se que as relações no espaço escolar nem sempre são harmoniosas. E que Célio, ao ser xingado, promove seu auto-isolamento e não conversa sobre o que aconteceu. Sua reação não é a de enfrentamento através de briga, como fora por parte de sua avó e mãe.
Em uma situação, vivida na pré-escola, Célio evidencia ter procurado, mas não ter recebido o auxílio de sua professora:

“Falei… [para a professora] (…) [Ela] Não fez nada, só ficou com uma cara brava. E teve um dia que eu levei brinquedo. E um moleque pegou o meu brinquedo. A gente ficou brincando, ele me deu um arranhão e saiu a carne.”

Estaria Célio entendendo que a agressão física provocada por seu amigo tenha sido em decorrência de seu pertencimento racial?
É importante atentarmos para o relacionamento de Célio com seus amigos na atual escola. Pude observar, na entrevista em grupo, que, diante de um comentário irônico de seu amigo Luís, Célio permaneceu calado:

O menino Samuel (branco) comenta: “Todo mundo diz: Não gosto de ‘nego’! Não gosto!”. Luís (negro), por sua vez, rindo e olhando para o Célio, diz: “Ele é um escravo.” Célio, ao ouvir o amigo, não diz nada, olha para o amigo com ar de assustado, parece que não esperava tal comentário, porém nada diz. Samuel parece querer apaziguar a situação: “Eu penso ele como um amigo muito legal.” Luís reforça sua idéia: “Ele tem cor de escravo. Olhe a pele dele!” Samuel, mais uma vez, atenua a crítica do amigo a respeito da negritude de Célio : “Mas ele é bom aluno.” Célio, apenas diz: “É, mas eu tirei um regular e um bom”. Samuel diz: “Mas a inspetora disse que o seu comportamento foi bom.” Célio encerra: “Mas eu tirei um regular.”

O fato de o amigo Luís tê-lo chamado de escravo o surpreendeu e o impactou, porém Célio não reagiu. O amigo Samuel (menino branco), no entanto, percebendo que o comentário do Luís era negativo, procurou valorizar o amigo negro, classificando-o como um bom amigo e bom aluno. Assim, ele chama a atenção para o desempenho escolar de Célio.
Célio permanece quieto e, ao ser mais uma vez elogiado por Samuel, tenta demonstrar que não é tão bom quanto o amigo pensa, pois havia tirado um conceito “regular”. 
O diálogo acima mostra o alto nível de exigência de Célio para consigo mesmo. Ele não só não se defende, como quase diz que não merece ser defendido.

A história de Célio nos remete à história de uma criança negra que vive com sua família e conta com seu apoio para a sua sobrevivência e desenvolvimento.
Assim, as compreensões apresentadas por Célio, a respeito do problema racial na sociedade brasileira e seus efeitos sobre sua vida, confirmam que a criança negra, desde pequena, percebe e constrói conhecimento sobre a existência da hierarquia racial que impera na sociedade e mesmo que seja orientada pela família para que possa reagir e para que possa contar para os familiares, nem sempre consegue fazê-lo.

Célio, com bastante, pertinência, reflete sobre as relações entre negros e brancos, apresentando a estética e o poder econômico como elementos que aprisionam o negro em um lugar inferior nas relações sociais.

Letícia: uma ‘moreninha’, numa família de ‘pretos’
Letícia, filha de Antônia e de Pedro, é uma menina bastante sorridente e espontânea. Mostra-se muito curiosa. Em poucos minutos ao seu lado, sou convidada a responder muitas questões. Cada resposta desperta-lhe novas curiosidades, que ela quer imediatamente satisfazê-las. O modo como conversa e faz suas perguntas fazem-nos perceber sua esperteza e desenvoltura. Notei também que ela, na relação com sua avó e com sua mãe, mostra-se bastante afetiva, beijando-as com freqüência. E, com a mesma freqüência, dá e solicita carinho e atenção. Com a irmã, mostra-se também carinhosa.

Para falar sobre o pertencimento racial de sua família, inicialmente, ela se ampara nas conversas que mantém com sua avó:

“A minha avó é preta… Ela já falou da avó dela que era escrava. Mas eu não sei a história. (…) Meu pai e minha mãe também são pretos. A Lu [irmã] é pretinha.”

Todavia, ao se autoclassificar, procura clarear sua cor, e declara:

“Eu sou moreninha”.

Assim como sua avó e sua mãe afirmaram, em suas lembranças da época da infância, Letícia também afirma não gostar das características de seus cabelos:

“Eu não gosto muito do meu cabelo. Ele é duro e não mexe. Dói muito na hora de fazer as tranças.”

As tranças por ela rejeitadas, contudo, recebem elogios de sua avó:

“Minha avó fala que as tranças são bonitas. Ela fazia também na minha mãe quando ela era criança.”

E também apresenta os elogios de sua mãe:

“A minha mãe falou para parar de reclamar, que meu cabelo é assim. Ele é bonito. Ela disse que quando eu crescer o meu cabelo também vai crescer. Ele vai ficar bem comprido. Daí vai dar para fazer ele ficar enrolado.”

No espaço escolar, as mesmas tranças causam-lhe constrangimentos:

“(…) Mas, na escola, os meninos fazem graça. Eles puxam, e falam que é cabelo de Bom Bril. (…) Quando eu coloquei canecalon, os meninos e as meninas também gozaram de mim. Meu cabelo estava curtinho e depois ficou comprido. Eles riam e falavam que eu tinha cabelo de boneca.(…)Eu não quis colocar mais.”

Quando Letícia narra esse episódio, seu rosto abandona o ar alegre, passa a expressar tristeza. Sua fala perde a força e a dor se sobressai:

“Eu não gosto do cabelo assim. Queria que ele fosse lisinho, lisinho e compridão [ela estica a palavra]… Não ia doer para fazer as tranças. Também ia balançar.”

Ela lembra o fato de sua irmã ter igualmente dificuldades de lidar com o cabelo crespo:

“Ela chora para arrumar o cabelo. Ela não gosta de fazer tranças. A minha avó tem que segurar ela com muita força.”

Quando o assunto é cabelo, parece que todas as mulheres da família padecem das mesmas dificuldades:

“Ela [a mãe] também reclama do cabelo dela. Ela passa alisante. Um dia queimou a cabeça dela. É porque o cabelo é ruim, é cabelo de nêgo.”

Letícia, menina falante, responde rapidamente às questões, que lhe são feitas. Mas, ao ser solicitada a falar sobre as relações entre brancos e negros, perde a espontaneidade. Inicia sua explicação de maneira reticente, mas ao final, apoiando-se nos ensinamentos de sua avó, expressa, tendo como base uma linguagem teológica, a igualdade humana:

“Eu não sei não (…) Eu acho que todo mundo é igual… Que não tem diferença… A gente é filho de Deus. Ele fez todo mundo igual. Todo mundo nasce igual, sente dor e morre igual. A minha avó já falou que não se deve maltratar ninguém, Deus está vendo tudo. Ele não quer ver ninguém sofrendo, nem branco nem preto. É todo mundo filho de Deus.”

Todavia, embora sua fala chame a atenção para a igualdade entre brancos e negros, as desigualdades sociais são percebidas:

“Tem mais rico que é branco. Tem mais rico que anda todo bonito com terno e gravata, eles são ricos. Eles são mais… brancos. [E as mulheres brancas?] As mulheres também… elas gastam muito dinheiro com roupa. Lá onde minha mãe trabalha, tem assim.”

A análise de Letícia mostra-se verdadeira na medida em que, na sociedade, é perceptível, até mesmo para uma criança, o quadro de desigualdade econômica entre negros e brancos. No que se refere às mulheres, sua fala parece ilustrar a situação narrada por sua mãe, que, na entrevista, afirmou trabalhar em uma confecção de alto nível, que tinha por regra apenas admitir vendedoras brancas. Parece tal situação pertinente com o descrito por Letícia.

No que se refere a conversas sobre ser negro no espaço familiar, sua recordação evidencia o afeto de sua mãe por elas, bem como um reforço positivo ao pertencimento racial familiar:

“Minha mãe gosta do meu pai, porque ele é preto. Ela disse que quis casar com preto para ter crianças pretas, bem pretinhas, porque ela gosta assim.”

Nota-se que o depoimento de Letícia evidencia uma preocupação, por parte de sua mãe, com um reforço positivo quanto ao pertencimento racial familiar.
Prosseguindo, ela evidencia que seu pai participa também nesse processo, visto que, na relação com as filhas, ele valoriza o pertencimento racial familiar:

“Meu pai fala que a Lu é a princesa pretinha. A princesinha pretinha dele. (…) Eu sou a boneca preta dele. Ele e minha mãe compraram bonecas pretinhas para mim e minha irmã.”

No que se refere às relações entre negros e brancos no espaço escolar, inicialmente Letícia afirma a existência de relações harmoniosas:

“Na minha escola, todo mundo brinca com todo mundo. Sempre tem criança branca brincando com criança negra. (…)”

Mas, em seguida, relembra conflitos vividos por uma amiga negra na escola:

“Tem uma menina bem pretinha… ela é bem escurinha. Ela brinca  com a gente, mas todo mundo fala que ela é preta que nem carvão. (…) As crianças falam que ela é preta-carvão”

Letícia chama a atenção para o sofrimento que tal experiência pode provocar:

“Eu fico com pena dela. Eu sei que ela fica triste. Ninguém ia querer ser xingado de preto assim, perto dos outros, né?”

Entretanto, uma experiência pessoal de discriminação racial é paradoxalmente negada:

“Ninguém me xinga. Tem um menino bobo que já me xingou. Mas ele já parou de xingar. Mas eu não ligo para ele. Ele é um bobo.”

Sobre a possibilidade de ser racialmente xingada e ofendida como a amiga ela afirma:

“Eu ia ficar muito triste. [Você contaria para alguém?] Eu ia contar para a professora brigar com as crianças. [E para a sua mãe?] Para a minha mãe não, porque ela não está na escola.”

Nota-se que a professora é percebida como a pessoa que deve resolver o conflito no espaço escolar. A mãe, por estar fora desse espaço, não é considerada como uma pessoa a ser informada sobre o ocorrido. As pessoas da família não são pensadas como alguém que também deva saber do acontecimento.

Isso revela a distinção, mesmo que inconscientemente, entre as instituições família e escola e seus respectivos papéis educacionais.

Letícia afirma a não-existência de reclamações sobre conflitos raciais por parte de sua irmã no espaço escolar:

“Ela não fala nada. Ela nunca falou nada.”

Sobre sua escola, tem idéias positivas e afirma o gosto por estudar:

“Eu gosto da minha escola. Eu tenho muitos amigos lá. (…) Estudar é bom, para quando crescer trabalhar e ganhar dinheiro. (…) Eu vou querer ser professora. (…) Porque professora ajuda as crianças, ensina… é legal.”

Na escola, ela afirma conviver com amigas brancas e negras:

“Tem mais crianças brancas, tem poucas crianças negras. (…) Minha melhor amiga é a Carol. Ela também é moreninha. A gente briga um pouco só, mas estamos sempre pertinho [uma da outra]. (…) eu tenho também amigas brancas e tenho amigas pretas..”

Sobre o que aprende na escola em relação ao negro, Letícia refere-se apenas ao passado de escravidão que experienciou seus antepassados:

“A gente sempre estuda… a escravidão. Fala dos negros que saíram da África e vieram trabalhar aqui.. (…) A escravidão não dava casa para eles morarem, não ganhavam dinheiro, e também apanhavam muito quando não faziam o que o chefe mandava.”

Sobre essa situação, percebe-se que sua análise é feita sobre as informações transmitidas na escola:

“Eu acho que era muito triste. Porque… a minha professora falou que eles sofriam muito. Trabalhavam muito… e a mãe não podia cuidar do filho.”

No que se refere ao seu sentimento quando do estudo sobre essa matéria, Letícia expressa certo desconforto:

“Eu não ligo… eu fico só um pouco triste. (…) Porque eles são gente… que nem a gente, e sofreram muito. Podia ser com a gente.”

Ao refletir sobre a presença de negros nos programas de TV, ela procura evidenciar uma participação igualitária:

“Tem sim. Na TV tem gente preta e branca. [Em quais programas tem crianças negras?] No programa da Xuxa tem uma menina. No Gente Inocente também tinha um menino.”

Letícia reflete sobre as apresentadoras de programas infantis:

“Tem a Xuxa, a Eliana, a … Jaqueline. (…) Elas são brancas (…) Não tem negras… Porque tem que ser… tem que ser muito bonita…”

Nota-se que, para Letícia, a beleza constitui uma das característica fundamentais para a participação das mulheres brancas como apresentadoras de programas infantis. No entanto, ela não hesita em afirmar a capacidade das mulheres negras em desempenharem essa atividade:

“Ela [uma mulher negra] ia fazer tudo direitinho. (…) Iria cantar, conversar… brincar com as crianças e com os bonecos. Conversar com quem trabalha na televisão [atrizes e atores].”

Percebe-se, portanto, na fala de Letícia, a marca de relações sociais racistas que excluem o negro de determinados setores da sociedade afirmando, sua inadequação/competência pautada em características fenotípicas.
Das entrevistas em grupo com Letícia, e mais três amigas – Carol (negra, de pele clara), Camila (branca) e Juliana (negra), – é necessário salientar que as compreensões destas meninas, no que tange às relações raciais e ao racismo presente na sociedade, mostraram-se coerentes com o que já foi exposto na análise de Letícia. Todas afirmaram a igualdade entre brancos e negros, bem como a existência de harmonia no espaço escolar. Também apresentaram a escravidão como o ponto inicial de conhecimento sobre o negro.
Contudo, no decorrer das entrevistas em grupo, pode-se considerar que Letícia apresentou-se com bastante desenvoltura em questões como o cotidiano escolar e as relações de gênero. Eu pergunto: “É igual ser menino ou menina?”
Letícia responde:

“Tem diferença: a menina fica com a mãe, porque tem que ajudar a fazer as coisas. Ajudar a mãe a dobrar a roupas, guardar as roupas, lavar louça, secar. Os meninos não fazem isso. Menino é muito chato, é muito resmungão.”

No entanto, quando a discussão é sobre relações raciais, Letícia, torna-se apenas espectadora, uma ouvinte silenciosa, mesmo diante de comentários de suas amigas, como o exemplo abaixo evidencia:

Eu pergunto: “É igual ser menina negra ou menina branca?”

Camila, menina branca, responde, evidenciando uma idéia preconceituosa em relação às meninas negras:

“As meninas morenas são as mais chatas que tem. [Por quê?] Porque elas querem se achar brancas, ficam falando não sei o quê de negas.”

Carol, uma menina negra de pele clara, diz:

“Tem uma nega no prédio… ela tem olhos castanhos. Só vive de cabelo amarrado… Não tem nada a ver: amizade é amizade, cor é cor.”

Letícia, assim como Juliana, embora estivessem prestando atenção na conversa, não tecem nenhum comentário, permanecem caladas.

Assim, da conversa com Letícia, depreendem-se algumas características a serem analisadas. Remeto, mais uma vez, ao fato de estarmos diante da experiência de uma criança negra educada no seio familiar, pelos pais, com o apoio da avó materna. Criança que vive com conforto material.
Percebe-se que Letícia tem na avó, ainda que suas lembranças tenham parecido frágeis, a possibilidade de reconhecer-se, já no espaço doméstico, como uma menina negra, descendente de ex-escravizados africanos. Das conversas e diálogos com seus pais, é pertinente afirmar que vive também a possibilidade de perceber a cor da sua pele como uma característica positiva, pois sua cor está explicitamente contida em meio aos elogios e comentários no espaço familiar.

Todavia, percebeu-se que ela, mesmo nomeando seus familiares como preto, declara a si própria como moreninha. O que indica para si um clareamento, em relação aos seus familiares, que não é percebido na realidade. Letícia é tão preta quando seus pais e sua irmã.

O que a faz elidir sua cor? Seria resultado dos conflitos vividos no espaço escolar?
Sabemos que ela tomou contato com conflitos raciais por volta dos 4 anos de idade, ao ingressar na educação infantil. O modo como sua família toma conhecimento do ocorrido é via reclamação da professora da menina pela sua apatia em sala de aula. Pois ela não explicita sua experiência, passa a rotineiramente reclamar de seu cabelo crespo.
Diante do ocorrido, Letícia tem sua mãe ressaltando sua beleza, e acentuando o pertencimento racial da família. Dela recebe também incentivo para não dar importância para a criança que dela “zombe”, além do conselho de contar para a professora e para ela quando diante de ocorrências desse tipo.
Mas é pertinente supor que faltaram a Letícia elementos para significar a situação em que vivia. Letícia não estava sozinha, mas manteve em segredo os conflitos raciais que viveu e assistiu na escola.

Fato é que embora afirme a existência de relações harmoniosas em sua escola, paradoxalmente apresenta uma criança negra, como sofredora de constantes ofensas raciais na relação com as demais crianças, nesse espaço. E, ao analisar a situação da amiga, Letícia chama a atenção para o sofrimento que o conflito gesta, como se ela mesma já o tivesse experienciado.
Assim, uma questão, mostra-se pertinente: ao se afirmar “moreninha”, não estaria buscando um modo de precaver-se contra possíveis ofensas e a exemplo de sua colega?

Considerações finais
Buscou-se compreender como a criança negra, pertencente a famílias negras de baixa renda, expressa, sente e pensa o seu pertencimento racial. A análise das falas das crianças, participantes da pesquisa, permite tecer algumas considerações.
Uma refere-se ao fato de que o pertencimento racial deve ser considerado um elemento importante para a análise do processo de socialização, e a partir desse para a análise do processo de construção da identidade, do autoconceito e da auto-estima.
As crianças entrevistas evidenciam a aprendizagem e interiorização de valores e de atitudes em relação ao seu grupo de pertencimento racial. Nota-se com isso que a construção do pertencimento racial para a criança negra não tem se dado de maneira tranqüila. As crianças analisadas apresentaram idéias preconceituosas e estereotipadas em relação ao ser negro. Em oposição, na percepção dessas, o ser branco aparece com mais positividade, tanto para questões estéticas, de relacionamentos sociais, quanto econômicas. Nessa dinâmica, características próprias, que dão base ao pertencimento racial, como a cor da pele e textura do cabelo, começam a ser negadas ainda na tenra infância.
Percebe-se ainda que, mesmo contando com o apoio, cuidados e carinho familiar, a criança negra trava contato com a discriminação e com o racismo. Fato que lhe impinge sofrimentos e prejuízos. Notou-se, diante desses, um sentimento de vergonha e o aberto desejo de pertencer ao grupo branco, por perceber que esse grupo goza de melhores situações na sociedade e nas relações sociais.
A trajetória de Célio, Tobias e Letícia mostram que os pares na escola exercem forte impacto na socialização da criança negra, na medida em que a influenciaram na percepção sobre o pertencimento racial, a ponto de gestar nesses um sentimento de recusa às suas características raciais. Observa-se, com isso, que o ambiente externo atua poderosamente sobre a construção da identidade da criança negra, mais ainda do que o ambiente familiar. O mesmo pode-se afirmar sobre a construção da auto-imagem, cujos elementos de valoração são buscados no meio social e não no meio familiar.
Desse modo, é possível afirmar que as aprendizagens que remetem a crença de uma hierarquia racial entre brancos e negros são experienciadas muito cedo, e constitui um produto de interações com pessoas influentes, que inclui a família, amigos, escola e outros. Portanto, analisar a socialização de negros(as) na dinâmica racial brasileira requer aprofundamento teórico pautado em estudos que fortaleceram o conhecimento sobre temas relacionados à realidade do negro em geral e, em particular, do negro brasileiro em seu processo de interação com outros homens e mulheres, brancos e negros.

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