sábado, setembro 18, 2021
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Empresária Luiza Helena Trajano compartilha aprendizados sobre diversidade nos negócios e como mudar o Brasil

Única mulher entre as dez pessoas mais ricas do Brasil, a empresária Luiza Helena Trajano, presidente do conselho de administração do Magazine Luiza, diz que é o mercado financeiro quem tem mostrado que promover diversidade nas empresas é também sinônimo de lucro. Na outra ponta, afirma, os consumidores estão exigindo engajamento e postura cidadã antes de fechar a compra.

“O que está acontecendo agora é um fenômeno, as empresas estão tomando consciência de que têm que ter diversidade. Não é nem pelo ideal, é para o negócio delas”, disse Trajano, em entrevista exclusiva a Ecoa. “Não tem nada que mude mais do que quando o mercado financeiro compra [uma ideia]”.

Defensora de política de cotas e da maior participação de mulheres em espaços de decisão nas companhias, Luiza Trajano foi quem saiu publicamente para explicar o processo seletivo para trainees exclusivo para profissionais negros no último ano. A medida gerou intenso debate nas redes sociais e chegou a ser chamada de discriminatória por alguns internautas.

“Quero deixar bem claro que a porta de entrada foi abaixada, mas depois que eles passaram essa porta, todas as outras continuaram as mesmas. Se você tem um filho que não está bem em matemática, o que você faz? Você dá reforço. Eles não tiveram oportunidade de ter o inglês particular, então o que nós fizemos? Eles vão ter reforço agora”, diz.

Trajano é presidente e uma das fundadoras do grupo Mulheres do Brasil, uma rede suprapartidária que reúne mais de 70 mil empresárias, artistas, profissionais liberais e de organizações comunitárias para discutir e influenciar políticas públicas no Brasil. “Eu só acredito na transformação de uma nação quando a sociedade civil organizada resolve assumir. Não tem nenhum salvador da pátria”.

Na entrevista a seguir, a empresária fala ainda sobre racismo, pandemia, políticas de diversidade nas empresas, mercado financeiro e uso de novas tecnologias no combate a discriminações.

Ecoa – Como o Magazine Luiza identificou a necessidade de um processo seletivo apenas para negros? Qual foi o processo dentro da companhia até adotar essa medida?

Luiza Trajano – Se existe um tema que a gente sempre trabalhou no Magazine Luiza foi diversidade, mulheres e negros. Nas convenções, a gente tinha 1.800 líderes ao vivo e, bem antes desse programa, já tinha levado os movimentos negros, o Mulheres do Brasil, gerentes negros, para falarem sobre o assunto. A gente tem cinco causas inegociáveis para demissão por justa causa e um deles é discriminação por raça, religião, sexo. Isso não é de agora.

A violência [contra a mulher] eu só levei para lá quando eu tive um caso muito sério dentro da empresa, perdi uma gerente, e fiquei muito mal. Foi quando nós tomamos todas as medidas. Só que igualdade racial não era uma coisa nova para os líderes do Magazine Luiza, como a violência era. Fazia uns dois ou três anos que eu chegava para a diretora de RH e perguntava: “Patricia, quantas vagas você tem para trainee?”. Ela falava que eram 20 ou 18. “Eu te dou duas [vagas] a mais da minha verba para trazer negras e negros”. Chegava no fim da seleção, não aparecia. Este ano, o Frederico [Trajano, CEO do Magazine Luiza] mandou fazer uma pesquisa em janeiro e concluiu que nós temos 53% de negros na empresa, mas só 16%, no alto escalão. Aí eles resolveram fazer um programa de trainee só para negros, consultaram o comitê do conselho, advogados e eu ainda disse “gente, como o tema é muito polêmico, vocês chamam pessoas capacitadas para ajudar”. Então convidaram Mulheres do Brasil, [a Universidade] Palmares e negros que tinham cargos na empresa, funcionários nossos. Quando foi uma sexta-feira, o [ator] Lázaro Ramos, que tinha escrito um livro sobre isso, lançou o programa nas nossas redes internas. Mandaram para a imprensa para ter mais inscrições, e deu tudo isso que você viu.

Não tinha a pretensão de mudar o Brasil. Aquele fim de semana veio muita agressividade, o que assustou muita gente — eu nem tanto, porque já estou acostumada a mudar paradigmas quando discuto violência, cotas para as mulheres. Depois foi tanto apoio que nós recebemos, do Brasil inteiro, dos funcionários que mandavam fita de cliente cumprimentando.

Quero deixar bem claro que a porta de entrada foi abaixada, mas depois que eles passaram essa porta, todas as outras continuaram as mesmas. Se você tem um filho que não está bem em matemática, o que você faz? Você dá reforço. Eles não tiveram oportunidade de ter o inglês particular, então o que nós fizemos? Eles vão ter reforço agora, mas depois disso não teve nenhuma porta diferente. Então igualdade racial já era um tema trabalhado na empresa, que não foi eu que criei, que foi a equipe, e foi um programa muito estudado, inclusive com advogados. Sofremos ameaças, mas ao mesmo tempo recebemos muitas devoluções, de muitos movimentos, e aí eles entenderam o programa.

Tirei duas lições: primeiro, que o racismo estrutural é muito mais sério. Vivi na pele quando descobri o meu, quando vi que na minha casa não tinham negros nos meus aniversários, que as minhas melhores amigas não eram negras; e aprendi também que o Magazine ia ter que fazer um bom programa, porque ia ter o mundo inteiro olhando.

Luiza Trajano

Há pouco tempo, a senhora falou que a política de cotas da empresa era um “processo transitório para acertar uma desigualdade”. Depois da seleção para trainees negros, quais serão as próximas ações para reduzir essas diferenças?

O próximo passo é encaminhar os que ficaram muito bem e não entraram [no programa de trainee]. Nós vamos ter 20 pessoas [contratadas], mas pode ser que 40 ou 50 ficaram bem, então queremos ajudá-los. Essa é uma preocupação agora. E o outro passo é fazer esse programa bem, realmente colocar gente em vários postos para servir de exemplo, porque o exemplo é que vai resolver. Por que eu sou a favor de cotas? No passado, a gente já era a melhor empresa para se trabalhar e nunca tinha olhado para deficientes, por exemplo. Falei “puxa, se eu, que sou voltada ao humano, nunca olhei para isso, imagina os outros”. Aí eu fui estudar cotas, que é um processo transitório. Na época, 11 anos atrás, até as mulheres falavam “meritocracia, Luiza”, e tomei muita paulada por defender cota. Então talvez nós vamos até ter um processo de cota, não sei como vai ser.

Ainda sobre o processo de trainees, a senhora disse que o objetivo era solucionar um problema da empresa, mas o caso extrapolou a companhia e gerou grande repercussão. Você acha que, ao final, a ação influenciou a opinião pública e fez com que outras empresas refletissem sobre o tema?

Eu quero deixar bem claro que eu devo muito para o George [Floyd, assassinado pela polícia em maio nos Estados Unidos]. Aquele enforcamento de 8 minutos em um momento muito sensível, em que as pessoas estavam em casa, mudou a visão do mundo sobre o racismo. A gente já estava até criando o programa… mas sabe uma coisa na hora certa e no momento certo? A morte desse rapaz não foi em vão. Eu acho que ele foi um instrumento de mudança no mundo, porque depois do George muitas empresas que nunca tocaram nesse assunto começaram a discuti-lo. Eu acho que a nossa ação mobilizou para que outras vissem que é possível fazer alguma coisa.

A senhora defende a paridade nos conselhos das empresas e o aumento das lideranças femininas, mas sabemos que mulheres enfrentam desafios para além da carreira, como a violência doméstica, a tripla jornada e muitas vezes são demitidas ou deixam de crescer profissionalmente por conta da maternidade. Como combater a desigualdade de gênero nas companhias tendo em mente esses obstáculos?

Nós temos um grupo de 70 mil mulheres de todos os níveis e todas as classes. Eu falo para elas que eu tinha tudo para ser discriminada, porque sou do interior, eu falo “porta” e “portão” [puxando o “R”], não nasci “filha de fulano”, “filha de ciclano”, ainda sou a única mulher presidente de empresa no meu segmento. Você imagina isso 40 anos atrás, quando eu cheguei, quando eu vinha para São Paulo falando do Magazine Luiza sendo mulher, uma empresa desconhecida, eu não tendo “pedigree” nem de estudar em Harvard, nem fora do Brasil, nem na FGV [Fundação Getúlio Vargas] em São Paulo — com muito orgulho eu estudei na minha terra.

Por intuição ou por benção, eu segui algumas coisas que me ajudaram muito. Primeiro, não querer ser masculina. Isso me ajudou na relação com os homens. Até hoje eu não uso calça comprida para trabalhar, eu queria ser feminina. Segundo, é que eu sou de uma família em que a mulher já trabalhava. A minha mãe falava para mim: “você não tem que ter problema, você tem que ter solução”. Eu falo para as mulheres que elas precisam não ter dó delas, mas saber rebater. Eu não falo mal de ninguém, mas eu me posiciono.

Sob o ponto de vista das empresas, o que elas podem fazer para promover a liderança feminina?

Acho que as empresas estão aumentando o seu nível de consciência, entendendo que se não tiverem mulheres e negros nas lideranças, não vai ter o mapa do Brasil [representado].

Muitas lideranças dizem que não contratam mulheres, negros e outras minorias sociais porque não recebem currículos que se encaixam nas vagas ofertadas. Como você responde a esse tipo de argumento?

Essa é a primeira desculpa que aparece, por isso que a cota entra. Quando você põe cota, a pessoa aparece. Nós não pusemos cota para contratar 20 trainees [negros]? Isso é uma cota. E aí apareceu não sei quantas mil pessoas, porque aí você adapta para aquele momento. Enquanto você estiver buscando desculpas, não vai ter diversidade. É abaixar a porta de entrada, às vezes, e você vai ver que o resultado final é muito mais importante. A mulher hoje decide até o carro que vai comprar. Como você não vai ter mulher em um conselho? Não é por ser eu. Quando estou em conselho, a minha força feminina é totalmente diferente, mas eu tenho muito respeito à força masculina.

E como garantir que esses profissionais sigam se desenvolvendo dentro da companhia?

Nem precisa de muito treinamento operacional quando você desenvolve o nível de consciência e diz “a oportunidade está dada”. Você precisa querer vencer, e querer é algo que depende só de você.

O Magazine Luiza foi uma das primeiras empresas a vender pela internet e tem presença nas redes sociais com a Lu [assistente virtual da empresa]. Sabemos, no entanto, que os algoritmos não são neutros. Como fazer para que eles não reproduzam preconceitos de raça e gênero?

Sabe porque não tem [preconceito]? Porque o humano é a nossa espinha dorsal. A Lu faz exame de prevenção de câncer de mama, a Lu vira blogueira. A tecnologia tem que estar a favor do humano, e não humano a favor da tecnologia. Nós não temos isso. O Frederico [Trajano] fala que só acredita no digital se vier com o humano. A Lu existiu para dar o humano do Magazine, e ela faz tudo humanamente. Ela erra, ela pede desculpas, ela redireciona. Nós temos que ter algoritmo, inteligência e tudo, mas ele não é o nosso fim, ele é o nosso meio. O nosso fim é não perder o humano.

A senhora nunca assumiu cargo público, mas se engaja em ações que influenciam políticas, como a carta de intenções lançada por Mulheres do Brasil para candidatas mulheres. Na sua opinião, qual é o papel dos empresários e da sociedade civil na política?

Quando você descobre que política não é política partidária. Eu sou política mesmo, desde menina eu fui, na escola, em todo lugar em que estava. O grupo Mulheres do Brasil é político, mas somos apartidárias. E eu só acredito na transformação de uma nação quando a sociedade civil organizada resolve assumir. Não tem nenhum salvador da pátria. Enquanto Mulheres do Brasil, eu quero que o SUS [Sistema Único de Saúde], que é o melhor programa que existe de saúde no mundo, seja o que está na Constituição. E não importa se for esquerda ou direita, importa quem está fazendo para nós.

É possível falar em sucesso hoje apenas olhando para EBITDA? De que maneira podemos mudar a percepção de empresários e sociedades sobre o que é um negócio de sucesso?

Não tem nada que mude mais do que quando o mercado financeiro compra. O Goldman Sachs só vai abrir IPO se tiver mulheres no conselho; a Nasdaq, com diversidade na empresa. Então, o grande salto é quando o mercado financeiro compra e tem políticas públicas.

Diversidade nas empresas dá lucro?

Quem está falando isso não sou eu não, são os fundos. Eu só não quero que o povo fique cobrando aqueles que não fizeram. Vamos vibrar com o que está aqui e agora, porque o desafio de ter uma indústria, uma empresa no varejo no Brasil não é fácil… é juro, é mudança política, impostos altíssimos. A gente também segurou uma barra muito grande.

De que forma a agenda de diversidade nas empresas se conecta ao contexto de incertezas por conta da pandemia do novo coronavírus?

Nunca foi tão forte falar isso, porque a desigualdade social foi escancarada [na pandemia]. Agora está todo mundo se sentindo responsável por essa desigualdade social, não é mais só o governo. A tempestade foi para todo mundo. Eu estou em uma casa muito boa, mas teve gente que estava em um cômodo com 15 pessoas e que teve Covid. Isso foi mostrado. Quando você vai para o sertão e vê a pobreza, você nunca mais volta o mesmo. Aumenta o seu nível de consciência.

 

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