Entre a realidade e a Academia: experiência, militância e formação feminista

Hoje eu quero começar o texto fazendo um diálogo com a Talita Rodrigues da Silva, que escreveu no dia 30 de maio sobre formação, informação e experiência no Feminismo. Olha que brilhante a sacada dela:

Assumir-se feminista, portanto, demanda formação, pois raramente conseguiremos nos despir dessa carga de opressão sem buscarmos visões alternativas, seja recorrendo a autoras clássicas, personalidades que discutem gênero sob viés mais próximo do academicista, ou em contato com militantes.

Eu quero então falar um pouco sobre a minha experiência nesse processo de formação – que é super doloroso em alguns momentos, e excitante em outros. Quero mostrar um pouco do que tenho encontrado nas minhas buscas: do meu envolvimento com a militância e a academia, do meu crescimento enquanto feminista, pesquisadora, escritora, mãe e mulher, e da minha última descoberta: a Teoria do Cuidado, um campo que podemos chamar de novo, dentro do Feminismo Acadêmico. Quero fazer isso porque o texto da Talita me deu um estalo: todo esse meu percurso faz um sentido, que, se antes eu achava muito louco, hoje, considero fundamental para minha saúde mental. Nada é por acaso… Espero que, enquanto penso aqui alto e conto uma parte da minha história, consiga acrescentar algo a você, parceir@ militante, feminista.

Então, minha formação tem sido influenciada por três dimensões: 1) minhas experiências, com toda uma história de relações assimétricas na minha família (assimetria é um eufemismo para a relação com o meu pai, mas prefiro não entrar em detalhes sórdidos), vários breves episódios de assédio sexual, dificuldades financeiras e sociais para conseguir começar e terminar a faculdade, e depois o mestrado, a gravidez indesejada, a maternidade escolhida, os altos e baixos de um relacionamento amoroso em constante mudança, o contato com diferentes culturas agora que estou morando fora do Brasil; 2) minha militância, que já se direcionou para as desigualdades sociais na saúde pública, para a construção de políticas sociais no Brasil, para o parto humanizado, para uma maternidade ativa e consciente, o não-consumismo, a sustentabilidade, o Feminismo – e que agora se expressa na minha escrita caleidoscópica; 3) minha formação acadêmica, que, hoje, tem sido enriquecida demais com todas essas experiências que tive e com as vozes de autor@s e pesquisadora@s feministas.

Minha sorte (ou destino?) foi ter entrado em conflito com várias das ideias que encontrei e usei ao longo dessa formação, foi ter confrontado o que se diz com o que se vive, e ter, felizmente, dado de cara com uma teoria feminista nova, intersecional, que não tem medo de olhar as realidades e confrontá-las com as confabulações filosóficas e teóricas mais em voga. A experiência com uma gravidez indesejada, um parto natural a despeito de uma relação assimétrica com meu obstetra, as trocas com os grupos ativistas nos quais já participei, e as alegrias e angústias do dia a dia da maternagem me despertaram para a gama de constrangimentos que as mulheres que cuidam de crianças sofrem. Não apenas as mães, mas as babás, empregadas domésticas, professoras infantis, auxiliares de creches, enfim…

É evidente que, no Brasil e no resto do mundo (ainda não ouvi falar de uma sociedade contemporânea que seja diferente), as profissões do cuidado são muito menos valorizadas do que as demais. E, se você lembrou da Medicina como contra exemplo, eu sinto em admitir que, nela, as categorias mais bem remuneradas não tem nada a ver com o cuidado direto de pessoas doentes e dependentes. Na verdade, a Medicina se desenvolveu mais como ciência e menos como prática de cuidado – o que faz com que, hoje, a Pediatria seja, por exemplo, uma das categorias menos remuneradas e mais “feminizadas”. Veja só a relação entre enfermeiras e médicos, é um exemplo claro dessa hierarquia entre profissões “técnicas” e profissões do cuidado. Outro exemplo é o da diferença salarial e de condições de trabalho entre educadoras do segmento infantil e dos demais – tanto auxiliares quanto professoras infantis costumam ter salários bem mais baixos, apesar de cuidarem de turmas grandes com crianças bem novinhas. Claro que ser educadora, pediatra, enfermeira, e até mesmo empregada doméstica, implica em ter um conhecimento especializado, em ter técnicas próprias – mas as que servem diretamente ao cuidado dos outros são vistas como menos apreendidas e mais “naturais”, e por isso, mesmo, menos “nobres”.

Apesar de alguns teóricos terem tentado naturalizar essas características vocacionais como sexuais, não é nada muito difícil perceber que é a própria organização social quem determina essa cadeia e direciona as meninas – aquelas que nascem com uma vagina – a desenvolverem certas habilidades voltadas para as tarefas do cuidado. Em contrapartida, os meninos são desestimulados a brincar de boneca, de casinha, a demonstrar sensibilidade, e ao mesmo tempo, são incentivados a se expandir fisicamente, desenvolver aptidões mais “exatas”, e tal. Está implícita a ideia de que meninas serão mães e por isso mesmo deverão cuidar dos outros. Está implícita a ideia de que cuidar é uma habilidade nata, que não pode ser adquirida pelos homens. Assim, as profissões ditas “femininas” não precisam ser muito mais remuneradas, porque, são vocacionadas “naturalmente” – meio que extensões da própria função materna tradicional.

Então, eu reconheço hoje que não foi por acaso que escolhi fazer psicologia, e depois, mesmo percebendo que não tinha vocação para trabalhar em consultório, fui fazer mestrado em Saúde Pública, preocupada com as questões de saúde das populações menos favorecidas. Eu fui educada para me importar com as necessidades alheias! Reconhecer isso não me faz sentir enganada ou manipulada pelo “patriarcado”, faz-me compreender que o mundo precisa começar a valorizar urgentemente essa “ética do cuidado”, essa inclinação para cuidar, que não é nata, mas desenvolvida. Porque um mundo que não cuida de seus membros, é provavelmente um mundo em extinção, né? Então, o problema não está no fato de eu ser mulher, psicóloga, mãe e sanitarista, nem na minha tendência a querer cuidar de quem precisa, mas está na desvalorização dessas atividades, e da atribuição exclusiva do cuidado à identidade materna e suas extensões.

A Teoria do Cuidado (ou Ética do Cuidado, Ética do Care) é, assim, uma abordagem feminista que se volta para as realidades dessas “vozes subalternas” – das cuidadoras que são mal remuneradas e invisibilizadas, para compreender o conhecimento que elas produzem no dia a dia, e contribuir para a transformação da sociedade patriarcal. Sua crítica para o Feminismo dominante é que ele se afastou das mulheres que cuidam, direcionando-se a um sujeito feminino ora idealizado ora vitimizado.

A feminista idealizada pelas políticas de gênero das décadas de 1980 e 1990 é, geralmente, focada em sua emancipação financeira, não quer casar tão cedo, não tem religião, não sonha em ter filhos, e se tem, não tem sua identidade afetada por esse evento. Enquanto ativista, é engajada em movimentos pelos direitos reprodutivos, com o foco no direito ao aborto e ao acesso a contraceptivos, e quer liberdade sexual – jamais faria da maternidade fonte e foco de luta, principalmente uma maternidade numa família monogâmica heterossexual. Por outro lado, a vítima abraçada por esse mesmo Feminismo não tem nada a ver com violência obstétrica, com depressão pós-parto, com as decisões do cuidado diário com os filhos como aquelas relacionadas à desconstrução do sexismo no mercado de consumo e na Educação. Essa vítima não tem nada a ver com o debate sobre adoção, sobre os desafios de ser legitimada enquanto mãe sem parir. Ela não é vítima por ter que lidar com os assédios morais do mundo do trabalho remunerado por causa de sua família. A vítima visibilizada por essas políticas é “a” Mulher, numa concepção universalizada. Ela é “a” Mulher encaixada nos moldes do patriarcado, porque é enganada por ele. Se é “dona de casa” é porque assumiu a etiqueta do patriarcado, se deu uma pausa na carreira para cuidar das crianças é porque se submeteu à legitimação patriarcal. Se é professora infantil, também. Se não quer brigar por um cargo de chefia numa grande empresa e se conforma em cumprir as oito horas diárias para conseguir buscar os filhos na escola, é pelo mesmo motivo. A vítima idealizada desse Feminismo é sempre subalterna. Os motivos que a levam a cuidar dos outros são sempre determinados por relações de opressão. Não há muito espaço para se ouvir falar do prazer de cuidar, da necessidade de apoio a quem cuida, da vontade de ter essa “função” valorizada.

A partir desse pano de fundo é que vemos as resistências a uma Teoria do Cuidado. Algumas argumentam que ouvir as vozes dessas cuidadoras, enquanto tais, não é função do Feminismo, porque isso reforçaria a opressão patriarcal. Dar atenção para os relatos de mães que gostam de maternar, e ainda assim, fazem uma reflexão feminista sobre essa atividade, seria enaltecer uma função feminina atribuída pelo patriarcado. É por esse tipo de resistência que um dos poucos grupos feministas de pesquisa e ativismo voltados para a maternidade tem tido sérias dificuldades materiais para se manter: a associação Motherhood Initiative for Research and Community Involvement, no Canadá. O artigo New Directions of Motherhood Studies dá um panorama bem interessante sobre esse grupo e o campo minado no qual ele se encontra – um campo cheio de disputas e interseções entre vozes reais e os simbolismos de gênero atribuídos a elas. O artigo mostra essa história da maternidade no Feminismo Acadêmico, que não é nova, mas está sempre nessa posição delicada de insistir numa legitimidade.

É aí então que me localizo. Pra mim, depois de ter vivido todas as experiências que relatei e de prosseguir numa formação acadêmica com teorias feministas, está clara a dificuldade de reconhecimento dessa interface – desse Feminismo Intersecional que se abre para as experiências reais de mulheres que assumem a ética do cuidado. E é super importante lembrar que, nos países onde as feministas brancas conseguiram alcançar um nível mais alto de emancipação profissional, as negras e mulheres de etnias racializadas* tem sido sobrecarregadas com as tarefas de cuidado menos remuneradas. Algumas pesquisadoras do cuidado, como Joan Tronto, têm afirmado que esses grupos subalternos desenvolvem uma ética mais solidária porque ela é necessária para a sobrevivência numa sociedade que os oprime tanto. Assim, vemos que a coletivização do cuidado com as crianças é mais comum em regiões mais pobres, apesar das limitações que as condições adversas de vida impõem, como o tempo de percurso entre casa e trabalho, a escassez de creches e escolas públicas, etc. É muito mais comum também vermos doadoras de leite materno e parteiras tradicionais em grupos marginalizados – será coincidência? Será força da natureza? Ou uma amostra da ética do cuidado pouco valorizada entre brancos, colonizadores, ocidentalizados?

Ao mesmo tempo em que vejo a dificuldade de se superar as idealizações de um Feminismo dominante, percebo que esse desafio é consequência das próprias contradições de um movimento que quer superar o paradigma patriarcal, mas precisa se inserir em espaços públicos e políticos formados a partir dele. É por isso que também concordo tanto com a Talita quando ela coloca a necessidade de formação. De um lado, para as acadêmicas, é fundamental confrontar teorias com a vida real, a diversidade de experiências e vozes que se põem no Feminismo; por outro, é importante se inteirar das teorias que influenciam as políticas de gênero, para as ativistas que desejam superar o patriarcado sem deixar de dialogar com as estruturas históricas que ele forma. Munir-se de conhecimento é fazer tudo isso.

Não sinto necessidade de me “converter” a determinadas teorias para legitimar o meu ativismo. Mas, ser informada por elas pode me ajudar a dialogar com o mundo. Por outro lado, não me sinto honesta em incorporar certas “explicações de mundo” sem confrontá-las às realidades de diferentes vozes. Então, se o Feminismo dominante resiste em entender que as experiências reais de cuidadoras reais nem sempre está determinada por uma opressão patriarcal, eu não vou ignorá-lo, mas vou me munir com a minha própria história, em suas diferentes dimensões, para influenciar a renovação do movimento. Assim, com o papel que me investi nesse mundo, pretendo continuar essa constante formação feminista.

OBS.: Se você se interessar mais pela Teoria do Cuidado, sugiro a leitura de Carol Gilligan, Patricia Paperman, Sandra Laugier, Joan Tronto, Marc Bessin, Elsa Dorlin, dentre outr@s.

* a expressão “etnias racializadas” neste texto inclui as etnias que são marginalizadas com base na diferenciação racial, mas que não são sempre reconhecidas como minorias, assim como as imigrantes latino-americanas sem visto nos EUA ou as imigrantes magrebinas sem visto na França, que trabalham em condições de precariedade, geralmente como empregadas domésticas e babás.

Texto de Carolina Pombo

 

Matéerias de Hoje: 

Brasil corre para abrir novas fronteiras na África

 

 

Fonte: Blogueiras Feministas 

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