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Entrevista do mês de março: Jurema Werneck

Jurema Werneck (Foto: Acervo Geledés Instituto da Mulher Negra/ Alma Preta)

Jurema Werneck é médica (UFF), tem mestrado em Engenharia de Produção (UFRJ), doutorado em Comunicação e Cultura (UFRJ) e uma longa trajetória de luta no movimento de mulheres negras e pelos direitos humanos. A entrevistada do mês de março do Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS) fala sobre o ativismo das mulheres negras – “[…] existe um silenciamento sobre a maior quantidade deste ativismo que ainda não se olha, porque afinal não é classe média, não fala a língua daqueles que querem ouvir” – e a falta de políticas públicas para enfrentamento do racismo no Brasil. Diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, Werneck destaca também a importância de manter pressão para que sejam dadas respostas sobre a morte de Marielle Franco. Na entrevista, a pesquisadora em saúde da população negra critica ainda o apagamento do papel dessa população nas narrativas sobre a luta pelo direito à saúde no Brasil: “O apagamento da história negra, da história dos marginalizados é uma forma de descrever o racismo no Brasil. Enquanto há racismo se apaga a mobilização negra para construir uma das melhores políticas de justiça e equidade que foram construídas no ocidente. Até porque essa camada da população foi tão influente, que até hoje tenta se tirar da mão dela o ganho. O SUS nunca chegou de verdade para essa população. Mas assim, movimento social é luta. A gente que não tem que abrir mão. Que grupos em privilégios se apropriem da nossa história é a história da humanidade. Mas nossa obrigação é contar a história como ela aconteceu. E provando para nós que nós estivemos lá”. Boa leitura!

Por  Inês Costal e Patrícia Conceição. do Análise Política em Saúde

Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS): A Anistia Internacional tem cobrado respostas sobre a morte de Marielle Franco, a exemplo do documento publicado no mês de fevereiro que lista perguntas que instituições públicas e autoridades devem responder sobre o assassinato da vereadora. O que significa quase um ano sem que os responsáveis pela morte sejam levados à justiça?

 

Jurema Werneck: É preciso lembrar que acima de tudo Marielle Franco era uma defensora de direitos humanos. As ameaças, ataques e homicídios de defensores de direitos humanos são temas sobre os quais a Anistia Internacional atua historicamente no Brasil e no mundo. A Anistia é uma organização imparcial e independente e, justamente por isso, não iria deixar de atuar sobre um caso relevante como o assassinato da defensora de direitos humanos Marielle Franco apenas porque ela também tinha uma atuação na política partidária. Após mais de um ano as autoridades apresentaram os supostos executores, mas a família de Marielle, a sociedade civil, e a Anistia Internacional como parte dela, continuarão cobrando das autoridades responsáveis respostas sobre as perguntas que estão em aberto, além é claro das duas principais: quem mandou matar Marielle Franco e Anderson Gomes e o porquê?

 

OAPS: Você já declarou que Marielle era uma ativista de destaque, uma pessoa “solar”, resultado da mobilização de várias pessoas, do morro. Como foi saber do assassinato e como tem sido acompanhar as investigações?

 

Jurema Werneck: Foi muito doloroso saber do assassinato da Marielle Franco e do Anderson Gomes, naquela noite de 14 de março de 2018. Por tudo que representa em termos e mesmo após um ano, com toda visibilidade e repercussão, no Brasil e no mundo, ainda não sabemos quem mandou cometer este crime. Foi um assassinato de alto perfil e nesses casos podem haver diversos tipos de interferências externas. Esse risco existe e é por isso que é muito importante toda a pressão da sociedade e dos movimentos da sociedade civil organizada como um todo sobre o Estado para que haja uma condução correta e adequada para que se saiba a verdade sobre o que aconteceu. A Anistia Internacional tem cumprido neste momento o papel que lhe cabe, que é seguir mobilizada, em primeiro lugar, cobrando uma investigação imparcial, que chegue à solução correta do caso e que identifique os verdadeiros responsáveis pelo assassinato; e, em segundo lugar, mostrando a necessidade da criação de um mecanismo independente e imparcial de monitoramento das investigações.

 

OAPS: Diversas pesquisas e especialistas indicam a falta de compreensão e a depreciação do trabalho pelos Direitos Humanos no Brasil. Nessa perspectiva, qual o impacto da eleição de um presidente de extrema direita, que fez diversas declarações em apoio à ditadura, à prática de tortura e ao fechamento do Congresso Nacional (além de homenagear o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra) e que considera demandas políticas de grupos como LGBTTs, mulheres e negros como “coitadismos”?

 

Jurema Werneck: A agenda do presidente durante sua campanha foi abertamente anti-direitos humanos e o que vimos é que frequentemente foram feitas declarações discriminatórias sobre diferentes grupos da sociedade.

 

Por todo histórico de suas declarações e ações, nos primeiros meses de governo isso representa sim uma ameaça à boa parte da população brasileira: povos indígenas, quilombolas, comunidades rurais, pessoas LGBTQI, jovens negros, mulheres, ativistas e organizações da sociedade civil. Estamos atentos aos passos das autoridades em nível federal e seguiremos mobilizados tanto no Brasil quanto em todo mundo para que nenhum retrocesso em direitos humanos seja permitido.

 

OAPS: Você destaca a importância da escuta das vozes das mulheres negras para transformar a sociedade e o Estado. Como avalia o caminhar do ativismo das mulheres negras hoje: esse ativismo é mais forte e tem encontrado mais espaços de repercussão? Quais as principais pautas de luta em meio a tantas desigualdades no que diz respeito à violência, acesso a serviços de saúde e representatividade política, por exemplo?

 

Jurema Werneck: Bom, eu sou ativista desde que eu tinha oito anos de idade. Eu aprendi a ser ativista pela história da minha família e pela história das pessoas que eu conhecia. Sempre houve um ativismo de mulheres negras, mas o que havia antes era pouco reconhecimento. Qualquer favela de qualquer cidade tem uma liderança que é uma mulher negra. Por que quem é que garante a educação pré-escolar se não for uma mulher negra que guardou as crianças em casa e desenvolveu iniciativas de educação? Creche, o que era a creche pública da favela se não a casa de uma outra mulher negra? Sempre houve organização, trabalho e ativismo de mulheres negras. Mas acho que dos anos 80, principalmente dos anos 90 para cá, houve uma maior visibilidade. As líderes de favela ainda não são reconhecidas no seu ativismo. Todas essas que fazem creche, pré-escola, distribuem comida, lutam por escola, posto de saúde, não são reconhecidas ainda no século XXI. Mas um outro espaço de ativismo de mulheres negras que a partir das décadas de 80 e 90 se desenvolvem como organizações de mulheres negras, essas organizações começaram a angariar uma maior visibilidade, porque a sociedade civil organizada também angariou uma maior visibilidade. Nós temos poucos registros históricos da trajetória organizativa das mulheres negras, mas em 1908 tem registro de organizações de mulheres negras, em Pelotas, por exemplo. No pós-abolição imediato, tem registro de organizações de mulheres negras constituídas e se nesse período tem este registro, ele responde uma tradição. Não deve ter sido uma invenção do pós-abolição e é só um reflexo do que foi necessário acontecer para acabar com a escravidão.

 

Sim, o ativismo das mulheres negras foi, ao longo dos anos oitenta para cá, tendo maior visibilidade, mas no modelo “classe média”. No modelo universitário, classe média, ONG. Partido político um pouco, mas não muito. Partido político é muito recente. E só foi recente porque Marielle foi assassinada. Mas existe um silenciamento sobre a maior quantidade deste ativismo que ainda não se olha, porque afinal não é classe média, não fala a língua daqueles que querem ouvir. Então acho que a gente ainda tem um longo caminho pela frente.

 

Leia aqui a entrevista na íntegra!

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