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‘Eu já era feminista antes de conhecer o termo’, diz o pai de Malala ao lançar livro de memórias

Em ‘Livre para voar’ o paquistanês Ziauddin Yousafzai, que conta sua criação em um vilarejo e sua indignação com o preconceito desde cedo

Adriana Carranca, no O Globo

A paquistanesa Malala Yousafzai, prêmio Nobel da Paz, caminha com seu pai, Ziauddin, em Birmingham, na Inglaterra
A paquistanesa Malala Yousafzai, prêmio Nobel da Paz, caminha com seu pai, Ziauddin, em Birmingham, na Inglaterra Foto- LIZ CAVE : AFP

Ziauddin Yousafzai nasceu em uma aldeia isolada de Khyber Pakhtunkhwa — a terra dos Pashtuns — na fronteira tribal do Paquistão com o Afeganistão. Filho de um clérigo, ele estava destinado ao ensino religioso, mas o pai decidiu que poderia ir além e o enviou a uma escola “moderna”. As cinco irmãs não tiveram a mesma oportunidade. Em “Livre para voar” (Companhia das Letras), Yousafzai traça a própria trajetória, do menino que testemunhou a desigualdade em casa até se tornar pai da mais jovem ganhadora do Nobel da Paz, Malala Youzafzai. Para promover mudança social, ele diz, “a primeira pessoa com quem você se depara é você mesmo”.

No prefácio de “Livre para voar”, Malala escreve que o senhor a defendeu em uma sociedade que não a tratava como igual. Tendo crescido na mesma sociedade patriarcal, de onde vem a sua aspiração por igualdade?

Em Pashto há um provérbio que diz: o bom médico é aquele que sofreu a doença. Eu vivenciei a discriminação quando criança; em minha casa, havia desigualdade de gênero. Na época, não havia escolas suficientes e não era parte da norma educar meninas. Meus pais tinham grandes sonhos para mim. Mas, para minhas irmãs, sonhavam apenas que se casassem cedo.

De que forma a escola o influenciou?

Nunca fui um menino bonito, sempre tive um nariz grande ( risos ), sofri bullying porque gaguejo, os professores me discriminavam. Eu me perguntava por que eles não são tão gentis comigo quanto com alunos de pele clara e famílias ricas? Isso me fez ter consciência sobre desigualdade. Mas, quando eu tinha 11 anos, na quinta série, um professor de ciências ficou tão impressionado com a minha prova que a usou de exemplo para toda a classe. Assim aprendi que se você tem conhecimento, você pode ser reconhecido. Aquilo mudou a minha vida.

Em seu livro, há um poema escrito ainda na adolescência…

Sim, eu tinha 17 ou 18 anos quando uma prima foi forçada a se casar. Ela estava tão infeliz… Eu fiquei chocado em vê-la naquela situação. Ali, firmei o compromisso de defender a educação das meninas. Em sociedades patriarcais, meninas e mulheres morrem como se nunca tivessem nascido, porque são privadas de contribuir com a sociedade. Esse papel vem com a educação. Quando abri a escola para meninas, eu não queria apenas ensinar ciência, matemática e línguas, mas para promover mudança social e convencer os pais de que as meninas devem aprender para se sentir confiantes e fazer suas próprias escolhas.

O senhor sofreu críticas por educar meninas e “expor” sua filha, Malala. Como respondia a essas críticas?

Quando você decide promover mudança social, a primeira pessoa com quem se depara é você mesmo. O novo Ziauddin passou a defender educação e igualdade. Isso estava muito claro para mim. Por isso, eu não me importava com as críticas. Quando Malala se tornou a maior voz pela educação, todos reconheceram que eu estava certo. Já não me chamavam de Ziauddin, mas “pai de Malala” (risos). Eu passei a ser reconhecido pela transformação que viam nela. Ela se tornou minha identidade.

Por que decidiu escrever um livro?

A história que todos conhecem é a do pai da Malala. Eu queria falar sobre o filho, o irmão de cinco irmãs, o marido, o pai de dois filhos, além de uma filha. Eu queria falar sobre o menino do vilarejo no Paquistão que questionava até mesmo se seu jeito de falar era aceitável, e sobre como ele se tornou um professor e ativista por educação contra o Talibã. Eu acredito que as lições que aprendi em todos esses papéis podem inspirar outros pais a romper limites impostos e a acreditar em igualdade. Esta é a grande mensagem que pretendo transmitir.

O senhor perdoou os Talibãs?

Eu sou apenas uma de suas vítimas. Eles perderam toda a humanidade. Estão apenas matando pessoas e sendo mortos. O atentado contra minha filha foi o maior trauma que já vivi. Mas uma bala não foi capaz de detê-la, como eu seria? Quando ela discursou na ONU ( em sua primeira aparição pública depois do atentado ) e eu vi que era a mesma Malala, e nada havia mudado exceto que a desesperança e o medo haviam morrido, eu comecei a chorar. Foi a ocasião mais feliz da minha vida.

O senhor se considera feminista?

Eu acho que já era feminista antes mesmo de conhecer esse termo, que só ouvi na Inglaterra ( risos ). Se feminismo significa acreditar em direitos iguais, eu sou um homem feminista com orgulho.

Como é a sua relação com Malala hoje?

Ah, vou fazer uma reclamação: sentimos mais saudades dela do que ela sente de nós ( risos ). Malala está em Oxford, feliz, ocupada, estudando, indo a festas. Nós a amamos e reclamamos que ela não sente falta de nós, mas quando vamos visitá-la e a vemos ser tratada por seus colegas, não como uma celebridade, mas, como uma menina normal. Eu me sinto muito orgulhoso dela.

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