sexta-feira, setembro 24, 2021
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‘Hollywood não ignora a raça dos atores’, diz nova promessa do cinema

“Sei que estou me saindo bem nos Estados Unidos quando não preciso mais dizer às pessoas como pronunciar meu sobrenome”, diz David Oyelowo com seu característico humor seco. “Basta colocar uma letra ‘o’ nas duas pontas de ‘yellow’.” Se tudo correr bem, no entanto, essa pode ser a última vez que isso precisou ser dito. O ator britânico está caminhando para se tornar um astro de cinema americano.

Oyelowo fala de telefone de New Orleans, onde está filmando The Butler com Forest Whitaker e Oprah Winfrey. Esse é um dos seis projetos de 2012 para o ator de 36 anos, que estabeleceu suas credenciais numa temporada de três anos na Royal Shakespeare Company. Lá, ele se tornou o primeiro ator negro a interpretar um rei britânico, em 2001, e então decidiu que estava pronto para desafios maiores. Cinco anos atrás, ele se mudou para os EUA para tentar a sorte em Hollywood.

Na verdade, diz ele, a cena do cinema americano é mais adequada ao seu estado de espírito. “Na Inglaterra somos mais suscetíveis ao ceticismo e à postura ‘pode-não pode'”, explica ele com seu sotaque britânico. “O sonho americano cria um ambiente mais ‘pode’. A atitude ‘pode-não pode’ significa que nenhum filme jamais consegue ser feito.”

Impaciente

O próprio Oyelowo admite não ser um homem paciente. “Muitos atores americanos invejam os atores britânicos porque uma das coisas que fazemos melhor são os dramas de época”, continua ele. “Mas ninguém está com pressa para me colocar num filme de Jane Austen ou Charles Dickens.”

“No Reino Unido há menos disposição para retratar a história negra”, diz Oyelowo. “Aqui a população afro-americana é muito mais proeminente, em grande parte devido a grandes eventos como a escravidão e o movimento dos direitos humanos. Os afro-americanos têm destaque na vida americana atual, seja o presidente, músicos, esportistas ou políticos.”

Como um agente da inteligência na série da BBC MI: 5 (2002-2004), Oyelowo sentiu o gosto de participar de uma história moderna. Em Middle of Nowhere, filme independente que recebeu elogios no festival Sundance deste ano, ele dá um passo além, fazendo um motorista de ônibus de Los Angeles que tenta desenvolver um relacionamento com uma de suas passageiras.

A busca

“Foi a primeira vez em que li um roteiro com elenco predominantemente afro-americano, onde pude ter empatia pelos personagens”, explica Oyelowo. “Eu queria estar perto deles. Eu podia ver as dificuldades que eles estavam enfrentando. Não é necessariamente o meu mundo, mas consegui entender.”

“Era exatamente o tipo de filme que eu estava procurando.” Middle of Nowhere, com estreia programada para 12 de outubro nos EUA, é sobre uma estudante de medicina (Emayatzy Corinealdy) que larga a faculdade quando seu marido (Omari Hardwick) é condenado a oito anos de prisão. Ela sabe que sua carga horária de estudos seria pesada demais para fazer visitas regulares a ele. Gradualmente, porém, ela começa a reavaliar sua situação.

“Muitas vezes, com filmes centrados em personagens afro-americanos, quando você interpreta um cara num relacionamento com uma mulher, ele pode ser meio cafajeste”, diz Oyelowo. “Adorei o fato de que os dois personagens estivessem muito nervosos por embarcar num relacionamento.”

Spike Lee

“Trata-se dos momentos entre as grandes ações, do modo como você se vira enquanto está esperando”, continua ele. “Os dois saíram de situações complicadas e estão se estudando, e não simplesmente pulando para a cama.”

Oyelowo compara Middle of Nowhere aos primeiros filmes de Spike Lee. “Me senti inspirado e apaixonado por She’s Gotta Have It (1986), Mo’ Better Blues (1990) e Malcom X (1992), que vi quando ainda era menino”, explica ele. “Eles estavam totalmente fora da minha experiência, mas eu queria fazer parte daquelas jornadas.”

Desde sua chegada aos Estados Unidos, Oyelowo se manteve ocupado. Ele fez um pastor em Vidas Cruzadas (2011) e o diretor do laboratório de pesquisas em Planeta dos Macacos: A Origem (2011). No começo deste ano ele interpretou um piloto em Red Tails, filme de George Lucas sobre os pilotos aéreos de Tuskegee que combateram na Segunda Guerra Mundial, e em The Paperboy (2012), Oyelowo faz um jornalista britânico trabalhando com um repórter local (Matthew McConaughey) e uma presidiária (Nicole Kidman) para investigar uma possível condenação injusta de um homem no corredor da morte (John Cusack).

Lincoln

Quanto ao futuro, em Lincoln, de Steven Spielberg, com estreia programada para novembro nos EUA, Oyelowo interpreta um soldado da cavalaria. Em Jack Reacher, previsto para dezembro, ele faz um detetive de Pittsburgh trabalhando com o personagem de Tom Cruise para caçar um atirador de elite.

Talvez seu maior papel esteja em The Butler, história baseada em fatos reais sobre um afro-americano (Whitaker) que trabalhou como mordomo da Casa Branca para oito presidentes.

“A história começa na década de 1920”, conta Oyelowo. “Você vê Forest ainda criança, filho de um agricultor. A narrativa vai até o início do governo Obama, em 2008. Eu faço o filho dele e de Oprah. Meu pai é um criado doméstico, e eu saio para me tornar um ativista.”

Direitos civis

“O filme é basicamente sobre a justaposição das escolhas desses dois homens”, diz ele. “E sobre o nascimento do movimento de direitos civis nos EUA.” Depois disso vem Nina, um filme biográfico sobre a cantora de jazz Nina Simone, com Zoe Saldana no papel principal. Ele interpreta o empresário de Simone. “Ela se apaixona por mim”, diz ele, “e ele se apaixona por sua música. Ela não fica muito satisfeita”.

Uma carreira razoável, para um homem que poderia ter escolhido viver na África como um príncipe nigeriano. “Meu pai pertence a uma família real na Nigéria”, explica Oyelowo. “Ele se mudou para Oxford pois tinha ambições de se tornar médico, e os estudos lá eram muito fortes.”

Oyelowo nasceu em Oxford, pouco antes de seu pai fazer uma terrível descoberta: “Ele percebeu que tinha um medo apoplético de sangue”, diz o ator. A família se mudou para Londres, e depois voltou à Nigéria.

Lagos

“Meu pai quis voltar para onde as coisas poderiam ser um pouco mais fáceis”, diz Oyelowo. “Nós morávamos na Rua Oyelowo, em Lagos, e pude sentir o que significava aquele privilégio. Mas não era como pertencer à família real britânica. Era mais como pertencer à família real de Sherman Oaks (um bairro de Los Angeles).”

“Sete anos depois, iniciou-se um medonho governo militar, e em 1980 estávamos de volta ao Reino Unido.” Oyelowo descobriu o teatro por intermédio de seu interesse numa garota. Ele acabou se juntando ao National Youth Music Theater, e ganhou uma bolsa de estudos para a London Academy of Music and Dramatic Art. Embora seu pai quisesse que Oyelowo fosse advogado, ele gradualmente aceitou a escolha do filho.

“Por ter enfrentado racismo quando chegou à Inglaterra, aos 16 anos, ele sentiu muito orgulho quando me viu interpretando Henrique VI na RSC”, explica Oyelowo. “Aquele foi um momento divisor de águas.” O ator, que é casado com a atriz britânica Jessica Oyelowo e tem quatro filhos, é otimista quanto ao futuro nos Estados Unidos.

Dinheiro e raça

“Hollywood não ignora a raça dos atores”, admite Oyelowo. “Acho que Hollywood é cegada pelo dinheiro. Se um filme obtém sucesso financeiro, eles passam a ignorar sua raça rapidamente. O desafio é encontrar material bom e que mantenha algum tipo de integridade artística.”

“Se você conseguir isso, eles o aceitarão com qualquer aparência.”

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Fonte: Estadão

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