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Idealizada por cineasta paraibana, Mostra Pilão prestigia o audiovisual negro

Natural de Campina Grande, Carine Fiúza (29) é estudante do curso de Rádio e Tv, pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e idealizadora da Mostra Pilão (Mostra Itinerante de Cinema Negro). Vinda de uma família composta por pessoas negras, brancas e indígenas, Fiúza afirma que questões raciais nunca foi um assunto abordado dentro de casa, mas, desde a infância, já assumia sua identidade negra, apesar dos episódios racistas que, assim como muitas mulheres e homens negrxs no Brasil, vivenciou ainda criança.

Por Elizabeth Caroline de Souza para o Portal Geledés 

Foto: Sara Andrade

“Nasci em uma cidade extremamente racista, então, desde a época da infância, vivenciei algumas situações, como uma vez que entrei em uma loja e fui seguida por um segurança, mesmo eu estando com a minha mãe. Meus pais não conversavam sobre isso comigo. A minha mãe, pela formação que recebeu de meu avô, que veio do sul da Bahia pra Paraíba e era bastante militante, absorveu um posicionamento enquanto mulher negra, mas nunca discutíamos essa valorização dentro de casa”, afirmou.

Apesar de se identificar enquanto pessoa negra desde criança, Carine afirma que nem sempre era fácil assumir essa posição. Na adolescência, por exemplo, ela enfrentou um dos períodos mais conturbados: o de não-aceitação, fator que se acirra a partir de atitudes que, muitas vezes, podem parecer involuntárias, mas que, na verdade, demonstram que algo de errado está acontecendo. Por exemplo: prender o cabelo por vergonha ou por se achar menos bonitx que x colega da escola. São diversos fatores dentro de uma perspectiva racial enfrentados pela população negra no Brasil.

A partir dessa perspectiva, e após vir morar em João Pessoa (PB), Carine tornou-se militante negra ainda na adolescência, quando iniciou os estudos em uma escola particular na Capital, onde era uma das poucas alunas negras. “Na minha sala tinham três pessoas negras e apenas um professor negro, o de Biologia. Éramos alunxs negrxs que não tinham identificação entre si e eu percebia isso. Então, naquele tempo, por eu me identificar enquanto negra, ter o cabelo crespo e assumi-lo mesmo tendo que enfrentar as zoações, tudo isso, de alguma forma, já era o início da militância pra mim: assumir quem eu realmente era. Como não encontrava respaldo na minha família, nem na escola, por volta dos meus 15 anos comecei a estudar sobre essas questões”, declarou.

Também nessa época, Fiúza conheceu um rapaz chamado Carlos, militante do movimento negro e integrante da Malungos, projeto cultural voltado para garotos e garotas negrxs em João Pessoa. Logo, Carine Fiúza tornou-se integrante do projeto, o que contribuiu para o fortalecimento de sua autoafirmação. Em 2008, aos 18 anos, a jovem ingressou no curso de Biologia, na UFPB. Na universidade, também percebeu que a realidade vivida pelxs negrxs não era fácil, a rotina diária entre a Academia e o trabalho tornava-se uma prática exaustiva, já que boa parte das pessoas negras que estudavam com ela não podiam apenas estudar, diferente da realidade da maioria das pessoas brancas da turma. Alguns anos mais tarde, Fiúza desistiu do curso de Biologia e, em 2013, ingressou no curso de Rádio e TV, também na UFPB. “Foi onde eu me encontrei”, confessou.

Foto: Sara Andrade

O interesse pelo audiovisual

O fascínio por Rádio e Tv começou antes de sua entrada no curso, por influência de seu ex-namorado, estudante da área. Pouco tempo depois, os dois se envolveram com produção cinematográfica e começaram a trabalhar juntos, experiência que determinou sua escolha pelo curso. Ao ingressar, Carine iniciou suas produções, mantendo uma carreira no audiovisual, independente da universidade. Nesses espaços, ela percebeu uma realidade que ainda insiste em rondar diversas profissões: pouca presença negra nesses ambientes, principalmente de mulheres.

“Eu me encontrava como a única mulher negra no set, era sempre um embate com a questão racial e de gênero e daí eu comecei a levantar essas questões nas conversas, no trabalho. Tanto o cinema quanto a televisão são espaços elitizados, então passei a me posicionar, chamar mais mulheres pra ocupar esses espaços, questionar os homens sobre a escassez de mulheres ali, por que as conversas eram apenas sobre o universo deles, questionar a minha presença ali também”, declarou Fiúza.

Essas situações foram despertando na jovem cineasta o desejo de abordar a temática racial dentro do seu curso. “A gente nunca está com pessoas negras em maioria e isso ia me incomodando cada vez mais, então passei a questionar isso nos estudos e comecei a buscar referências que nunca tive na universidade, porque o fato de eu não ter professores negros que levantassem assuntos voltados a questões raciais influencia eu não ter acesso a pensadores negros. Chega a ser um estudo solitário, pois não existe esse respaldo acadêmico e discutir a questão racial é algo muito doloroso”, comentou.

Mostra Pilão

Em 2014, Carine Fiúza participou da produção de um filme que foi aprovado no Curtas Afirmativos, na Paraíba, mas, por questões internas, não foi possível dar continuidade à produção. Depois desse episódio, a estudante percebeu que era importante e necessário fazer cinema negro na Paraíba. A partir daí, deu início a um árduo e amplo estudo sobre o cinema negro, a representação dx negrx no cinema, nas mídias sociais e no audiovisual. Atrelado a isso, a jovem cineasta também participou de encontros que abordavam a temática, com o intuito de criar vínculos com pessoas simpatizantes da causa.

Em 2017, participou de alguns encontros em Recife vinculados ao MAP – Mulheres no Audiovisual PE – grupo também composto por militantes negras que buscam essa representação dentro do audiovisual. “Essas mulheres me apresentaram um mundo que eu não tive contato durante esse tempo que estou na universidade: o que é cinema negro, a representação dx negrx, o que nós, enquanto negros e negras pensadores do audiovisual, podemos fazer, o que já fizemos”, relatou.

Depois de todo esse processo de perceber e pesquisar cinema negro na televisão, Fiúza fez um levantamento sobre as produções paraibanas e constatou que menos de 2% dos realizadores de cinema e audiovisual na Paraíba são negros e, em sua maioria, se encontram em funções que não são de criação, como roteiro, direção, fotografia ou arte. Paralelo a essa realidade, Carine participou de uma mostra de cinema negro no Rio de Janeiro, chamada Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, onde teve contato com vários cineastas brasileiros, e outros vindos da África, Estados Unidos e Europa. Com isso, sentiu a necessidade de trazer os filmes que tinha visto na mostra para a Paraíba, com o intuito de discutir a produção de audiovisual negro no estado.

“Com todos esses processos de representação e tentativa de busca de igualdade e ocupação de espaço me veio a ideia de criar uma mostra que pudesse circular pelo estado da Paraíba. Era uma necessidade minha, enquanto estudante de comunicação, falar sobre questões que para mim são relevantes, e assim surgiu a Pilão (Mostra Itinerante de Cinema negro)”, revelou. Hoje, a mostra conta com quatro integrantes: Thiago Costa, Sérgio Ferro, Ana Dindara e Lais.

Assim como a mostra, a ideia do nome que a intitula também tem um significado forte e especial. “O pilão é um instrumento de transformação do alimento e nós o utilizamos enquanto ferramenta para transformar uma coisa que pra gente não seria consumível, o arroz em natura, por exemplo. A proposta do nome é exatamente essa, pegar uma linguagem que não é palatável para as pessoas, porque elas não a conhecem e negam a discussão racial, e transformar em algo palatável através de debates. A Mostra Pilão vem nesse sentido de transformação e formação de público”, contou a idealizadora da mostra.

Foto: Sara Andrade

Primeiras exibições

A primeira exibição da Mostra Pilão ocorreu na cidade de Manaíra, no interior paraibano, em 2017. “Esse era um ótimo momento para fazer a primeira exibição da Mostra Pilão. Já tinha conversado com Thiago e com Sérgio [outros integrantes], pensamos, mais ou menos, em como seria e quais tipos de filme levaríamos para lá”, explicou.

A exibição também foi transmitida no Quilombo Fonseca, localizado em Manaíra. “Pegamos uma noite de céu estrelado com uma super lua, foi incrível. Também contei com a ajuda de cineastas da própria cidade que produzem filmes independentes”, continuou. Os filmes que fizeram parte da primeira mostra foram: Cores e Botas (Juliana Vicente), Esconde-esconde (Don Felipe e Luciana Bollina), Alma no Olho (Zózimo Bulbul) e Aquém das Nuvens (Renata Cavalcanti).

“As pessoas se viam na tela e era impressionante! A expressão delas era de: ‘como assim nós estamos representados dessa forma e não em condições que normalmente somos retratados na tv?’, depois fizemos um debate, alguns representantes da comunidade falaram e expliquei um pouco sobre os filmes”, completou Carine Fiúza.

Após a primeira mostra, também foram realizadas exibições em Patos, no sertão paraibano, e em João Pessoa, capital do estado. No total, foram realizadas cinco apresentações e, de acordo com Fiúza, há planos para mais circulações na Capital ainda esse ano. “Queremos levar filmes que as pessoas não veem na tv aberta brasileira, um tipo de cinema que ainda não está nas salas comerciais”, revelou.

O processo de afrocentramento

Apesar de todo o papel empoderador desenvolvido pela Mostra Pilão, são vários os percalços enfrentados para poder fazer tudo funcionar e dar certo, afinal, o Brasil é um país onde há racismo, e onde há omissão e negação dessas atitudes. Para Carine Fiúza, um dos grandes problemas enfrentados para a realização dos trabalhos desenvolvidos pela Pilão é o enquadramento exótico que é dado à mostra. “Somos muito convidados para fazer esses eventos em datas comemorativas, como, por exemplo, 13 de maio (Dia da Abolição da Escravatura), 25 de julho (Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha), 20 de novembro (Dia da Consciência Negra). A gente tá aqui o ano inteiro e precisamos discutir nossas questões, mas não só nessas datas específicas. O mês de novembro é muito agitado, recebemos muitas ligações, mensagens, e-mails porque precisam de conteúdo negro pra cumprir uma cota”, criticou.

“Temos que desnaturalizar esse racismo que convoca os negros para eventos específicos. Há 500 anos estamos ocupando o espaço do exótico, isso tem que acabar. Por isso a mostra também é um processo de afrocentramento, de poder se voltar pra gente e entender o que somos e o que queremos mostrar”, resumiu a estudante.

Associada à APAN – Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro – um dos objetivos da Mostra Pilão é tornar-se um cineclube para ampliar os debates acerca do cinema negro na Paraíba. Para isso, a Pilão está em processo de formação, buscando ampliar o número de integrantes, o que também possibilitará a criação da Associação de Produtores Negros Audiovisuais Paraibanos. “Tudo isso com o intuito de buscar políticas públicas que garantam nossa participação no audiovisual e que possibilite ações independentes de formação ou de grupos de trabalho, porque uma das coisas que a gente tem dificuldade aqui [na Paraíba] é formar uma equipe unicamente negra. Eu, enquanto produtora negra, quero falar de negritude e quero que isso seja respeitado.”, concluiu Fiúza.

Se você quiser participar ou tirar maiores dúvidas sobre a Mostra Pilão é só entrar em contato com os integrantes através dos e-mails: [email protected].


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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