Livro continua a ser o melhor investimento de uma pessoa

Enviado por / FonteEcoa, por Tony Marlon

Em janeiro de 2017, o mundo já era bastante confuso e acelerado. Mal sabíamos o que o futuro nos reservava.

Parece até que estou falando de uma outra vida, mas naquele ano fiz um convite para as amizades de uma rede social: diariamente, às 23h30, estarei online para lermos juntos um poema, conto ou crônica. Muita gente apareceu, do Brasil e do mundo.

Naquela época as lives ainda eram uma novidade. Durante a pandemia virou outra pandemia e nos levou à exaustão.

Fizemos por volta de 100 desses encontros virtuais, não duravam mais que 10 minutos. As pessoas interagiam com comentários, costurando o que era lido com alguma coisa em suas vidas. Era um momento bonito. Depois de algum tempo passei a receber pessoas convidadas. E aquilo foi se transformando num ritual cada vez mais poderoso de despedida do dia.

Na época, eu sempre encerrava a live deixando o convite de que aquela fosse a última coisa que as pessoas fizessem. Muitas delas me escreviam dizendo que sim, era. Desligavam o celular e, em seguida, iam dormir. Me escreviam no outro dia contando que ainda pensavam sobre a noite anterior, sobre o que haviam escutado. Ou, que foram pesquisar mais sobre a autora ou o livro do qual falamos. Que não conheciam aquela pessoa, que nem sabiam que gostavam tanto assim de crônica. Descobriram ali, na live.

Eu nunca entendi como algo tão essencial para a criação da vida não está entre os itens de uma cesta básica. Assim como até hoje não entendo como kits de higiene menstrual também não fazem parte. Em junho de 2020, no auge da pandemia, escrevia uma coluna sobre pessoas que decidiram agir para transformar essa necessidade em realidade.

Os livros sempre me fizeram bem. Me salvaram de mim e do mundo quando eu mais precisei. Com eles, eu nunca soube o limite para uma imaginação. Mesmo morando num povoado pequeno que só, num bairro longe de tudo que merecia a atenção do mundo, eu não me sentia desconectado. Não pertencente. Os livros me ensinaram o que dizer e em qual momento falar com o meu silêncio.

Lembrei dessa história porque outro dia participei de uma conversa numa escola e me perguntaram por que eu lia tanto, se já sabia tanta coisa. Eu acho maravilhoso como as crianças pensam e fazem perguntas. Eu respondi que eu lia tanto porque o nosso imaginador interno precisa de exercícios tanto quanto o nosso corpo. Sabe quando a gente vai na academia? Então, o livro é tipo uma academia. Só que para a cabeça.

Quanto mais eu leio, melhor eu escrevo. Quanto mais eu leio, mais eu sei resolver problemas. Quanto mais eu leio, mais eu entendo que o mundo não é feito apenas de pessoas que se parecem comigo. Que pensam parecido comigo. Que o mundo é grande, muito grande. Ler é um investimento com retorno certo, mesmo que ainda exista quem acredite no contrário.

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