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Manifesto pós-Coimbra

Manifesto pós-Coimbra

Estive, durante esses quase dois anos, morando em Coimbra. Em alguns momentos, senti-me como alguém que se afasta da própria realidade para fazer algo diferente; como quem vai viver no topo de uma montanha para repensar a vida. Durante esse tempo, vi um golpe mascarado de impeachment, vi sucessivas crises políticas, legais e judiciárias. Vi novos escândalos de corrupção e uma reforma trabalhista absolutamente desumana. E, graças às redes sociais e ao afastamento presencial, pude ver também a verdadeira face do Brasil. Confesso que não gostei do que vi.
Infelizmente, vi muitas pessoas defendendo políticos fascistas e regimes militares. Mais do que isso, vi muitos ligarem o “foda-se” para o povo brasileiro enquanto unidade populacional, que é o que deveríamos ser. Um tapa na cara da democracia. Uma traição à República e uma infeliz vitória do individualismo sobre a empatia.

Por Aline SA, para o Portal Geledés

Fotografia: D.R.

Hoje eu vejo no Brasil o reflexo do que foi uma formação de um povo, na qual alguns aprenderam que para si cabe tudo, enquanto que para outros, paciência. É normal ter muito dinheiro sobrando, usar drogas ilícitas numa segura cobertura no Leblon e explorar os moradores das comunidades pobres as quais, se muito, eles só conhecem pelos nomes. Portanto, também é normal alguns passarem fome, ter chacina e tráfico de drogas na favela. Uma guerra civil provocada por eles, mas que, na hora de exercer seus podres poderes e amenizar os estragos que tanta ganância causa, eles lavam as mãos, sempre tão sujas de propinas e cargos públicos usurpados por décadas.

Se sobra tanto nas contas bancárias dos políticos e do dono da JBS, um corrupto gigante da carne, é lógico que esta vai faltar na mesa de alguém. Quando sobra ego e poder para alguns, tem carência de dignidade para muitos. Tal como preconizado nos fundamentos das ciências econômicas, os recursos são escassos; se sobra de um lado, há de faltar em outro. Ou seja, o problema básico do Brasil está claro, e só não vê quem não quer; seja por conveniência, por ignorância ou por preguiça mesmo. A máxima da preguiça talvez seja lançar mão do tal “foda-se”, afinal.

À falácia da meritocracia, agora se alia também o discurso raso do vitimismo (na verdade, a acusação rasa de vitimismo). Discutir e estudar nossa realidade histórica não é vitimismo. Raciocinar acerca do racismo, tampouco. É triste ver adultos, muitos deles estudantes de universidades federais, proferirem frases que fariam corar alguns alunos do início do ensino médio. Muitos incapazes de fechar um silogismo ou de parar uns poucos minutos para refletir antes de massacrar o teclado. É triste imaginar essas pessoas criando outras, pois foi dessa forma que chegamos aonde estamos. Os que aprenderam que a maior parte do Brasil serve à sua estirpe sempre fizeram vista grossa às injustiças sociais. Defenderam com unhas e dentes os seus excessos, enquanto que impuseram à outra classe de povo, na qual eles não se enxergam, as sobras. Oras, mas quando se quer muito e se tem excesso, não há de se falar em sobra. Então, de sobra, só paciência mesmo. E uma força sobre-humana para sobreviver e passar seus genes adiante.

Tem sido assim por séculos. Essa referida classe, a que se acha dona do País, sempre ocupou e moldou o mercado financeiro e todas as esferas de poder. As regras do jogo são moduladas ao bel-prazer dos que sempre começaram ganhando. Enquanto que para a classe da paciência restam espasmos de resiliência, os quais a outra classe, com o seu cinismo característico, usa como exemplo aos “perdedores” de que há como vencer: basta querer. Então coroam o discurso absurdo com a abjeta acusação de vitimismo. E temos então a clássica propaganda enganosa, com direito a letras miúdas dizendo “requer sorte, provações desumanas e indignas, sangue de barata e não ser morto pela polícia”. Não sejam hipócritas: a outra face da resiliência é, decerto, o desperdício humano pela regra.

O genocídio da população negra no Brasil não é ilusão. Quem dera fosse mesmo uma suposição, uma abstração baseada puramente na nossa estrutura social. Mas não é. Nosso idoso Código Penal, nosso sistema prisional falido e a jurisprudência estão aí para comprovar que não é. Prender e manter encarcerado preto é tão mais fácil e comum do que prender branco por simples obra do acaso? Por que tanta resistência em prender brancos ricos corruptos? Não é acaso, não é coincidência a pobreza, a indignidade e a desigualdade social incrementarem a incidência dos crimes patrimoniais, os quais são duramente punidos pelo Direito Penal. Repito, não é acaso, é pura construção social: as pessoas de outrora são a base para a construção das seguintes, isso é mais que lógico. Essa esfera do Direito que recai duramente sobre os 3Ps – pretos, putas e pobres – ainda persiste nesses moldes porque há eras determinaram que se manteria assim. Dou um doce se alguém provar que nosso inconsciente coletivo acerca do passado escravocrata do país nada tem a ver com isso.

Então, por conta do racismo institucional do Brasil, o branco sempre teve por onde se sobrepor ao negro. No mercado de trabalho, nas relações sociais, na mídia, nos espaços cotidianos e até nas relações afetivas. Se hoje estudo na Europa, em meio a tantos brasileiros brancos, essa gente tão fina, elegante e sincera, é tão-somente porque sou uma exceção. Aí volto a falar em resiliência (por parte de meus pais e avós, no mínimo), estabelecimento acertado de prioridades e, claro, alguma sorte. Como acontece há séculos (vide os incomparáveis Joaquim Maria Machado de Assis – https://brasil.elpais.com/…/…/cultura/1498045717_148849.html – e Affonso de Henriques de Lima Barreto – https://brasil.elpais.com/…/…/cultura/1498244164_829345.html), os filhos da mestiçagem ainda encontram uma brecha para estudar e se agarrar ao conhecimento, às possibilidades da educação como ferramenta de utilidade e sobrevivência digna no mercado de trabalho. Este é um dos poucos lugares sociais onde é possível sermos ouvidos antes de verem nossa cor, antes de determinarem de qual linhagem de povo brasileiro fazemos parte. A produção de conhecimento, já tão renegada, não pode se dar ao luxo de desperdiçar espíritos dispostos a zelar por ela; a necessidade de fomentá-la tende a prevalecer. Por isso que o mundo acadêmico, em regra, é diferente. Nele, ironicamente, é tudo preto no branco.

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