sexta-feira, maio 27, 2022
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A masculinidade tóxica que matou 12 pessoas em uma noite de Réveillon

A carta do autor da chacina em Campinas foi divulgada por um veículo importante de comunicação sem o cuidado de, ao menos, convidar uma especialista em feminicídio para explicar sobre o crime. Eu não sou especialista, mas sou mulher e tenho medo das consequências dessa carta. Alguns apontam que ser de direita foi uma das motivações para o crime. Eu não acho. Acredito, exclusivamente, que ser um homem machista que não teve suas vontades realizadas foi o suficiente para acabar com a vida de Isamara Filier e outras pessoas da sua família. Também não creio em loucura ao me deparar com esse tipo de crime. Creio em misoginia, machismo e a dificuldade de um homem aceitar que sua ex-mulher seguiu em frente sem ele. De qualquer forma, não me cabe analisar a sanidade do homem, mas suas palavras misóginas.

Fonte: Huffpost Brasil

por, Dany Santos

O assassino acusa o feminismo por sua motivação para cometer o crime. É preciso, então, explicar o que é feminismo:

Feminismo é um movimento político, filosófico e social que luta pelos direitos das mulheres, pela igualdade entre homens e mulheres e pela libertação feminina de padrões patriarcais que aprisionam, oprimem e paralisam. Padrões que só servem para controlar mulheres e mantê-las caladas e inertes. O feminismo não entra em uma casa e mata doze pessoas de uma só vez. Quem mata, estupra, violenta e acaba com a vida das mulheres são homens misóginos.

O que aconteceu em Campinas foi um crime específico chamado feminicídio. O feminicídio está tipificado no inciso 2º do artigo 121 do código penal, como: “matar cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo até terceiro grau, em razão dessa condição”. E ainda: “matar mulher por razões da condição de sexo feminino”.

Está explícito na carta escrita pelo criminoso o ódio às mulheres: “morto tbm já estou, pq não posso ficar contigo, ver vc crescer, desfrutar a vida contigo por causa de um sistema feminista e umas loucas”, “a vadia foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos”, “quero ser enterrado com a cabeça para baixo se garante que assim posso ir pro inferno buscar a velha vadia”, “ela não merece ser chamada de mãe, más infelizmente muitas vadias fazem de tudo que é errado para distanciar os filhos dos pais”, “tenho raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei vadia da penha”, “toda mulher tem medo de morrer nova, ela irá por minhas mãos” e “quero pegar o máximo de vadias da família juntas”.

O ódio contra o sexo feminino está presente naquela carta o tempo todo.

Inacreditavelmente, estamos em 2017 e as pessoas continuam achando que a mulher teve culpa. Seja por, supostamente, não ter deixado o filho com o assassino ou por desobedecê-lo. Mulheres são estupradas e a culpa é delas, que usaram roupas curtas. Mulheres apanham e a culpa é delas porque provocaram. Mulheres sofrem violência doméstica e a culpa é delas porque não souberam escolher bem o marido. Mulheres são assassinadas por homens e a culpa continua sendo delas. Eu sonho com o dia que culparemos os verdadeiros culpados: estupradores, espancadores e assassinos. Não podemos aceitar a vitimização do criminoso nem a vítima exercendo o papel de culpada. Há uma inversão séria nesse caso.

Matar, agredir e violentar não estão relacionados ao amor, mas ao poder

Dar voz ao autor de uma chacina justificando seu ato é uma irresponsabilidade sem igual. Ali, temos um homem que não acredita na justiça, que acha que estar preso é um passeio, que deixa claro que não tem medo de morrer e que é capaz de qualquer ato criminoso para acabar com uma mulher, que acha que Direitos Humanos defendem bandidos e que ironiza a Lei Maria da Penha. Temos ali um portal obscuro e aterrorizante que dá margem a comentários de outros machistas que se identificam com ele, concordam entre si e se apoiam. A divulgação dessa carta é um perigo para a vida das mulheres que sofrem com o machismo todos os dias.

No entanto, não é uma carta com frases inéditas. É uma reunião de comentários que estamos acostumados a ler na Internet e a ouvir pessoalmente: declaração de ódio às mulheres, que são consideradas vadias quando empoderadas, repulsa pelo feminismo e um vale-tudo pelo poder. Matar, agredir e violentar não estão relacionados ao amor, mas ao poder. E a busca por esse poder que tem alicerce no machismo cega e mata. Mulheres no poder são periogosas para o patriarcado. Elas ameaçam uma masculinidade frágil que leva um homem a achar que, por não bater em uma mulher, é frouxo: “sei que me achava um frouxo em não dar uns tapas na cara dela”. Essa masculinidade construída socialmente mata doze pessoas em uma noite de Réveillon. Essa ênfase excessiva na masculinidade e no poder produz assassinos e coloca em risco vidas femininas.

O criminoso deixa claro que não odeia todas as mulheres e que gosta apenas das “de boa índole”. Essa mulher “de boa índole” opõe-se à mulher “vadia”. Para homens machistas, mulheres de boa índole obedecem, acatam, calam-se enquanto as vadias rebelam-se, revoltam-se, não aceitam e usufruem da Lei Maria da Penha se assim for necessário. Estamos aqui por todas. Nós somos o saco de pancadas que se cala ou o obstáculo que grita pela liberdade. Os rótulos vão depender de como nos comportamos na nossa sociedade machista, do quanto tiramos o sono dos misóginos com nossa busca pela liberdade e do quão forte aprendemos a ser a cada dia.

Sidnei está na nossa casa, nas nossas festas, na nossa universidade, no nosso escritório

A morte de Isamara Filier e seus familiares é o efeito brutal do machismo na vida das mulheres. É por isso que o feminismo se faz necessário. É urgente pensar nas mais diversas formas de proteger mulheres e libertá-las. Sidnei, o autor do crime, não é um personagem fictício louco que habita um lugar longe do nosso planeta. Ele é aquele homem que brinca que lugar de mulher é pilotando fogão, é aquele tio que diz que política não se faz com mulher, é aquele primo que escreve posts machistas, é aquele marido que brinca que quem manda ali é ele, é aquele filho que não lava o próprio prato e explora a mãe. Sidnei está na nossa casa, nas nossas festas, na nossa universidade, no nosso escritório. Sidnei é mais comum do que você imagina.

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