quarta-feira, setembro 22, 2021
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Mercado de trabalho ainda é desafio para as transexuais

O dia 9 de setembro de 2020 foi um marco na vida de Jhenny Silva, 28. Mesmo tendo assumido sua identidade de gênero aos 12 anos, ela enfrentou por anos na pele a dor do preconceito social e, como não conseguia se inserir no mercado de trabalho, passou a atuar como faxineira e cuidadora de idosos para sobreviver, mas de forma informal. A primeira oportunidade de um emprego com carteira assinada veio somente há quatro meses, quando ela foi contratada como agente de limpeza em uma empresa terceirizada no Hospital Regional de Betim.

“Já passei por algumas situações, como olhares constrangedores. Mas nunca fui humilhada ou desrespeitada no meu trabalho. Ainda não fiz qualquer tipo de transformação no meu corpo e apenas tenho características femininas, o que acho que me ajudou ter uma aceitação mais fácil na sociedade. Mas vejo que as trans que têm o corpo transformado sofrem muita resistência, sobretudo, no mercado de trabalho. Felizmente, a empresa que trabalho tem grande preocupação com o cunho social. No entanto, no geral, essa não é a realidade do mercado de trabalho no país”, lamentou Jhenny.

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Somente há quatro meses Jhenny Silva, 28, conseguiu uma vaga formal como agente de limpeza (Foto: RONALDO SILVEIRA)

A primeira oportunidade de trabalho formal conquistada por Jhenny, mesmo que de forma tardia, não é partilhada pela maioria das transexuais. Diante do preconceito e, muitas vezes, da baixa escolaridade, várias acabam se tornado profissionais do sexo, como atestou um levantamento feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra). No relatório, estima-se que 90% das trans no país vivem apenas da prostituição.

Esse é o caso da betinense Clarrisse*, que há cinco anos trabalha neste ramo. Sem concluir o ensino médio, porque sofria bullying e homofobia na escola, e depois de fazer transformações hormonais em seu corpo, ela nunca conseguiu uma vaga no mercado de trabalho. “A única opção que achei para pagar as minhas contas foi entrar para a prostituição. Já trabalhei nas ruas, levei pedradas, e, hoje, atendo os clientes em casa. Mas meu sonho mesmo era ser psicóloga”, confessou.

Para garantir maior alcance das políticas públicas em Betim para a população LGBTQIA+, a prefeitura lançou, no último dia 29, data em que é lembrada a visibilidade trans no Brasil, o 1º Plano Municipal de Políticas Públicas para a população LGBTQIA+.

O documento, elaborado pelo Conselho LGBTI de Betim tem como objetivo nortear as ações governamentais da cidade em defesa do público-alvo pelos próximos quatro anos. “O plano contém a regulamentação de intervenções multisetoriais sobre o tema da diversidade sexual, tão presente nos dias de hoje. É uma proposta que surge em reação aos, cada vez mais preocupantes, dados estatísticos que tratam da população LGBTQIA+, incluindo o aumento de assassinatos e repressões dessas pessoas”, salientou a presidente do conselho e coordenadora geral do único movimento organizado Ass. Comunidade LGBTQIA+ de Betim, Leônidas Ferraz.

Na contramão da triste realidade vivenciada pela maioria das trans brasileira, Emanuelle Fernandes da Silva, 44, encontrou, por meio da educação, uma forma de vencer o preconceito da sociedade. Em 2001, depois de passar anos dedicando-se aos estudos, ela passou em um processo seletivo na Prefeitura de Betim como Guarda Municipal e, após ficar oito anos no cargo, efetivou-se em um concurso como guarda patrimonial, sendo servidora pública há 20 anos.

“Só fiz as transformações no meu corpo quando tive condições financeiras. Acredito que ainda existem muitos desafios para as trans se inserirem no mercado de trabalho, mas precisamos nos organizar e lutarmos por políticas públicas em favor da comunidade LGBTIA+. A educação é um pilar para isso. Sem ela, você não tem bagagem para lutar de igual para igual.

Nome social

A prefeitura também realiza, desde julho de 2020, a Retificação do Nome Social desse público. O projeto, que tem a parceria da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas), da Defensoria Pública de MG e da Associação Comunidade LGBTQIA+, já atendeu 30 pessoas.

Violência

De acordo com relatório da Antra e do Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE), no ano passado, ao menos 175 mulheres transexuais foram assassinadas no Brasil, contra 124 mortes registradas, em 2019. Com isso, o aumento das mortes, neste ano, em relação ao ano passado, foi de 41%. No entanto, conforme a pesquisa, como se trata de dados subnotificados, estima-se que o número seja maior.

As mortes em 2020 estão acima da média registrada desde 2008, que é de 122,5 assassinatos por ano. “O ano de 2020 revelou aumento de 201% em relação a 2008, o ano que apresentou o número mais baixo de casos relatados, saindo de 58 assassinatos em 2008 para 175 em 2020. Mesmo durante a pandemia, os casos tiveram aumento significativo de acordo com o publicado nos boletins bimestrais ao longo de 2020”, informou o documento da Antra.

*Nome fictício

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