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Meus Olhos Coloridos e o Racismo Estrutural

Meus Olhos Coloridos e o Racismo Estrutural

“Só por hoje

Vou deixar meus cabelos em paz

Durante 24 horas serei capaz

De tirar

Os óculos escuros modelo europeu que uso

Enfrentar a claridade

Só por hoje”( SOBRAL, 2014:16)[1]

por Juliana Costa enviado via Guest Post para o Portal Geledés

“Deixe o diferente participar da sua vida” é a única frase que pode ser salva na mensagem de ano novo da UFJF, pois permite uma série de reflexões, dentre elas, qual significado de diferente? Sabemos conviver com o diferente dos padrões que a sociedade nos oferece? Que o cabelo “bom”, “ideal”, é o liso, por exemplo. Sabemos que são sutis as ideologias racistas em nossa sociedade que se manifestam por discursos verbais ou não. A imagem da mensagem primeiro permite compreender a ideia do “a parte de”, “de fora do lugar”, a mulher negra assujeitada às mãos brancas e masculinas que esticam uma mecha de seu cabelo… E o cabelo que para a maioria de nós, feministas negras e militantes, é considerado uma forma de resistência. E ainda podemos ler na imagem a mulher negra submissa, suas mãos não aparecem para impedir a violência do “puxar” das mãos brancas sem rosto que pode representar uma ideologia, vocês sabem qual é?

Acredito na boa iniciativa da instituição em querer promover a tolerância, porém que ela não difunda a ideia de tolerância com a ideia de submissão, pois aí reina o problema. Se queremos promover de fato a igualdade racial, é necessário repensar a estrutura simbólica social, por mais difícil que seja. Após a campanha que visibilizava a presença de professores negros da UFJF, podemos ainda refletir sobre frases que são muito realistas com o universo racista brasileiro: “Eu não sou racista, pois até tenho amigos negros”, “ meu pai é negro não tem como eu ser racista. ” Ou até mesmo “A instituição tem professores negros não tem como ela ser racista”…. Justificativas para não refletir sobre o racismo, mas que não carrega lógica alguma, pois sabemos que o racismo é também estrutural, fazendo com que alguns negros odeiem a si mesmo, odeiem seus cabelos, sua pele e queira se enquadrar nos padrões eurocêntricos de nossa sociedade. E o discurso é o principal instrumento para propagação da tolerância, por isto é necessário cautela para ver se não reproduzimos ideologias opressivas, é com isto que a equipe responsável pela campanha deveria se preocupar.

“Desembarace os sonhos”?   Sabemos que tanto cabelos crespos como lisos podem ficar embaraçados, entretanto a frase juntamente com a imagem promove o fortalecimento de estereótipos de que o cabelo crespo é “mal penteado”, apenas mais um exemplo. “2016 será sim um ano novo” fornece uma preocupação: Como será 2016?

Se não refletimos sobre as relações raciais e não movermos forças que promovam de fato a tolerância, o respeito à diversidade, e sem sutilezas opressoras, estaremos apenas nos omitindo de um problema que já causou grandes danos na sociedade e que coloca a população negra brasileira nas estatísticas: maiores números de assassinados, menor grau de instrução escolar, maior número de desempregados, maior número nos feminícidios…. Esta é a realidade brasileira que muitos de nós prefere não enxergar e difundi uma paraíso que não existe.

É fácil vestir as indumentárias de tradição afro e não ser negro, pois só vira moda a partir da apropriação de uma classe dominante de elementos que constitui o universo sociocultural das minorias, um verdadeiro palco de hipocrisias corresponde as práticas sociais em nosso país. Um grande passo para permitir que o   diferente participe “da sua vida” é começar a compreender que o diferente já está inserido socialmente, mesmo que busquem colocá-lo de lado. Não queremos um 2016 racista com sorrisos e discursos ornamentados, queremos uma sociedade que respeitem o nosso direito de sermos. E se queremos enxergar o mundo com olhos coloridos que não aceitemos nenhuma cegueira branca… para compreender uma sociedade cheia de cores.

 

Coletivos : Zé do Black, Pretação e NEAB Viçosa

 

veja materia referente: O lugar do corpo negro e o racismo institucional 
(resposta da Universidade aos Estudantes Negros)

 

 


[1] SOBRAL, Cristiane. Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz. Brasília: Ed,2014.

Juliana Costa

Mestranda em Estudos Literários – UFJF 

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