Mostra Internacional do Cinema Negro celebra o griô antirracista Kabengele Munanga

Documentário discute a multiculturalidade na educação brasileira a partir da trajetória de vida do pesquisador e ativista Munanga; mostra será exibida a partir de 16 de novembro no Cinusp, Canal Futura e Globoplay, gratuitamente

No dia 16 de novembro, às 16 horas, na sala do Cinusp Paulo Emilio, localizada no Centro Cultural Camargo Guarnieri, será exibido o filme Kabengele: o griô antirracista, como parte da 19ª Mostra Internacional do Cinema Negro (Micine). O documentário possui a direção de Celso Luiz Prudente, professor e pesquisador da Faculdade de Educação (FE) da USP, a produção do Canal Futura e coprodução da TV PUC/SP. A exibição contará com a participação da equipe responsável pela produção do filme, além de professores e convidados. Além do filme, será lançado um livro com as contribuições do pensador e ativista Kabengele Munanga sobre o cinema negro, no dia 22 de novembro.

Esta edição da Mostra Internacional do Cinema Negro – inaugurada no dia 7 de novembro – acontece durante o mês da Consciência Negra, em novembro, e tem como tema D’África à diáspora: o pensamento antirracista de Kabengele Munanga, por ser composto pelo documentário Kabengele: o griô antirracista, contando a história do antropólogo, ativista e pesquisador com mais de 150 publicações, entre livros, capítulos de livros e artigos científicos. Munanga também recebeu prêmios e títulos de honra, como a Comenda da Ordem do Mérito Cultural, pela Presidência da República Federativa do Brasil, em 2002, e o Troféu Raça Negra 2012, pelo Afro-Brás e Faculdade Zumbi dos Palmares.

Natural do Congo, na África, Kabengele possui conhecimentos que vão além da academia. “Eu vim junto de uma contingência de africanos para o Brasil, mas sempre ensinando aos brasileiros o que aprendi com eles, principalmente sobre o suor e sangue gastos na construção do País. Eles trouxeram cultura, religião, visão de mundo, por isso precisamos de uma educação multicultural que mostre que a identidade brasileira não é apenas europeia”, afirma o homenageado do evento.

“Ser reconhecido como um pesquisador que estuda os problemas da sociedade e contribui para sua transformação é um motivo de orgulho, pois significa que eu não perdi meu tempo e pude contribuir para alguma coisa. Mas quando você entra nessa caminhada da vida, você nunca faz isso com intenção de ser reconhecido, você faz porque não quer ser indiferente na busca por soluções”

afirma Kabengele.

Confira a programação completa da 19ª edição da Micine a seguir.

Rogério de Almeida – Foto: Victória Tambara

A produção busca traçar uma conexão entre o Kabengele intelectual e seu cotidiano. “Não se trata de uma simples entrevista com ele. Nós procuramos mostrar as diversas facetas de Kabengele, por exemplo, em sua casa, andando de bicicleta na rua, no museu, no Centro de Estudos Africanos da USP etc.”, conta Rogério de Almeida, roteirista do filme e professor da FE. 

A escolha do título do filme inclui a palavra “griô” por representar os povos africanos que preservam e compartilham as histórias de sua comunidade. Para Celso Luiz Prudente, Kabengele transmite essa cultura através de seu conhecimento. “O filme mostra como a africanidade que ele nos traz contribui para a formação de um instrumento pedagógico que possibilita o ensino e a pesquisa antirracista no Brasil”, afirma o diretor da obra. No documentário, Kabengele discute a educação antirracista, em comemoração aos 20 anos da Lei 10.639/03.

Kabengele reflete sobre o cinema negro em produção literária da 19ª Mostra Internacional – Foto: Reprodução de Rogério de Almeida

Como griô do filme e de sua vida, Kabengele inspira gerações. “A humildade e a mansidão do professor me ensinaram muito sobre a vida. Entender que Kabengele vem de uma aldeia no interior do Congo e que ele se mantém fiel à sua essência é de se admirar. Kabengele é o nosso preto velho generoso que nos serve com sua sabedoria ancestral”, afirma o jornalista Leonne Gabriel, do Canal Futura, que entrevista Kabengele no filme.

Além da exibição de filmes e realização de debates, a 19ª edição da Micine editará um livro acadêmico com estudos de pesquisadores de diversas regiões do País sobre o cinema negro e a obra de Kabengele. O lançamento acontece no dia 22 de novembro, às 17h30, no Centro Cultural Fiesp, com uma versão impressa, ofertada aos participantes do evento. Uma versão digital deverá ser disponibilizada no Portal de Livros Abertos da USP.

O cinema das minorias

Um dos objetivos do cinema negro é potencializar a discussão de um País mais inclusivo. “A multiculturalidade do filme se apresenta a partir do momento em que se tem a voz de pessoas que antes não tinham direito de falar. Para que aqueles que não tinham imagem possam ser vistos. Na produção, essas pessoas se estabelecem como protagonistas”, afirma Prudente. O diretor do filme apelida o cinema negro como cinema das minorias, em que se pode discutir sobre a mulher, grupos LGBTQIA+ e pessoas deficientes, para que “as maiorias minorizadas ensinem como elas são e como devem ser tratadas”, diz.

O documentário surge com base nos 20 anos da Lei 10.639, que garante a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e africana. Neste contexto, o filme apresenta o pensamento de Kabengele na luta por uma educação antirracista. “Ele começou a escrever uma universidade inclusiva, contribuindo para que ela viesse a ter mais a cara do Brasil e sua multiculturalidade”, afirma Prudente. 

Segundo o roteirista, a educação antirracista não só debate as formas de manifestação do racismo, como promove a representatividade da população negra e dos povos originários nos vários setores da vida social, seja na universidade, no cenário político ou em empresas. “Quando nós discutimos sobre a inclusão da Lei de Cotas e de uma educação antirracista, o que temos é justamente a necessidade de fazer reparos históricos e utilizar medidas sociais que possibilitem a diminuição da desigualdade”, afirma Almeida. 

Frutos da educação antirracista

O filme conta com uma série de homenagens a Kabengele, vindas de professores e pesquisadores que enxergaram em sua trajetória um exemplo de vida. Entre eles, está Prudente, que além de dirigir o filme, compartilhou memórias com Kabengele quando ele era diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP e professor do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Nesse período, Prudente analisou instrumentos musicais africanos com a ajuda de Kabengele e o trabalho serviu como base para sua tese de doutorado na FE. Em 2022, o pesquisador publicou sua tese de livre-docência na mesma faculdade, sobre a dimensão pedagógica do cinema negro. 

Além de Prudente, o docente da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Ricardo Alexino, presta sua homenagem àquele que, segundo ele, foi o primeiro professor negro e africano que teve durante sua formação. “Na época que fiz a disciplina do Kabengele na USP, eu estava começando o mestrado, no início dos anos 1990. [Na homenagem], eu destaco a importância que ele teve na construção de epistemologias antirracistas, que permitiram construções teóricas decoloniais e, do ponto de vista social, o agendamento de políticas afirmativas em universidades públicas. Se hoje a USP está implementando políticas afirmativas, como cotas raciais, ele foi o pioneiro para este debate”, ressalta Alexino. 

Para o professor da ECA, as contribuições de Kabengele tiveram um grande impacto em sua formação acadêmica. “Muito jovem naquele momento, tornei-me um intelectual que pode pensar a mídia e suas interseções étnico-sociais.  As epistemologias do professor Kabengele Munanga têm permitido mergulhos teóricos profundos para várias gerações de intelectuais”, afirma.

“Qualquer ser humano que tenha estudantes assim, é motivo de orgulho. Ver que eles se tornaram pensadores e estão contribuindo para a formação da sociedade”

ressalta Kabengele ao falar sobre alunos como Prudente e Alexino
Da esquerda para a direita: Alexino, Prudente e Kabengele – Foto: Arquivo pessoal de Leonne Gabriel



A produção da obra

Para contar sua história, Kabengele conta com a ajuda do jornalista Leonne Gabriel, que o entrevista no documentário. “A montagem foi um desafio profissional gigantesco porque tanto a obra quanto o autor são muito complexos. A base de estudos prévios feitos ao longo de nossas vidas foi muito necessária para chegar às perguntas certas e criar na montagem o filme que idealizamos. Enquanto entrevistador, entendi que esse trabalho já nasceu sendo uma obra histórica por ter o Kabengele e a responsabilidade de conduzir as conversas me desafiou enquanto jornalista”, conta Gabriel.

Segundo ele, a gravação durou três dias em diferentes locações. “Nós conseguimos acessar um pouco da intimidade de Kabengele e mostrar a genialidade desse intelectual que tem obras reconhecidas mundialmente. Nós buscamos acessar os pensamentos ‘kabengelianos’ que ainda não estão expressos em textos”, conta o jornalista. 

Além do Cinusp,  o documentário será exibido no Canal Futura, em âmbito nacional, e ficará disponível gratuitamente no Globoplay.

Serviço:

Kabengele: o griô antirracista, como parte da 19ª Mostra Internacional do Cinema Negro (Micine)

Dia 16 de novembro, às 16 horas

Sala Cinusp Paulo Emilio, no Centro Cultural Camargo Guarnieri: 
Rua do Anfiteatro, 109, campus Cidade Universitária, São Paulo

Mais informações: http://www.usp.br/cinusp


*Estagiária sob supervisão de Antonio Carlos Quinto e Tabita Said

**Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado

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