segunda-feira, setembro 26, 2022
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As mulheres negras e o feminismo no Brasil

Pretendo falar aqui sobre a relação entre gênero e raça no Brasil, que também é, inevitavelmente, uma questão de classe. Usando as necessidades das mulheres negras como ponto de partida, tentarei esboçar uma visão geral, embora simplificada, das disparidades que há no feminismo brasileiro.

O Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes, dos quais 50% são mulheres. Embora nossa presidente seja uma mulher, que disputa a reeleição contra outra mulher, ainda somos sub-representadas na política. Em nossa Câmara dos Deputados, menos de 9% são mulheres.

Cinquenta por cento de todas as mulheres brasileiras são negras, o que significa que há 50 milhões de mulheres negras no país — dez vezes a população da Noruega.

Apesar de termos feito grandes avanços nos últimos anos, o Brasil ainda é um país muito desigual e racista. E a história das mulheres negras no Brasil também é a história da minha vida — com diferenças importantes o bastante para me trazer até aqui hoje, enquanto muitas não têm essa oportunidade.

As mulheres da Uneafro, um grupo social originalmente convidado para estar nesta conferência, não falam inglês. Nem mesmo o inglês básico, como eu. Elas têm muito a compartilhar sobre como é ser negra, militante e feminista no Brasil, mas a falta de oportunidade que as acompanhou durante toda a vida se manifesta mais uma vez e elas tiveram de recusar o convite, indicando-me em seu lugar.

Eu estudei inglês em uma pequena escola no subúrbio de São Paulo, graças à minha mãe. Ela era empregada doméstica e conseguiu cursar a faculdade nos anos 1970 graças a uma bolsa. Minha mãe e eu fazemos parte de um pequeno grupo de mulheres negras que têm acesso à educação superior. Hoje, as mulheres negras ainda formam apenas 20% da população universitária.

Minha avó foi empregada doméstica durante toda a sua vida. E a mãe dela provavelmente foi uma escrava. Em 2008, de cada 100 mulheres que trabalhavam no Brasil, 22 eram empregadas domésticas. Dez anos antes, eram 48%. Até o ano passado as empregadas não tinham sequer os mesmos direitos que outros trabalhadores brasileiros. Somente em 2013 elas tiveram garantida a semana de 44 horas, pagamento por horas extras, pagamento extra por trabalho noturno e seguro-desemprego — graças à luta de trabalhadoras organizadas.

Minha mãe e minha avó criaram seus filhos sozinhas. Meu avô deixou a família quando minha mãe tinha dois meses e meu pai também nos deixou quando eu tinha dois meses. Isto não é um fato isolado, tampouco. Cerca de 35% das chefes de famílias brasileiras são mulheres.

Minha mãe, assim como minha avó, nunca teve um novo relacionamento ou casamento. Vários pesquisadores dizem que a subjetividade das mulheres negras, especialmente no que se refere a sua autoestima, seu afeto e sua sexualidade, é muito comprometida pela “brancura” de nosso modelo social. Acrescente a isso a experiência de muitas mulheres com o abandono e a violência, e você terá a imagem de que ficar sozinha não é uma opção.

Depois de se divorciar de minha mãe, meu pai se casou de novo e teve um filho, com o qual perdi o contato quando nosso pai morreu. Eu tinha 11 anos.

Como muitos outros negros, meu pai morreu jovem, depois de passar a vida ganhando dinheiro com jogo de apostas, que é ilegal no Brasil. Ele era inteligente e ambicioso e inventou uma maneira de ganhar dinheiro. E acabou mal, como acontece com a maioria dos jovens negros. Em 2012, morreram proporcionalmente quase 150% mais homens negros do que brancos em homicídios, acidentes de carros ou suicídios, como meu pai.

Não preciso salientar quanta dor senti e ainda sinto por essa história, e como é difícil falar sobre ela. Depois de anos de estudos e de terapia, decidi procurar aquele irmão, e descobri no ano passado que ele também é um jovem inteligente e ambicioso. E que está na cadeia. Quase 550 mil pessoas estão presas no Brasil hoje, e quase 60% delas são negras.

Eu pensei em procurar meu irmão na prisão, mas não tive esse tipo de força emocional, como também não poderia suportar a revista corporal opressiva e vergonhosa. No Brasil, a maioria das pessoas que visitam seus entes queridos na prisão sofrem abusos. Elas têm de tirar todas as roupas, agachar-se e às vezes sofrer exames clínicos invasivos. Isso acontece até com crianças.

A situação das mulheres prisioneiras também é terrível. Nas prisões de São Paulo, o estado mais rico do Brasil, cada mulher recebeu em média meio absorvente feminino por mês. Meio. E cerca de 40% delas nunca recebem visitas na cadeia.

Os jovens negros no Brasil são vítimas de genocídio. E nós, mulheres negras, sentimos isso em nossos corações e em nossa pele. A maioria das mulheres negras vive sozinha, trabalha muito por baixos salários, cuida dos filhos sozinhas e veem seus filhos, pais e irmãos serem mortos ou presos.

Eu experimento esta realidade parcialmente. Apesar da dor e das memórias, hoje sou professora e jornalista, casei-me e vivo em um bairro central de classe alta. Mas isso me coloca em conexão muito próxima com o que chamamos de “branqueamento”. Bem, meu nome é Bianca, que significa “branca” em italiano. Esse branqueamento se manifestou desde que eu era criança, quando não havia ninguém para falar sobre cor da pele, cabelo ou ancestralidade — nem em minha casa nem na escola. Isso se manifestou especialmente no modo como cuido de meu cabelo.

As mulheres de minha família sempre alisaram seus cabelos, como a maioria das mulheres com cabelo afro nos centros urbanos brasileiros. Com meu cabelo afro eu sempre era convidada a “arrumá-lo”.
Eu deixo meus cabelos soltos há menos de um ano, e comecei a usar turbantes coloridos e grandes que parecem estranhos para a maioria das pessoas. Muitas me param na rua e perguntam se sou uma artista, porque “só uma artista usaria um cabelo como aquele”.

Considerar o cabelo negro ruim e o do branco bom é, como sabemos, uma expressão de racismo e de desigualdade racial.

As mulheres brancas são consideradas frágeis. As mulheres negras, por outro lado, são muitas vezes consideradas fortes. Nossos corpos nus são expostos na TV antes, durante e depois do carnaval. Sempre fomos trabalhadoras. E não temos acesso à justiça. A justiça no Brasil tem uma cor muito específica — branca.

Nem sempre o feminismo considera essas diferenças. Por causa disso, muitos movimentos de mulheres negras apontam que diversas abordagens do feminismo são brancas, eurocêntricas, acadêmicas, ricas e até racistas.

Um ponto de divergência evidente no feminismo no Brasil é a autonomia das mulheres sobre seus corpos. O feminismo mais liberal, por exemplo, dá um novo significado a termos pejorativos como “puta”, por exemplo, e elas expõem seus corpos nus como um comportamento afirmativo.

Para muitos movimentos populares de mulheres negras, porém, não é possível dar um novo significado a termos que já foram usados para oprimir as mulheres, especialmente as pobres e negras. Os corpos das mulheres negras, usados pela mídia como objetos sexuais, são expostos naturalmente. Por isso, interpretar a autonomia corporal como um direito pessoal a ser uma prostituta e explorar a nudez é um dos conflitos do feminismo brasileiro.

O aborto, por outro lado — que é considerado crime no país — parece unir o movimento. As mulheres que têm dinheiro no Brasil abortam com assistência médica em clínicas privadas. Enquanto isso, as mulheres pobres acabam tendo de recorrer a práticas inseguras para abortar. Muitas delas morrem nessa tentativa; outras são negligenciadas quando chegam com hemorragia ao hospital. O aborto é ainda hoje uma das principais causas de mortalidade no Brasil.

A transexualidade é mais um ponto de conflito. Alguns movimentos lutam pela inclusão dos travestis e das mulheres trans na agenda feminista, vendo os problemas de gênero como uma questão de identidade. Outros movimentos endossam que a submissão das mulheres deve ser a agenda principal, entendendo o gênero como uma relação histórico-social entre homens e mulheres.

Finalmente, a regulamentação da prostituição é outro ponto de diferença significativa. Alguns grupos lutam pela regulamentação para garantir que as prostitutas tenham direitos, já que todos podemos escolher o que fazer com nossos corpos. Mas há grupos que colocam a prostituição em um contexto mais complexo, de vulnerabilidade, mais que de opção da mulher; a regulamentação, portanto seria a opressão formal.

Casa da Lua, o coletivo feminista de que participo, acredita na diversidade e no diálogo como valores necessários para a agenda feminista. Tentamos abraçar as diferenças internas em nosso próprio grupo, vendo-as como motivação para o fortalecimento individual e coletivo. Acreditamos em revoluções internas, construídas como um grupo, tornando-se transformação social. Cada atividade realizada em nosso espaço acaba com um breve ritual em que, em um círculo, dizemos três vezes: “Ponho minhas mãos sobre as suas para que possamos juntas fazer o que não posso fazer sozinha”.

Muito obrigada pela oportunidade deste encontro. Acredito que podemos promover mudanças unindo nossas mãos. Obrigada.

 

Fonte: Brasil Post

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