‘Não existe incentivo para pessoas negras na ciência’, diz astrofísica vencedora de prêmio para mulheres cientistas

Preconceitos estruturais impedem que um número maior de mulheres optem por carreiras na Ciência, um caminho que é ainda mais difícil para as negras, que enfrentam discriminação dupla, o racismo e o machismo. Um levantamento divulgado este ano pelo Open Box da Ciência mostra que entre os pesquisadores com doutorado em Ciências Exatas e da Terra no Brasil, 68,9% são homens e apenas 31,1% mulheres.

A astrofísica Rita de Cássia Anjos, de 36 anos, desafia essa lógica. Mulher, negra, com uma adolescência pobre, hoje ela investiga a origem dos raios cósmicos e sua possível relação com galáxias de intensa formação de estrelas — conhecidas como galáxias starburst. Também colabora em projetos de inclusão para jovens com deficiência nas Ciências exatas e equidade de gênero na astronomia. Rita é a vencedora na categoria Ciências Físicas do prêmio Para Mulheres na Ciência, promovido pela L’Oréal, Unesco Brasil e Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Caçula dos oito filhos da técnica de enfermagem Antônia e do pedreiro Carmelino, ela estudou em escolas públicas, onde não teve acesso às disciplinas Física e Química. Mesmo assim, com o incentivo da irmã, prestou vestibular e iniciou uma vida acadêmica brilhante aos 21 anos. “Eu era a única pessoa negra ali”, lembra Rita, que fez mestrado e Doutorado na Universidade de São Paulo (USP) e, hoje, é pesquisadora e professora na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Passou uma temporada na Universidade da Cidade de Nova York, em 2017, e fez um pós-doutorado no Centro Harvard-Smithsonian para Astrofísica, em 2019.

“Com o valor do prêmio, ampliarei o processamento da minha rede de computadores, onde faço simulações com meus alunos. Além disso, pagarei os estudos de mestrado ou de iniciação científica dos estudantes que estejam sem condições financeiras”, diz Rita.

Em entrevista à CELINA, a astrofísica fala sobre o propósito da sua pesquisa, o racismo e misoginia na academia, a importância das ações de inclusão e diversidade no meio acadêmico e a relevância de receber, em meio a incipiência de incentivos, um prêmio como mulher na ciência.

CELINA: Desde a infância você teve curiosidade pela Ciência. As mulheres da sua família te inspiraram de alguma forma?

RITA DE CÁSSIA ANJOS: Com certeza. Eu nasci no interior de São Paulo, no pequeno município de Olímpia, que possui cerca de 50 mil habitantes. Desde criança, minha mãe Antônia, que é técnica de enfermagem, falava que era importante entender e pesquisar como as coisas funcionavam. Esse incentivo me estimulou para seguir o caminho da ciência. Em casa, durante o ensino fundamental, assistia com a minha família os programas do (canal) Futura voltados para a educação. Aos 18, incentivada financeiramente pela minha irmã Mônica, entrei para o cursinho preparátorio para o vestibular. Dois anos depois, entrei para a primeira turma de Física Biológica da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em 2003. Foi nesse período que comecei a me apaixonar pela física básica.

CELINA: A sua pesquisa foi a vencedora na categoria Ciências Físicas no prêmio Para Mulheres na Ciência. Qual sua motivação em pesquisar os raios cósmicos?

RITA DE CÁSSIA ANJOS: Eu trabalho com astrofísica de partículas. Os raios cósmicos são partículas de altíssima energia. O que eu quero desvendar é de onde vêm os raios cósmicos e como eles interagem pelo universo até chegar à Terra. Eu fiz o doutorado na área de propagação, e o prêmio é focado nas galáxias starburst – que estão entre as mais luminosas do universo e apresentam fortes ventos. A minha teoria é que elas podem ser a fonte dos raios cósmicos. Agora a ideia é afunilar o estudo e no final ter esse espectro medido.

CELINA: O que significou ser premiada?

RITA DE CÁSSIA ANJOS: É muito emocionante porque atribui valor. A pesquisa que eu faço é um projeto de qualidade e um prêmio como esse, para a ciência básica, diz que o estudo importa. Olhando para os desestímulos que sofri, ser reconhecida me traz um sentimento de força e competência. É uma responsabilidade para a mulher negra na ciência. Com a bolsa-auxílio de R$ 50 mil, ampliarei o processamento da minha rede de computadores, onde faço simulações com meus alunos. Além disso, pagarei os estudos de mestrado ou de iniciação científica dos estudantes que estejam sem condições financeiras.

CELINA: Na trajetória de conquistar seu espaço na física, você passou por algum episódio de racismo?

RITA DE CÁSSIA ANJOS: O racismo me acompanha desde o início da minha trajetória acadêmica. Na graduação, eu estudava de manhã e tinha algumas aulas durante a tarde. À noite, ficava na biblioteca. Eu vivia na faculdade e eu era a única negra. Não existe espaço para mulheres negras na ciência. Tanto na graduação, quanto no mestrado, ouvi de professores “é incrível você chegar até aqui”. E sei que diziam isso porque eu era a única preta. Hoje, sinto o preconceito de uma forma mais descarada. Essas frases me perseguiram e ainda me acompanham. Recentemente, na docência, uma professora olhou para mim e perguntou se eu era aluna cotista. Quando respondi que não, questionou se era professora substituta, quando na verdade sou efetivada. As pessoas possuem a mentalidade de que o preto está relacionado a pobreza.

CELINA: Também enfrentou misoginia?

RITA DE CÁSSIA ANJOS: O mestrado em Física na Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos, foi incrível pela formação. Foi um momento em que eu aprendi bastante Matemática e Física, mas questionei se estava no local certo pelo sexismo. Quando comecei a estudar, só havia homens. Era um ambiente hostil. Quando os homens veem uma mulher que faz Física muito bem, eles a colocam em um pedestal, esperando que você eventualmente erre, sempre questionando o conhecimento feminino. Na orientação do doutorado, também na USP, tive episódios relacionados à desigualdade de gênero, mas com outra roupagem. Enquanto os homens eram incentivados, eu fui desmotivada e subvalorizada. Me disseram: “Você é uma pessoa boa para resolver modelo, mas para sobreviver nessa grande área é preciso saber propor e você não sabe”. O campo da Astrofísica é majoritariamente masculino, mas eu não ligo para cara feia e comentários. Eu mostro e provo a minha capacidade.

CELINA: Quais são os maiores obstáculos para as mulheres negras dentro da ciência?

RITA DE CÁSSIA ANJOS: A baixa representatividade e incentivo. A verdade é que são raras as mulheres negras na ciência. No meu caso, os maiores desafios foram o sexismo e o racismo. Por isso, vejo as cotas como uma forma de acelerar o processo de acesso à educação. Essa reparação é importante porque faz total diferença para um aluno que não teve um ensino de qualidade. Ela ajuda o negro a escolher, se quiser, profissões que hoje são majoritariamente brancas, como a maioria das Ciências Exatas. Historicamente, o trabalho braçal está sempre ligado a pessoas pretas e a academia as pessoas brancas.

CELINA: Você é professora do projeto ‘Rocket Girls: Meninas na Astronomia e na Astronáutica’. Qual a importância de incentivar as meninas nessas áreas?

RITA DE CÁSSIA ANJOS: As meninas precisam ser valorizadas além das profissões status quo, como a tríade professora, médica e advogada. Se ela tem aquela predisposição e prazer, é preciso incentivar. No projeto, mostramos as possibilidades além do senso comum. A beleza da iniciativa é ensinar e instigar a potência feminina por meio de inovações apresentadas no meio acadêmico.

CELINA: Você tem uma irmã cega. Isso te motivou de alguma forma em seu trabalho como docente e presquisadora?

RITA DE CÁSSIA ANJOS: Minha irmã ficou cega com 35 anos. Esse episódio me deu motivação para entender os desafios relacionados à educação de pessoas com deficiência. Ela levou um ano para aprender a utilizar o leitor de tela e a linguagem em braile. Com isso em mente, pensei na potência de uma criança, e comecei a colaborar com o projeto Oficina de Materiais Pedagógicos para o Ensino e Aprendizado de Deficientes Visuais. O que falta é oportunidade. Um jovem com deficiência que vai fazer o Enem optará pelas Ciências Humanas por conta do recurso do leitor de tela. O estímulo das exatas é um desafio para jovens com deficiência, mas eles têm capacidade. É uma ação que demanda tempo, dinheiro e infraestrutura.

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