terça-feira, setembro 21, 2021
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No Rio, Covid-19 mata mais na Zona Oeste e em trecho da Zona Norte; veja números

“Eu estou aqui no banheiro, sozinha. Não tem ninguém para empurrar a cadeira. Eu vim andando para o banheiro. Se você estivesse aqui, eles deixavam. Filha, eu estou naquela cadeira. Filha, me ajuda”. A suplica ofegante, através de mensagem de voz, é de Verônica Maria de Lima, moradora da Maré, de 44 anos, que estava com o celular quando foi internada pela manhã no Hospital municipal Evandro Freire, na Ilha do Governador. Naquele 23 de abril, Tainá de Lima da Silva encontrou a mãe caída no chão. A transferência da paciente, em estado grave, da cadeira de rodas para um leito, só aconteceu à noite. Verônica morreu três dias depois, com suspeita de Covid-19. Uma confirmação que nunca virá, pois não fez o teste para identificar se tinha contraído a doença. Um direito dado apenas a doentes considerados muito graves internados em unidades públicas do Rio. Ou a quem tem entre R$ 210 e R$ 470 para pagar por um exame em laboratório particular habilitado ou possui um plano de saúde de primeira linha.

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À medida em que a pandemia avança, Verônicas se multiplicam em regiões carentes e comunidades do Rio. Números e relatos revelam um aprofundamento do abismo entre pessoas de menor e maior poder aquisitivo. As taxas de letalidade (relação entre óbitos e casos), por exemplo, é maior nas áreas de planejamento da Zona Oeste: na AP5.3 (Santa Cruz, Sepetiba e Paciência), chegava a 20,8% na última quarta-feira. Na AP.3.1 (onde estão Maré, Penha, Ramos e Manguinhos), alcançava 13,7%. Enquanto isso, na AP.4 (Barra, Recreio e adjacências) e na AP.2.1 (Zona Sul), áreas onde a doença começou, as taxas são de 8,5% e 7,4%, respectivamente.

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— A letalidade explodiu nas regiões mais carentes, com Índice de Desenvolvimento Social (IDS) mais baixo — constata o economista André Luiz Marques, coordenador de programas de gestão e políticas públicas do Insper, que fez um estudo de dados oficiais a pedido do Globo.

Para levantar a letalidade por AP, o economista analisou as 375 mortes de moradores do Rio computadas até quarta-feira passada. Os demais óbitos confirmados não tinham a localização de residência ou eram de outro município.

Barra tem mais casos e taxa baixa de óbitos

Na análise por bairros, a realidade não é diferente. Assim é que, na Barra, que concentra o maior número de casos de Covid-19 do município, há 4,9% de óbitos. No Leblon, as mortes caem para 2,4%. Já na Maré chegam a 30,8%, mesmo com parte dos óbitos sendo contabilizados em bairros vizinhos e de muitos não terem a Covid confirmada pela escassez de testes feitos em unidades públicas.

— Algumas áreas da cidade estão apresentando taxa de letalidade por coronavírus superiores à da Itália (13,5%) — compara Daniel Soranz, professor e pesquisador da Fiocruz. — Isso se deve principalmente à falta de acesso a serviços de saúde adequados. Não há uma porta de entrada adequada no sistema de saúde público para pacientes com coronavírus, que estão se misturando com os demais. O maior erro que pode acontecer é contaminar outros doentes.

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O périplo de Verônica e Tainá começou no dia 20 de abril. Com a mãe passando mal, Tainá bateu na porta do Evandro Freire. O hospital estava superlotado, e foram orientadas a procurar a clinica da família do BRT Maré. Lá, a paciente recebeu remédio e foi liberada. Dois dias depois, piorou, indo procurar ajuda na UPA da comunidade. Ficou internada por cerca de 24 horas. Segundo Tainá, o caso se agravou, e a equipe médica, sem conseguir vaga num hospital, sugeriu que a jovem tentasse o Evandro Freire.

— A situação dela era tão grave que internaram no Evandro Freire — conta Tainá. — Nos dias em que ela ficou lá, só conseguia informações da minha mãe das 15h às 16h. As pessoas ficam aglomeradas e no sol para saberem de seus parentes. No dia 27, me ligaram cedo para levar os documentos da minha mãe. Cheguei às 6h e me deram a informação de outra pessoa, que tinha falecido de madrugada. Na hora, pensei que minha mãe estivesse viva. Mas, depois, soube que ela tinha falecido na véspera, às 22h, e só me informaram no dia seguinte, um domingo. E ainda tive que esperar o atestado de óbito de 6h às 16h30m na segunda-feira. É desesperador, é muito descaso.

A artista plástica e socióloga Yvonne Bezerra de Mello se sente, ao mesmo tempo, privilegiada e triste. Há pouco mais de 20 dias teve a Covid onfirmada por teste, ao ser atendida no Hospital Samaritano. Fez ainda ultra e tomografia. Com 25% do pulmão comprometido e medicações prescritas, foi orientada a passar três semanas de quarentena em casa. No isolamento, tem recebido mais de uma dezena de telefonemas de moradores da Maré — onde fundou o projeto educativo Urerê — e de outras comunidades, relatando os dramas para conseguir atendimento:

— Posso ter tratamento, mas a maioria não pode. Pessoas me ligam desesperadas. Elas dependem de políticas públicas que não existem.

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Morador de Botafogo, Rogério Beze, de 42 anos, também se considera favorecido. Quando começou a sentir sintomas leves, a namorada, médica, prescreveu o teste, feito em domicílio. Com o resultado positivo, a própria namorada indicou os medicamentos. —

— Reclamo apenas por ter tido que pagar R$ 210 pelo teste, que meu plano não cobre. A minha namorada também fez e pagou mais caro: R$ 280.

Laboratório faz 18 mil testes, e governo, 10 mil

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Laboratório Richet, no Recreio: 18 mil testes de Covid até agora Foto: Imagem retirada do site O Globo)

A Secretaria estadual Saúde habilitou 15 laboratórios (alguns são grupos) para fazer testes de Covid. Um deles, o Richet, já tinha feito 18 mil testes RT-PCR (através de secreção respiratória) desde o fim de fevereiro, só na capital. Um contrate com o estado, que, no mesmo dia, contabilizava dez mil analises em todo território fluminense, mas informava que, através de parcerias firmadas pelo Laboratório Central Noel Nutels (Lacen) com universidades e institutos, ampliou a capacidade de testagem molecular para 900 amostras por dia.

— Preparamos nosso laboratório no Recreio para atender à pandemia. Estamos recebendo cerca de mil amostras por dia —- conta Hélio Magarinos Richet, diretor do Laboratório Richet, que vai contribuir com o estado fazendo as análises dos testes feitos pelos hospitais de campanha do Leblon e do Maracanã, operados pela Rede d’Or.

Os grupos Daza (Alta, Sérgio Franco, Bronstein e Lâmina) e Fleury (Clínica Felippe Mattoso e Labs a+), que atuam em alguns estados além do Rio, só informam números nacionais. Cada um já analisou mais de 40 mil amostras durante a pandemia. O Fleury criou até um sistema drive thru — no Rio, funciona nos estacionamentos de unidades na Barra e em Madureira — para atender clientes agendados.

— Em São Paulo, o Fleury, outros laboratórios e empresas nos reunimos para ajudar o governo a fazer testes — conta o infectologista Celso Granato, diretor clínico do Grupo Fleury, que acha possível alinhar uma parceria semelhante com o Rio.

Em relação a testes rápidos para coronavírus (uma alternativa para pacientes a partir do oito dia de sintomas), as informações são conflitantes. A Secretaria estadual de Saúde afirma que recebeu, até quinta-feira do Ministério da Saúde, 87 mil desses kits, usados em profissionais de saúde e repassados para os 92 municípios. O ministério, porém, sustenta que repassou ao estado 268.160 desses testes. Em Niterói, a prefeitura, com recursos próprios, adquiriu 50 mil testes, aplicados em profissionais de saúde e de segurança, e, desde a semana passada, encaminhados para as 42 unidades do Programa de Saúde de Família, a fim de serem usados em doentes cadastrados.

Grupo para monitorar casos

Moradora da Maré, Michele Araújo viu o drama da Covid se abater sobre a sua família. A filha de 4 anos, com direito a seu plano empresarial, conseguiu tratar particular. O pai, grave, levou para o Evandro Freire. Para a mãe, também infectada e sem conseguir atendimento no hospital público, se desdobrou para pagar exames, médico e remédio.

— O meu pai (Olavo Araújo, que morreu na última quarta-feira) ficou 24 horas numa cadeira até conseguir um leito. Ele foi transferido para o Gazolla, e eu só fiquei sabendo no dia seguinte, quando fui ao Evandro Freire saber dele. Tudo isso me angustiou muito —- desabafa Michele.

A ONG Redes da Maré organizou um grupo para ajudar e monitorar moradores com Covid das 16 comunidades do bairro. Já há 80 casos monitorados, segundo a psicóloga Laís Araujo, uma das coordenadoras do grupo. Entre eles, o de Emanuele Luiza de Souza Lopes, que, no dia 15 de abril, levou o pai Luiz Lopes Filho, de 67 anos, para a UPA da Maré. Com suspeita de Covid e pneumonia constatada por raio-x e sangue, ele foi internado.

— Não tinha vaga. Tentaram no Gazolla e no Federal de Bonsucesso. E deram um jeito na UPA. Adaptaram um leito na sala amarela, para colocar o oxigênio, e ele ficou lá, junto com pacientes com outras doenças e acompanhantes. No dia 18, alegando que havia muita demanda e que o ambiente não era ideal para ele, o médico deu alta. Ele recebeu alguns remédios. Um antibiótico tive que comprar, por R$ 120. O Tamiflu, que demorei para achar e custou R$ 280, ele não conseguiu tomar. Morreu antes, no dia 20 — desabafa Emanuele.

Mortes como as de Olavo Araújo e de Verônica Maria de Lima não entram para as estatísticas do município, nem de casos nem de óbitos, relevando o grau de sub-notificação da Covid no Rio. Mas, mesmo entre aqueles que fazem exames, a imprecisão é grande. Dos 5.689 casos confirmados na capital até quarta-feira, 1.700 não tinham a identificação de bairro. Também do total (5.689) 5.509 tinham a data da confirmação do caso, permitindo a sua inclusão numa linha do tempo.

— Na segunda quinzena de abril, foram contabilizados 1.059 casos sem identificação e apenas 674 identificados. Isso prejudica a analise — adverte o economista André Marques.

Sobre os doentes citados na reportagem, a Secretaria municipal de Saúde diz que, em suas unidades na Ilha, “todos os pacientes acolhidos recebem o cuidado e a assistência devidos”. A Secretaria estadual de Saúde alega que Verônica “foi inscrita para a regulação de vaga de UTI para Covid-19” e saiu à revelia da UPA. Quanto a Luiz, afirma que, quando recebeu alta, sua saturação de oxigênio indicava 96%.

Ideias para sair da crise

Presidente do Sindicato dos Médicos do Rio e lotado no Hospital municipal Ronaldo Gazolla, referência para tratamento de Covid-19, Alexandre Telles lembra que o acesso ao serviço de saúde sempre foi algo desigual no Brasil, onde não houve expansão da rede pública e o subfinanciamento é crônico. Uma situação, ressalta, que acabou ficando mais evidente com a pandemia de coronavírus. Com o atendimento público perto do colapso, Telles se inclui no grupo daqueles que defendem a inclusão dos leitos de UTI de hospitais particulares numa fila única de regulação, medida prevista pela legislação, desde que o setor privado seja indenizado pelas vagas.

— Outra frente é o funcionamento, o mais rapidamente possível, dos hospitais de campanha, que já estão chegando tarde demais. A pandemia começou na Europa dois meses antes, e nós ficamos inertes. É preciso, agora, que os governantes assumam compromissos sérios com os profissionais, para que eles aceitem trabalhar nesses hospitais — diz ele.

Telles critica ainda a omissão do governo federal, que mantém leitos fechados em suas unidades no Rio. O defensor público federal Daniel Macedo afirma que, nos seis hospitais do Ministério da Saúde, há 850 leitos que não podem ser ocupados por falta de profissionais, e 750 que estão no sistema de regulação, mas não são destinados a coronavírus. Macedo, pela Defensoria, e o Ministério Público Federal, obtiveram decisão da Justiça Federal ordenando a ocupação dos leitos federais ociosos. A decisão inicial foi seguida por audiências.

— Na primeira audiência, a Justiça determinou que o governo federal contrate 4.177 profissionais para a reativação desses leitos, fundamentais neste momento. Desde 2006, a União não realiza concurso para a saúde. A decisão foi encaminhada ao ministro Paulo Guedes (da Economia) — afirma Macedo.

Diretor de Relações Externas da UFRJ, o infectologista Edimilson Migovski destaca que a falta de controle da pandemia no Rio decorre sobretudo por uma questão de base: a falta de estrutura do Programa de Saúde da Família. Ele entende que seria fundamental agentes de saúde estarem percorrendo áreas carentes, informando sobre prevenção e detectando casos no início, para evitar que infectados contagiem outras pessoas.

— Uma integração de fato, hoje inexistente, entre as redes municipal, estadual e federal é fundamental ainda para que o SUS possa funcionar de fato, e pacientes não fiquem peregrinando de um lado para outro — conclui Migovski.

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