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Noite de luta em Brasília: uma crônica que não saiu na TV

Em atitude cheia de simbolismos, povos ocupam Câmara no aniversário da Constituição. Apesar das ameaças de Cunha, ninguém dormiu — os tambores não deixaram

Por Cibelih Hespanhol Do Outras Palavras

05 de outubro de 1988: a Constituição Federal era promulgada.

05 de outubro de 2015: povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais ocupavam o plenário I, anexo II, da Câmara dos Deputados em Brasília. Insatisfeitos com a Audiência Pública que, pela tarde, debateu a violência de milícias armadas, decidiram permanecer na Câmara em vigília noturna pelos seus mortos por conflitos territoriais.

Nesta noite, ninguém dormiu: os tambores não deixaram. Cantos, danças, falas de protesto eram incêndios internos para animar a resistência frente a fome e o sono. As luzes já tinham sido apagadas por Eduardo Cunha, que por volta das 22 horas negou o pedido dos povos por sua presença, e por volta das 23 horas fez vir a da polícia legislativa.

Mesmo ameaçada, a ocupação continuou. Os cantos entoados no escuro giravam as saias de quilombolas do Maranhão, batiam as palmas de pescadores de Minas Gerais, ritmavam os chocalhos de indígenas do Mato Grosso do Sul.

De acordo com relatório divulgado pela CPT, nos últimos dez anos foram registrados mais de cinco mil conflitos territoriais envolvendo povos e comunidades tradicionais. Neste contexto, mais de 1074 pessoas foram ameaçadas de morte, e 98 foram assassinadas. Daniel Guarani Kaiowá, ainda na mesa da audiência, dissera: “Nós não estamos aqui pedindo favor. Estamos aqui pedindo para que se cumpra o que já está escrito. O que acontece hoje no Brasil é que a demarcação de terras não é feita com uma caneta, mas com nosso sangue. A nossa morte fará com que esse direito seja cumprido. Se tivermos que morrer, morreremos. Mas não vamos nos calar frente a esse genocídio”.

No escuro, os sentidos se afloram. Apartada da luz, a visão se apoia na delicadeza dos dedos para saber o que se passa. Durante a ocupação, era possível tatear tudo o que acontecia: o símbolo vivo do que deveria ser e do que era aquela Casa, a necessidade da ira que é justa, a verdadeira escuridão do déspota. A vitória, se houve, foi simbólica. A vitória foi resistir: às sete horas do dia seguinte, os povos saíram felizes, coroados numa manhã conquistada. O que fizeram? O que fazem, todos os dias.

 

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