domingo, dezembro 4, 2022
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“O massacre saiu do Carandiru e passou a ser cotidiano nas periferias e nas favelas”

Casa de Detenção Carandiru, 2 de outubro de 1992.  Desarmados, 111 homens foram mortos. Uma média de 5 disparos sofridos por cada homem em 30 minutos. Desses, 90% baleados na região da cabeça e pescoço, e 80% ainda não haviam sido julgados. Os sobreviventes foram obrigados a carregar os corpos e limpar a cena do crime. Mas, para o desembargador Ivan Sartori, do Tribunal de Justiça de São Paulo, “não houve massacre, houve legítima defesa”, conforme argumentou em decisão do dia 27 de setembro, que anulou o julgamento de 74 policiais militares envolvidos no Massacre do Carandiru.

Por Lu Sudré DO Caros Amigos

“Legítima defesa é o que fazem os movimentos sociais. Legítima defesa é o que fazem as mães que jamais abaixaram a cabeça para o Estado, que aperta o gatilho todos os dias contra seus filhos. Legítima defesa é lutar contra as grades e contra as balas. Não esqueceremos”. Com essa mensagem se iniciou a coletiva de imprensa do “Ato em memória dos 24 anos do Massacre do Carandiru – Tentam nos enterrar, mas somos sementes”, nesta quinta-feira (6), organizado pelas Mães de Maio, Movimento Passe Livre (MPL), Coletivo Desentorpecendo a Razão (DAR), Associação de amigos e familiares de presos (Amparar), Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais (Catso), Pastoral Carcerária, Bloco Feminista da Marcha da Maconha, Fanfarra do Mal e Centro de Mídia Independente (CMI).

Com o objetivo de denunciar as violações aos direitos humanos, no passado e no presente, a mesa foi composta, em sua maioria, por integrantes do movimento Mães de Maio, formado por mulheres que tiveram seus filhos mortos por policiais militares na série de ataques que ocorreram em São Paulo, em maio de 2006, e que segue reunindo mães que perderam seus filhos mortos por agentes do Estado. Emocionadas, as mulheres contaram as histórias dos assassinatos de seus filhos e denunciaram o genocídio de jovens negros da periferia.

Judiciário

Em seus depoimentos, as mães criticaram enfaticamente a atuação do Judiciário e da mídia hegemônica. “A Justiça brasileira tem dois pesos e duas medidas.  Essa Justiça brasileira que é racista, partidária, principalmente a de São Paulo, que é assustadora. Eles têm que tomar vergonha na cara e nos falar quem matou nossos filhos. Os massacres saíram do Carandiru e passaram a ser cotidiano nas periferias e nas favelas”, disse Débora da Silva, fundadora do movimento Mães de Maio, que perdeu seu filho em 2006, na Baixada Santista.

A história de Ana Paula Oliveira, do Rio de Janeiro, é mais uma que entrou para as estatísticas. Moradora da favela de Manguinhos, zona norte da cidade, Ana Paula é mãe de Jonathan de Oliveira Lima, um jovem de 19 anos, assassinado com um tiro nas costas. “Não só o policial que atira é o assassino. Não é só ele que tem as mãos sujas com o sangue dos nossos filhos, mas todo esse sistema podre, o Judiciário. Essa mídia que costuma criminalizar as vítimas faveladas e periféricas. Eles são culpados. Nossos filhos são assassinados e não temos nem direito ao luto. Meu filho foi assassinado em um dia, no outro, aguardando pra ir ao enterro, vi na mídia: ‘Jovem assassinado em Manguinhos. Polícia alega que houve troca de tiros’. Aquilo foi como se tivessem matando meu filho mais uma vez. Eu falei: Não vou deixar isso assim. Eu vou ser a voz do Jonathan. Tenho consciência que não sou só a voz dele, mas de milhares de jovens que são assassinados todos os dias”, contou Ana Paula.

As chances de um jovem negro morrer assassinado são 147% maiores do que as de um jovem não negro, segundo o Atlas da Violência publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em março deste ano. O documento aponta que, na última década, a taxa de homicídios entre a população negra aumentou 18,2%, ao mesmo tempo em que houve uma diminuição de 14,6% no assassinato de indivíduos não negros.

Os números evidenciam o racismo institucional. Um estudo feito pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), coordenado pela socióloga Jacqueline Sinhoretto, mostra que entre 2010 e 2011, 61% das vítimas de mortes cometidas por policiais eram negras, 97% homens e 77% com idade entre 15 e 29 anos. Os policiais envolvidos são, em sua maioria, brancos (79%), sendo 96% da Polícia Militar.

“Todo mundo se preocupa com terrorismo e nós temos terroristas. Nossos terroristas não atacam universidades, não atacam baladas, os barzinhos da Vila Madalena ou Jardins. Eles atacam a periferia, onde tem os bailes funks e as favelas. Atacam os negros e não só eles. Basta ter bombeta, moletom e chinelo. É a marca da morte. Nossos terroristas estão fardados, vestidos de cinza”, afirmou Zilda Maria de Paula, mãe de Fernando Luiz de Paula, negro e filho único, morto na Chacina de Osasco em agosto de 2015, na grande São Paulo, quando 23 pessoas foram executadas pela PM.

Ação judicial

Na última segunda-feira (3), Fernanda Vicentina da Silva, filha de Antonio Quirino da Silva, uma das vítimas do Massacre do Carandiru, entrou com processo de indenização no governo de São Paulo. “Basta que a morte tenha ocorrido no estabelecimento para que ela seja responsabilidade do Estado”, disse Carlos Alexandre Klomfahs, advogado de Fernanda, que compareceu à entrevista coletiva e prestou solidariedade às Mães de Maio, além de apresentar imagens que apontavam que o pai de Fernanda foi morto com cinco tiros, um deles na nuca.

“Entramos com uma ação contra a decisão do desembargador de falar que não houve massacre. Ali, ele feriu o direito à memória das vítimas. Entramos com uma ação pedindo danos morais e duas obrigações: que o Estado reconheça a morte das 111 vítimas e peça desculpa às famílias”, relatou Klomfahs.

Perseguição aos secundaristas

Rosana Cunha e Tereza Rocha, mães de secundaristas e integrantes do Comitê de Mães e Pais em Luta, também fizeram parte da mesa e denunciaram a truculência policial na repressão de atos. Rosana é mãe de um dos secundaristas detidos recentemente no Centro Cultural de São Paulo (CCSP) com um grupo que iria para o ato pela democracia. Posteriormente, tornou-se público que entre os detidos estava infiltrado o oficial de inteligência do Exército Willian Pina Botelho, que utilizou um perfil falso em redes sociais para entrar em contato com militantes anti-Temer.

Tereza Rocha, mãe de um estudante da Escola Estadual Fernão Dias, denunciou que a PM de SP tem um álbum com 24 fotos dos secundaristas que estão sendo perseguidos. Ela citou que um deles foi barbaramente torturado e que as estudantes sofrem assédio por parte da PM, que conhece todos os alunos pelos seus apelidos. Segundo ela, foi necessário mudar de endereço para proteger seu filho, mas a perseguição continua.

“É terrorismo psicológico. Pessoas te monitorando o tempo todo, o telefone é grampeado. Você sai na rua e encontra uma viatura. É difícil, estamos temendo pela vida desses meninos”, afirmou Tereza. “Na ocupação do Centro Paula Souza, a PM fez uma busca pelo meu filho. Se eu não estivesse com ele, não sei se ele estaria vivo.”

Na coletiva também foi anunciado o pré-lançamento do livro Mães em Luta – 10 anos dos Crimes de Maio de 2006, produzido pelo movimento Mães de Maio e pela Ponte Jornalismo, com organização do jornalista André Camarante, que conta a história de 15 mães que perderam os filhos no episódio. Após a coletiva, o ato se concentrou na Praça Tiradentes e foi até o Tribunal de Justiça, na região da Sé, centro de São Paulo.

Veja fotos e trecho do ato.
(Imagens: Lu Sudré)

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