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O papel da mulher, preconceito racial e a arte como forma de agressão – Por Carol Patrocínio

Faz pouco tempo que o papel da mulher na sociedade começou a se transformar. Até então – e ainda hoje – a mulher deveria servir o homem. Servir seus desejos sexuais, suas demandas na vida prática, lavar, passar, cozinhar e cuidar dos filhos. Muitos homens – principalmente aqui nos comentários – ainda acreditam nesse tipo de papel.

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Se a mulher é vista como um ser submisso por natureza, imagine só o que se pensa da mulher negra, que é ainda mais oprimida, tem menos oportunidades na vida e mesmo frente à oportunidades equivalentes às da mulher branca, ainda não consegue o mesmo resultado final por causa do preconceito que nossa sociedade faz de conta não existir.

Mas por que falar sobre esse assunto em uma coluna sobre sexo? Porque essa realidade se traduz em todos os âmbitos. Nossa vida sexual é diretamente relacionada com nossas ideias culturais e o que aprendemos em sociedade. Se a mulher é vista como objeto, como uma classe inferior de pessoa, ela passa a se sentir assim e não consegue ter uma vida sexual satisfatória. Com a mulher negra a situação piora ainda mais.

Na última segunda-feira (20), foi comemorado o Dia de Martin Luther King Jr., um feriado nacional nos Estados Unidos que é lembrado em todo o mundo. Homenagear um dos grandes militantes pela igualdade racial é de extrema importância, mas nem todo mundo entende o que é homenagem e como lutar contra a desigualdade.

Na terça-feira (21), a editora de uma revista sobre comportamento, divulgou uma foto em que ela está sentada em uma cadeira no formato de uma mulher negra. Uma mulher branca sentada sobre uma mulher negra. É isso que vemos diariamente na vida, pessoas oprimidas oprimindo outras, buscando quem oprimir. E isso não parece uma tentativa de mudar as coisas, parece?

Pois a editora e socialite Dasha Zhukova e o autor da obra, o escultor Allen Jones – que tem uma série em que mulheres são retratadas dessa maneira -, acreditam que essa é uma obra que questiona o papel da mulher na sociedade. Neste caso, da mulher negra. Segundo eles, a obra questiona políticas de gêneros, sexismo e o papel da mulher. Você vê isso ao olhar para a foto acima?

Colocar a figura feminina em um papel ridicularizado não ajuda a emponderar mulher. Se você quer mulheres fortes e seguras, você as retrata dessa maneira e não de forma submissa e servil. Lutar pela igualdade é ótimo, porém precisamos entender maneiras de lutar sem ofender o outro, sem coloca-lo para baixo e fortalecer o imaginário popular criado a base de preconceitos.

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Todas as obras de Allen Jones retratam mulheres servis. Uma socialite russa, que vive em um lugar em que o preconceito racial é extremamente forte, não pode sentar, mesmo que metaforicamente, sobre uma mulher negra e acreditar que isso será visto como militância em prol da igualdade racial. Nós não podemos tratar mulheres como objetos sexuais e fazer de conta que estamos lutando por liberdade. Aproveitar-se da luta para tirar vantagens próprias é tão ruim quanto estar do contra ela – e, sim, muitos homens se fazem de feministas para parecer mais interessantes às mulheres.

A editora pediu desculpas, disse que não pretendia ofender ninguém. Até quando mulheres negras terão sua vida dificultada, sua imagem estereotipada no imaginário popular e suas experiências influenciadas por isso e aceitarão simples desculpas? Isso não muda a realidade. Questionar uma obra assim muda.

Em 1933, o autor Gilberto Freyre escreveu no livro Casa Grande e Senzala: “Branca para casar, mulata para f…., negra para trabalhar”. Até quando vamos deixar esse tipo de pensamento dominar nossas relações?

Fonte: Yahoo

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