O que casa grande nos oferece?

Atualmente escutamos discursos que exaltam a restauração e acordos de paz, a criação de espaços de diálogo horizontais e equânimes. Sabemos que essas narrativas emergiram em contextos e momentos históricos distintos, há registros literários como observado em Casa grande & senzala – Gilberto Freyre (1933) em que destaca a subserviência negra, a passividade e o laconismo como ingredientes necessários para a consolidação de laços miscigenados, benéficos à construção social. A falaciosa democracia racial destacada desde antes do século XIX camufla a truculência existente nas relações interraciais e a partir disso, afere as críticas recebidas, reinvindicações elaboradas e questionamentos do povo negro como situações desonestas, injustas e até mesmo desleais a mão que o alimenta. A indignação da brancura parte de prospectos que rechaçam o constrangimento institucional e prima o silêncio, o não dito, além de consolidar a estrutura do racismo cunhado historicamente.  

Para mulheres negras estar em espaços majoritariamente brancos exige esforços inenarráveis para resistir a ataques violentos e constantes gatilhos de alerta ativados a partir de ações repetitivas herdadas geração pós geração da brancura. A constante alusão aos abusos sexuais sofridos pelas nossas ancestrais dentro da casa grande, torturas físicas e psicológicas cometido pelos caucasianos escravocratas, traziam como incremento agravador as constantes ameaças, seja a própria vida ou adjunta à retaliação severas dos seus. Desde sempre descendentes negras revivem ações oriundas dessa lógica: o descredito histórico combinado com o narcisismo da branquitude Cida Bento (2014), branquitude essa, que ainda determina espaços e trajetórias negras a partir da negação de seus valores étnico raciais, afroreligiosos e mais que isso nulidade da sua própria negritude. A passibilidade que se impera está combinada pelas características fenotípicas (tom de pele, textura capilar, traços negroides e estrutura corporal) e pela afinidade com a hegemonia da brancura (tom de voz, vestimentas, religião e coadunação), estas práticas se reificaram com o passar do tempo, e hoje entendemos que as negras intituladas como raivosas, histéricas, mal amadas, mal agradecidas, mal educadas, desrespeitosas, injustas e até mesmo racistas ao contrário são aquelas que em algum momento denunciaram, apontaram e não admitiram as agruras e opressões aferidas a elas ou em seu entorno.

Costumeiramente ações como essas, de repúdio e revolta branca tem como base a certeza absoluta do valor de sua palavra, a lágrima branca vale milhões (condena e absolve qualquer um) e o coitadismo/vitimismo da branquitude vale ouro, ainda mais quando o opositor é negro, rapidamente a brancura coloca em dúvida a palavra e a credibilidade negra. Ainda assim, sem qualquer cerimônia a branquitude se utiliza de seus privilégios históricos cunhado pelo racismo estrutural para espernear quando algo não acontece como quer, julga a partir do seu juízo moral, utiliza do seu senso comum e suas subjetividades para humilhar e pronunciar tudo o que sente à vontade para fazer, pois é livre para gozar, delegar e exigir que os negros cumpram os brancos caprichos, pois tem a seu favor o Pacto da Branquitude. Com o intuito de obter um certo favorecimento da brancura alguns negros incorporam seus costumes e trejeitos, defendem seus ideais e os idolatram de fato. Essas condutas reverberam na comunidade negra como um todo e acarreta diversos problemas (ausência de identidade e supressão de referências negras, acirra polaridades, gera equívocos quanto ao pertencimento e ancestralidade negra) pois qualquer deslize ou divergência pode causar um descarte sem precedentes gerando assim, um não lugar (descarte dos brancos e rompimento com os negros). O utilitarismo da figura negra instrumentalizada pela branquitude está relacionado ao processo de obsolescência programada, ou seja, para a brancura o negro serve enquanto for útil, tem validade garantida enquanto a brancura o utiliza para mostrar que são inclusivos e até reafirmarem a postura antirracista de fachada. 

O acordo de paz com base diaspórica consiste em ações profundas que repensem o processo de reinvindicação negra na história e o reconhecimento sobre a sua contribuição para a construção social, consiste em questionar a brancura quanto a sua disposição em abrir mão dos seus privilégios ou apenas oferecer migalhas para que os outros possam experimentar os grãos deixado à mesa. Esperamos que um dia a nossa reparação seja feita com maestria, que nossos bens roubados pela brancura, retorne ao nosso reinado e que o senso de nação e dignidade revolucionária um dia de fato exista, por enquanto, utilizamos nossos meios para escreveviver. Conceição Evaristo (2017).


Jacqueline Jaceguai Chagas Nunes dos Santos – Cientista periférica preta, mãe solo, docente. Duplo Doutorado em Mudança Social e Participação Política – Escola de Artes Ciências e Humanidades – Universidade de São Paulo e Ciencias Sociales e Ciências Naturales – PUJ. Docente IPN – UPN, IBRACO, Assessora internacional FENASAMBA.

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