O que esperas de mim?

Porque uma Mulher Negra, periférica de luta e na luta tem que ser questionada a todo momento com um bombardeio de perguntas duvidosas: Você criou esse texto? Você copiou? De onde tirou essa ideia? Você se apropriou de algo alheio? Nossa que lindo, você que produziu? Como conseguiu?

Como todo mito, mulheres Negras figuram um desenhar de subjetividade ligado apenas a domésticas, dançarinas, serventes, faxineiras, babás, prostitutas, mulatas, vendedoras, não desqualificando nenhuma dessas magnificas identidades, mas repensando como se dá o transpor desses imaginários. 

Querer ser/viver a função de poetisa, escritora e pesquisadoras nos mostrar que romper essa lógica dói/machuca/silencia. Uma violência simbólica, contida na estrutura da sociedade ou apenas mimimi, vitimismo? 

Sim, nossa escrita é contaminada por diversas narrativas que se esparramam e se misturam na trajetória de nossas vidas, nossas/suas escrevivências. Seria isso plágio? 

Queria conseguir compor em versos, o que esperam de mulheres Negras, pesquisadoras, trabalhadoras, mães, esposa, periféricas, quilombolas, ribeirinhas, e tantas outras…mas nossa escrevivência é muito mais profunda, doída, silenciada, vivida, sentida e gritada.

Quando Conceição Evaristo diz “não nasci rodeada de palavras”, nos convida justamente a pensarmos sobre esse mito questionador que aflige a tantas de nós. E assim, ela nos convoca a continuarmos na luta para não escondermos nossas palavras/ ideias/sentimentos atrás de lágrimas salgadas que insistem em rolar em nossos rostos marcados por tantas indagações/dúvidas/silenciamentos e suposições.

Finalizo, com Conceição quando diz “espera-se que a mulher negra seja capaz de desempenhar determinações e funções, como cozinhar bem, dançar, cantar, mas não escrever…” Não esperam de nós a intelectualidade, parafraseando com Lélia Gonzales querem apenas a “preta de casa”!

Permaneçamos em uma atitude sem recuo!

                        Aline Botelho 

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

+ sobre o tema

O caso da escritora que espionou Emanoel Araújo

A primeira vez que vi Emanoel Araújo, ver de...

André Novais: O Cineasta Filho de Dona Zezé, Uma Grande Atriz

Contagem, abril de 1968. Palco da primeira grande greve...

Léo Lins, Fabio Porchat e o antirracismo de conveniência.

A repercussão de setores da grande mídia acerca da...

Quem tem direito de sentir raiva?

A raiva, enquanto afeto humano, legítimo e saudável, é...

para lembrar

Exposição explora o papel do cabelo na identidade da mulher negra

Mostra “Raízes”, da estudante Sophia Costa, tem o objetivo...

‘Se não eliminarmos o machismo, não iremos eliminar as outras discriminações’

A advogada, professora e intelectual feminista Alda Facio, da...

Com campanha sexista, linha “Homens que Amamos” da Risqué gera polêmica

Com uma campanha recheada de machismo e sexismo, a...

‘Bacurau’ escancara o Brasil da brutalidade

No tiroteio sem fim, ninguém pode dizer que venceu Por...

Negra Li mostra fantasia deslumbrante para desfile da Vai-Vai em SP: ‘Muita emoção’

A escola de samba Vai-Vai está de volta ao Grupo Especial para o Carnaval 2024, no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, neste sábado...

Livro põe mulheres no século 20 de frente com questões do século 21

Vilma Piedade não gosta de ser chamada de ativista. Professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e uma das organizadoras do livro "Nós…...

“O Itamaraty me deu uma bofetada”, diz embaixadora Isabel Heyvaert

Com 47 anos dedicados à carreira diplomática, a embaixadora Isabel Cristina de Azevedo Heyvaert não esconde a frustração. Ministra de segunda classe, ela se...
-+=