Pesquisa contesta mito de Chica da Silva

O alegado apetite sexual, a promiscuidade e as crueldades que sempre pontuaram as histórias contadas sobre Chica da Silva, a ex-escrava que freqüentou a fechada elite mineira do século XVIII, podem não passar de mitos. É o que sugere a professora Júnia Furtado, do departamento de História da Fafich, autora de estudo que mostra que a ex-escrava não era a mulher devassa retratada no filme Xica da Silva, de Cacá Diegues, lançado na década de 70, ou na novela homônima da Rede Manchete, exibida no ano passado.

“Através dos documentos pesquisados e do comportamento de toda a sua vida foi possível montar um colcha de retalhos que contradiz completamente a personalidade da Chica conhecida por todos nós”, relata Júnia. Segundo a professora, a própria estabilidade do casamento com um nobre branco, o fato de Chica freqüentar a elite e todas as irmandades brancas do Tijuco e de ter sido enterrada no cemitério da Igreja de São Francisco de Assis (destinado aos brancos ricos) são provas suficientes de que ela era uma mulher que se portava de acordo com os padrões morais e sociais da época. “Caso contrário, seria impossível que Chica tivesse esses privilégios”, reforça a pesquisadora.

Cena falsa

A mulher que inspirou as atrizes Zezé Mota, no filme, e Taís Araújo, na novela, conseguiu, como tantas outras, sua carta de alforria através do concubinato com um nobre branco, o contratador João Fernandes, que a comprou de um médico do Tijuco, em 1753. O relacionamento durou 16 anos, período em que Chica teve 13 filhos. “Essa era praticamente a única forma de uma negra entrar na sociedade branca naquela época”, afirma Júnia Furtado, ao citar uma cena na produção de Cacá Diegues que nunca ocorreu. “O início do filme mostra Chica sendo oferecida ao conde de Valadares. Na época, Chica já era mãe de 14 filhos (ela já tivera um do seu antigo dono) e vivia com o contratador”, revela.

Depois da separação, Fernandes voltou para Portugal levando consigo seus quatro filhos homens, que receberam títulos de nobreza do Império Português. No Brasil, Chica recebeu propriedades deixadas pelo contratador que lhe garantiram a sobrevivência e a educação das filhas.

De acordo com Júnia, a ex-escrava tornou-se conhecida por sua crueldade e pelo grande apetite sexual graças ao livro Memórias do Distrito Diamantina, do século XIX, escrito por Joaquim Felício dos Santos. “A publicação faz de Chica a única negra a figurar em um registro histórico e o autor encontra no sexo e na perversidade os pretextos para uma escrava merecer tal destaque”, diz.

Júnia chegou à desmitificação de Chica após estudar o seu comportamento em diversos documentos da época – registros de batismo, carta de alforria, títulos nobiliárquicos dados aos filhos e outros aspectos de sua vida no século XVIII. Além de Diamantina, a professora também pesquisou a vida da ex-escrava em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Macaúbas (perto de Santa Luzia), Mariana e em Portugal. A pesquisa ainda não terminou mas, segundo Júnia, o que foi apurado até agora é suficiente para reconstruir a personagem histórica. A expectativa é de que o trabalho seja concluído até meados de 1999.

A professora estuda a vida de Chica há um ano para o projeto Pólo de Integração da UFMG no Vale do Jequitinhonha. Financiado pela Finep e Fapemig, o trabalho foi premiado pelo concurso 8º Dotação em Pesquisa sobre Mulher e Relações de Gênero, promovido pelas fundações Ford e Carlos Chagas.

 

 

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