quarta-feira, outubro 27, 2021
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Por que a ciência precisa de diversidade?

Se a diversidade étnico-racial vem ganhando espaço na agenda de muitos setores da sociedade –nos negócios, na representação política, nas artes, no jornalismo–, nas ciências em geral ela ainda é tímida. Essa lacuna é marcante principalmente em relação ao desafio de reduzir a sub-representação no universo de professores universitários, no financiamento de pesquisas científicas e entre os destinatários das bolsistas de pesquisas.

As pessoas negras (pretos e pardos) representam 56% da população brasileira, mas foi somente em 2019 que pela primeira vez os estudantes negros passaram a ser maioria nas universidades públicas. Segundo o censo da educação superior, porém, apenas 16% do universo de docentes se declarou negro.

Essas disparidades estampam as consequências do racismo e de uma sociedade historicamente desigual. Tais anomalias têm origem no passado, e temos falhado em corrigi-las no presente. Em pleno século XXI é inadmissível fechar os olhos para a ausência de pessoas negras nos diversos setores de nossa sociedade. É nesse contexto que a Coalizão Negra por Direitos –que reúne 150 organizações e coletivos do movimento negro– reafirma que “enquanto houver racismo não haverá democracia“. Não alcançaremos um desenvolvimento robusto e sustentável com mais da metade da população ainda lutando para exercer sua plena cidadania.

A diversidade não é só uma questão de justiça social: os benefícios que ela traz ao ambiente dos negócios e da ciência já foram demonstrados em algumas pesquisas. O trabalho “The Diversity–Innovation Paradox in Science“, de 2020, por exemplo, promovido ao longo de três décadas pela Universidade de Stanford, na Califórnia, analisou dados de quase todos os doutorandos dos Estados Unidos, de todas as áreas do conhecimento, e comprovou que estudantes de grupos sub-representados são significativamente mais criativos que os demais.

A consultoria McKinsey, por sua vez, explorou o ambiente coorporativo na pesquisa “Delivering Through Diversity“, de 2018, mas as conclusões a que chegou são igualmente relevantes para outros segmentos, reafirmando a conexão positiva entre a diversidade no local de trabalho e o desempenho financeiro das empresas.

Por fim, um editorial da revista “Nature”, de 6 de junho de 2018, com o título “Science benefits from diversity“, já afirmava que fomentar a participação de grupos sub-representados não é apenas mais justo, como pode produzir pesquisas melhores. O editorial sublinha que uma ciência sem diversidade é um problema de todos, e que “grupos de laboratórios, departamentos, universidades e financiadores nacionais devem encorajar a participação na ciência do maior número possível de setores da população. É a coisa certa a fazer –tanto moralmente quanto para ajudar a construir um futuro sustentável para a pesquisa que verdadeiramente represente a sociedade”.

Esses são alguns dos muitos estudos que evidenciam que não há como negar o sucesso do desempenho de grupos não homogêneos, na ciência bem como nas demais atividades. E todos nós, individual e coletivamente, podemos adotar atitudes ou estimular medidas para romper com a sub-representação de pessoas negras. Entre alguns procedimentos a serem postos em prática, podemos mencionar: levantamento de dados sobre o perfil étnico-racial e de gênero nas áreas das ciências; ampliação do acesso desses grupos à pesquisa e ao ensino; garantia e desenvolvimento de linhas de apoio e financiamento a suas pesquisas; aplicação de recursos em treinamentos, mentorias e colaborações.

A diversidade não se encerra com a inclusão de diferentes em determinado grupo ou ambiente, assim como não está restrita a características étnico-raciais. No entanto, num país como Brasil, composto em sua maioria de mulheres e pessoas negras, promover a inclusão de tais grupos é condição indispensável para seu desenvolvimento sustentável. Se é fundamental para a ciência, é fundamental para a sociedade.

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Este artigo é o primeiro de uma série de três textos do blog Ciência Fundamental em homenagem ao mês da consciência negra.

Michel Chagas é gestor de Ciência no Instituto Serrapilheira

 

Por Michel Chagas, na Folha de S.Paulo
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