Por que as atrizes estão sacudindo o tapete vermelho do Oscar

Em meio à temporada de premiações de Hollywood e aos preparativos para o Oscar 2015, neste domingo, atrizes famosas têm levantado a voz contra o que classificam como demonstrações de machismo.

No DCM

Nomes como Cate Blanchett, Julianne Moore e Emma Stone têm se recusado a apenas exibir seu “visual” e alegam que, enquanto seus colegas homens recebem perguntas relacionadas a carreiras e papéis nos filmes, para elas sobram questões sobre vestidos, penteados e dietas.

E uma campanha com o slogan #AskHerMore (“pergunte mais a ela”) foi encampada pela comediante Amy Poehler, apresentadora da última edição do Globo de Ouro e estrela do seriado Parks and Recreation. A campanha foi usada em premiações recentes pelo site The Daily Share para estimular perguntas mais inteligentes vindas dos espectadores.

O resultado foram questões como “qual era seu plano B se fracassasse como atriz?”, “qual o melhor conselho que você recebeu?”, “que papel feminino você sonha em interpretar?”, com respostas bem mais interessantes.

 

O grupo Representation Project, responsável pelo #AskHerMore, pede que a hashtag seja usada pelo público para pressionar os entrevistadores do Oscar, alegando que “muitas vezes os repórteres focam mais na aparência feminina do que em suas conquistas”.

‘Você faz isso com os homens?’

Um dos momentos mais emblemáticos dessas críticas ocorreu na temporada de premiações do ano passado, quando Cate Blanchett (vencedora do Oscar de melhor atriz em 2014) interrompeu uma entrevista no tapete vermelho no momento em que um cinegrafista a filmava seu corpo para mostrar seu vestido. “Você faz a mesma coisa com os homens?”, perguntou ela ao cinegrafista, ao vivo.

Este ano, na premiação do SAG (Screen Actors Guild Awards), diversas atrizes se recusaram a mostrar as mãos para a chamada chamada “mani-cam” – uma pequena câmera da emissora E! que servia para as atrizes exibirem suas unhas feitas e os dedos adornados com anéis de diamantes.

Emma Stone e Jennifer Garner também já se queixaram de serem questionadas sobre suas rotinas de beleza ou o típico “como você concilia trabalho e família?”, perguntas que nunca aparecem nas entrevistas com seus respectivos namorados e maridos famosos.

 

“Absolutamente todas as pessoas que me entrevistaram me perguntaram isso”, criticou Garner em um evento em outubro passado. “Ninguém nunca perguntou (ao marido dela, o ator e diretor Ben Affleck) sobre equilíbrio entre trabalho e família. E nós compartilhamos a mesma família. Será que não é hora de mudar essa conversa?”

Numa tentativa de mostrar a banalidade de algumas perguntas feitas a mulheres famosas, o site Buzzfeed UK as fez a atores durante a premiação do Bafta, no início de fevereiro. Astros como Eddie Redmayne (indicado ao Oscar por A Teoria de Tudo) e Michael Keaton (Birdman) ficaram desconcertados ao ouvirem “o que você está vestindo?” ou “você pode dar uma voltinha?”.

‘Oscar do descontentamento’

Apesar das reações femininas às perguntas banais, alguns analistas aponta que muitas atrizes costumam se beneficiar dos elogios nas temporadas de premiações, já que isso geralmente se traduz em mais contratos publicitários com produtos de beleza ou grifes de moda. É o que resssaltou, em entrevista ao jornal New York Times, Bronwyn Cosgrave, autora do livro Made for Each Other: Fashion and the Academy Awards (Feitas uma para a outra: a moda e a Academia”, em tradução livre).

Por outro lado, o sexismo em Hollywood tende a refletir a objetificação das mulheres e seu julgamento apenas pela aparência em outras esferas da sociedade.

Além disso, muitas mulheres têm aproveitado o momento para pedir mais representatividade feminina em papéis de destaque e mais reconhecimento nas cerimônias de premiação.

A colunista Melissa Silverstein, da revista Forbes, já chama a edição deste ano da premiação de “Oscar do descontentamento” por conta das críticas que as indicações receberam desde que foram anunciadas em 15 de janeiro.

“Está difícil ficar animada com o Oscar porque não me sinto representada. Escrevo sobre as mulheres no mercado cinematográfico há mais de sete anos e, mesmo que já estejamos falando sobre o número de mulheres diretoras e de mulheres diante das câmeras, essa temporada de prêmios me lembra o ainda quanto falta para chegarmos lá”, disse.

 

Esta é a primeira vez desde 2006 que a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas – cujos votantes são em sua maioria (77%) homens – não indica mulheres a nenhum dos grandes prêmios além da categoria de melhor atriz.

Apenas uma das cinco atrizes indicadas neste ano está em um filme também indicado como melhor filme – Felicity Jones, que interpreta a primeira esposa de Stephen Hawking no filme A Teoria de Tudo.

Todos os outros filmes cujas atrizes foram indicadas ao principal prêmio contam histórias exclusivamente de mulheres e receberam elogios da crítica, mas foram deixados de fora da premiação. É o menor índice desde 2003.

Representatividade

A diminuição da representatividade das mulheres entre os filmes indicados chama mais atenção ao considerar que o sucesso midiático da premiação depende cada vez mais de suas espectadoras. Segundo a empresa de pesquisa Nielsen, cerca de 61% da audiência televisiva do Oscar 2014, a edição mais vista desde 2000, foi de mulheres.

“Nosso dinheiro é tão verde quanto (o dos homens) e nós compramos metade dos ingressos (para os filmes). Mas nossas histórias ainda são irrelevantes nos maiores prêmios”, afirma Melissa Silverstein.

O argumento de Silverstein, ecoado por outros comentaristas americanos, tanto homens quanto mulheres, cita exemplos como Livre, filme baseado na biografia de Cheryl Strayed, que fez uma caminhada de mais de 1.600 km pelos Estados Unidos. O filme recebeu críticas favoráveis e o chamado “oscar buzz” (expectativa de muitas indicações ao Oscar), mas foi indicado em apenas duas categorias – melhor atriz e melhor atriz coadjuvante.

Da mesma forma, Selma, filme sobre a caminhada intermunicipal pelos direitos civis dos negros liderada por Martin Luther King Jr., em 1965, recebeu duas indicações, entre elas a de melhor filme, mas deixou de fora sua diretora, Ava DuVernay.

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