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Por que compreender a interseccionalidade?
Créditos da foto Reprodução/ThinkStock

Por que compreender a interseccionalidade?

Aqui está a afirmação inicial: nós não somos iguais. Embora seja um discurso tantas vezes repetido e que possivelmente insistiram pra que você reproduzisse com o intuito de se sentir justa/o, não somos.

Por Luádia Mabel enviado para o Portal Geledés

Reprodução/ThinkStock

Não temos as mesmas origens, as mesmas vivências ou a mesma classe social. Nem os mesmos destinos. Se você for homem não temos a mesma experiência com práticas machistas e se for uma pessoa branca não sentimos o racismo de forma igual. É passada a hora de compreender: nem de longe somos iguais.

É da disparidade que partimos para compreender o que é um movimento interseccional, já que diferenças consideráveis se mostram entre discursos generalizados e o que realmente buscamos e precisamos com urgência: a igualdade de direitos.

Aos poucos vamos percebendo que esse alinhamento de direitos está justamente pautado na diversidade de vivências. Se não somos todos iguais, precisamos de algo que nos equipare aos que possuem seus privilégios. Precisamos de olhares, políticas e discursos que foquem questões diferentes e cada um/a compreender ao que foi sujeita/o e ao que não deve ceder, ao que é estrutural e o que não se admite até que, em algum momento, todas/os possamos compreender o que buscamos em comum.

Interseccionalidade faz parte do caminho para reconhecer nossos próprios privilégios e posições, interpretar a coletividade de forma mais justa e, principalmente, transformar esse reconhecimento em combustível de mudança política.

A frase “Precisamos ergue-nos enquanto subimos”, dita em um discurso realmente importante feito no ano de 1987 pode ajudar o nosso despertar enquanto militantes para a importância de puxarmos e sermos levados pra frente. Quem abre o caminho por obrigação deve chamar quem está faltando pra ocupar o espaço. Isso é, antes de tudo, compreender que não estamos sozinhas/os e por consequência configura-se um ato estratégico.

Perguntemo-nos: Qual o meu papel? O que estou fazendo? Quais são os meus objetivos e como estou caminhando para alcançá-los?

Estejamos atentas/os aos motivos de ainda não haverem coletivos pautados nesse questionamentos, e sejamos sempre tão críticas/os o quanto pudermos. O que falta para que sejamos interseccionais?

Às vezes nos falta uma compreensão política mais incisiva ou uma revisão de nossos próprios privilégios e prioridades já que a militância exige constantes crises existenciais. Portanto, voltemos a nos questionar os motivos de estarmos envolvidas/os nas lutas em que nos propomos. Voltemos a refletir sobre os motivos de termos começado, e continuemos nos perguntando os motivos de ainda insistirmos em avançar.

Quem não analisa os próprios caminhos corre o risco de ficar em posição alienada. Ser militante não vem em combo com a compreensão totalitária do local em que estamos inseridos/as. O título por si só não garante o nosso preparo ou capacidade de análise, já que essas coisas só se conquistam verdadeiramente com estudo, diálogo e formações constantes.

Pode levar um tempo até entender que necessitamos, sim, de medidas diferentes para opressões diferentes. Esse tempo deve ser o suficiente para junto a isso reconhecermos uma gama de questões, e admitirmos que ainda há muito que não sabemos e por isso não levamos em conta. Precisamos, entre muitas coisas, admitir que a sobrecarga da mulher negra é um problema real, que jovens negros morrem ao menos 3 vezes mais do que brancos e que há pessoas que detém maior parte das riquezas enquanto outras sobrevivem com as sobras de todo mundo.

O nosso desafio é encontrar um meio-termo entre as identidades já um tanto deterioradas que encontramos no cotidiano. Cercados por uma burguesia que corre para uma identificação fora do que é brasileiro e um povo com construções subjetivas e em coletivo um tanto quanto comprometidas precisamos repetidamente nos questionar: considerando o lugar de onde parto, o que me falta para solidificar uma identidade revolucionária?

É principalmente nesse ponto em que está alocada a importância de construirmos movimentos interseccionais, já que o intuito é (e deve ser) reconstruir bases sociais e políticas na busca por uma nova e mais igualitária construção sistemática de regras, posicionamentos e prioridades.

Ser interseccional é admitir as nossas posições privilegiadas e deixar que as outras pessoas falem sobre o lugar delas. É ouvir companheiros e companheiras sem a busca inútil por cargos e visibilidade, mas com o foco certeiro no crescimento coletivo. Tornamos a humildade uma qualidade clichê e talvez tenhamos deixado passar a sua importância. Portanto, eu gostaria de reforçar: sejamos militantes humildes e, principalmente, passemos a evitar a disputa egóica por títulos e microfone.

Ser interseccional é deixar que o/a outro/a grite quando precisar, e calar quando for necessário. É admitir o que está errado e permitir que se derrube a mesa mesmo que um pedacinho dela também nos pertença.

Fitemos o horizonte, camaradas! O futuro revolucionário é diverso, colorido e interseccional. E mais: bem maior do que as nossas redomas e dificuldades em largar protagonismos e posições de imunidade.

Já podemos permitir e provocar as crises existenciais dos movimentos que construímos. Podemos derrubar os muros que faltam e deixar expresso em todas as letras: o que não nos contempla, não passará.

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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