Porta-voz das Diretas Já! recebe a Comenda Zumbi dos Palmares

Por: Arísia Barros

O pai era catador de café. Ele, o filho, recicla a palavra e ressignifica o ser negro.

É militante do movimento negro há mais de 50 anos e com 76 anos de historicidade afro brasileira. 76 anos de muitos ensaios, diálogos e memórias.

A mãe empregada doméstica legou ao filho o ofício da perseverança. Olhar de olho comprido para o futuro.

O filho, o brasileiro Milton Gonçalves herdeiro direto das aspirações políticas do líder negro Zumbi, constantemente desafiado pela idéia libertária de romper com tendência hegemônica de que os descendentes da rainha Nzinga devem habitar a periferia da geografia brasileira.

Para chegar ao futuro atravessou vários rios de aprendizados: Foi babá, depois aprendiz de sapateiro, aprendiz de alfaiate, gráfico, até que ao cruzar os caminhos da arte foi engolido por ela. Convicto pensou: “Eu posso. Eu também quero fazer isso”. Ganhou um papel na peça infantil chamada: “O Soldado de Chocolate”, escrita por Pernambuco de Oliveira.

Nasceu em Monte Santo, Minas Gerais, em 09 de dezembro de 1933, mas renasce cotidianamente em cada novela, filme, peça teatral em que atua com altivez dos que nasceram para bilhar, literalmente.

Uma composição política do homem negro permeada com da visão da ascensão social.É diretor de cultura do PMDB-Afro.É um ser político. Foi porta-voz das Diretas Já!, ao lado de Osmar Santos.

É religioso e freqüenta o candomblé.Em sua estréia no teatro na peça “O dote” fez o papel de um escravo, pois como homem negro a cor da pele o denunciava. O talento o libertou dos estigmas.

Gianfrancesco Guarnieri ao vê-lo atuar descobriu o ator de mil faces, mil cores, que morava em Milton.

Casado há 33 anos com dona Oda, Milton Gonçalves tem três filhos.

Viajou o mundo todo e traz consigo a arte de transportar muita gente para muitos e outros mundos.

É cidadão convicto de sua participação na construção de uma nação mais justa e igualitária.

Foi operário, e,é negro.

E afirma: “Nós, negros brasileiros, não queremos esmola. Podemos e queremos exercer a nossa cidadania da mesma maneira que as pessoas de outras etnias. Além disso, sou um ativista ferrenho contra a corrupção”.

Segundo o “www.netsaber.com.br/biografias” atuou no “Teatro dos Novos Comediantes”e “Teatro de Arena”. E ingressou também no cinema. Sofreu, na época da Revolução de 64, e só não morreu, “porque Deus não quis”. Chegou a ser metralhado, quando fazia “Grandes Sertões Veredas”. Chegou a TV Globo quando essa era inaugurada. É ele umas das 50 pessoas que está lá, desde o início até hoje. Ganhou bons papéis. Aumentou os horizontes para os interpretes negros. Fez cada vez coisas mais ousadas. Fez: “Véu de Noiva”, “Um Homem que Deve Morrer”, “Selva de Pedra”, “Carga Pesada”, “A Grande Família”, “Baila Comigo”, “Pecado Capital”, “Irmãos Coragem”, “Anjo de Mim”, e muitos outros trabalhos, entre novelas, mini-séries e Casos Especiais. E não fez só papéis de “escravo” e “empregado”. Fez doutores, fez um médium, e coisas de muito gabarito. E também dirigiu. Desde o Arena estava apto para isso. Grandes novelas aconteceram com a sua batuta, entre elas: “Escrava Isaura”, novela que foi ao ar em quase todo mundo. Sempre respeitado e querido, ganhou muitos prêmios. No cinema, porém, é que foi mais premiado. Com o filme “A rainha diaba”, por exemplo, ganhou os quatro principais prêmios que existiam. O prêmio Air-France, inclusive. Fez ao todo, mais de cem filmes, com papéis grandes e pequenos. Participou também de Macunaíma, e contracenou com muitos artistas estrangeiros, como Jacqueline Bisset, Raul Julia e outros.

Considerando toda história de luta e de valorização da população negra, o Projeto Raízes de Áfricas encaminhou ofício em 28 de outubro, requerendo à Assembléia Legislativa do Estado de Alagoas, no mandato do Deputado Judson Cabral, a outorga da Medalha de Honra ao Mérito Zumbi dos Palmares, para o militante do movimento negro, o ator Milton Gonçalves,mediante a Resolução 396 de 09 de novembro de 1995.

A entrega da honraria legislativa acontecerá dia 04 de dezembro do corrente ano, sexta-feira, às 15 horas, na Assembléia Legislativa de Alagoas, localizada na Praça Dom Pedro II, Centro, Maceió-AL

 

Fonte: Cada Minuto

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