Procurando Sugar Man – A integridade de Sixto Rodriguez

Amir Labaki

Afinal deu a lógica no 25o Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA) e o prêmio principal foi atribuído à isolada obra-prima da competição de longas-metragens, “First Cousin Once Removed” (Primo de Segundo Grau) do mestre americano Alain Berliner, sobre o sofrimento com Alzheimer de um de seus mentores na própria família, o poeta e tradutor Edwin Honig (1919-2011). Mas foi outro filme que roubou a cena na cerimônia de premiação, no último final de semana: “Searching for Sugar Man” (Procurando Sugar Man), do estreante sueco Malik Bendjelloul.

“Sugar Man” arrebatou os prêmios de melhor filme pelo público e de melhor documentário musical. Algo similar acontecera em sua estreia mundial em janeiro passado no Sundance Festival, no qual foi também o favorito dos espectadores e levou o Prêmio Especial do Júri.

A consagração definitiva virá com o Oscar em fevereiro que vem? Seu único grande concorrente parece ser “The Central Park Five”, de Ken Burns, Sarah Burns e David McMahon, sobre um erro judiciário na Nova York da conturbada virada dos anos oitenta para os noventa. Mas a balança hoje pende em favor de Bendjelloul, com seu filme tendo até pautado uma edição da tradicional série telejornalística “60 Minutes” no mês passado.

“Sugar Man” é o título de uma canção de Rodriguez, uma espécie de Bob Dylan chicano que gravou em Detroit dois discos no começo dos anos 1970 e sumiu do mapa. Lendas correram sobre sua morte precoce, num suicídio teatralizado ao fim de um show ou por overdose de drogas.

Tudo seria mais um dos tantos mistérios a engordar a mitologia do rock não fosse o fato de Rodriguez ter sido um fenômeno num único país: a África do Sul do apartheid. Seus discos lá venderam 500 mil cópias, foram grosseiramente censurados pelo regime e difundiram inúmeros hinos de protesto como as canções de Chico Buarque para nós durante a ditadura militar.

Em meados dos anos 1990, dois sul-africanos apaixonados pela músicas de Rodriguez decidiram pesquisar a fundo o destino do ídolo. “Procurando Sugar Man” reconstitui a busca obsessiva por eles levada a cabo. Bendjelloul transforma tudo num thriller verdade, que não economiza em surpresas. Não serei eu a revelá-las aqui.

O similar brasileiro mais próximo de “Sugar Man” é “Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei”, o documentário de Micael Langer, Calvito Leal e Cláudio Manoel lançado no É Tudo Verdade em 2009, embora Rodriguez esteja mais para Taiguara do que para o showman de “Nem Vem Que Não Tem”. Ambos partilham a tensão entre o carisma artístico e certo elemento trágico, mas o documentário de Bendjelloul o supera em guinadas dramáticas.

Demorei para descobrir “Sugar Man”, já há quase um ano no circuito dos festivais, incluindo uma passagem sem o devido destaque no último Festival do Rio. Pelo trailer disponivel no You Tube e pelas resenhas que havia lido, eu ficara com um certo pé atrás quanto a um possível tom redentor geral, na linha da busca a todo custo de um “happy end” à americana.

A integridade de Sixto Rodriguez (é este seu nome completo) auxiliou Malik Bendjelloul a escapar da armadilha do apaziguamento. “Procurando Sugar Man” é um filme hipnótico, surpreendente, original, engajado e, ao final de sua montanha-russa, marcadamente triste. Resulta assim um espelho fiel de seu protagonista. Mas como ele mesmo canta num de seus sucessos sul-africanos, Rodriguez francamente não está nem ai.

 

Fonte: É tudo verdade

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