Quem é negro costuma cumprir um protocolo ao colocar o pé na rua. Inclui jamais sair sem um documento; não ir ao supermercado com bolsa grande; carregar a nota fiscal das compras; não correr; não fazer movimentos bruscos; e não confrontar um agente policial.
Se acha que é exagero, provavelmente não é negro. Esses são apenas alguns itens que integram o check-list dos que tentam se proteger minimamente do racismo à brasileira. Ignorar esse rito implica ficar ainda mais vulnerável aos efeitos do aparente “defeito de cor”. Porque para parcela significativa da sociedade brasileira parece que pretos e pardos não têm o direito a se defender ou reivindicar proteção do Estado.
Foi assim com o motoboy Everton da Silva (preto), que acabou indiciado por “desobediência” depois de ser atacado com uma arma branca (canivete) por Sérgio Camargo Kupstaitis (branco) na capital gaúcha. Mesmo sendo a vítima, Everton foi abordado com truculência, jogado contra a parede, algemado e colocado atrás de um camburão pela Brigada Militar —que ironicamente foi ele quem acionou. Enquanto isso, o agressor batia papo com os brigadianos, entrava em casa para se vestir e era gentilmente acomodado no banco do carona da viatura.
Mas, segundo o governador do RS, “não podemos reagir de forma precipitada e de preconceito com a polícia”. E a sindicância da BM concluiu que não houve agressão nem racismo na abordagem. “Nunca podemos permitir que fatos isolados possam manchar a imagem das instituições”, disse o secretário de Segurança Pública do estado.
Nesse cenário, só estando muito descolado da realidade para reclamar da escola de samba Vai-Vai (SP) por retratar como infernal o tratamento dado pela polícia aos negros. Nenhuma alegoria de Carnaval se compara à gravidade do racismo institucional normalizado neste país.
A premissa para resolver um problema é admitir que ele existe. Falta o quê para o Brasil reconhecer o racismo e os racistas?