Quilombo do Rio de Janeiro usou renda de roda de samba para lutar pelo território

Festividade do quilombo do Grotão, em Niterói, completa 20 anos; comunidade já foi reconhecida, mas ainda aguarda título da terra

No fim de uma pequena estrada cercada por mata atlântica, um galpão recebe dezenas de pessoas todos os finais de semana. Ali ocorrem as rodas de samba do quilombo do Grotão, em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro. Em 2023, completam-se 20 anos do dia em que Renato, líder da comunidade, decidiu fazer o evento.

José Renato Gomes da Costa, 57, é neto de Manoel Bonfim e Maria Vicenza, saídos de Sergipe nos anos 1920 para trabalhar na fazenda Engenho do Mato, em Niterói.

Após quase 30 anos como funcionários, eles receberam uma fração de terra, doada pela proprietária. Quando ela morreu, seus descendentes contestaram essa doação.

“Sempre aparecia gente aqui dizendo que tinham comprado nosso sítio”, disse Renatão, como é conhecido na região. Segundo ele, a família não só recebia ameaças de expulsão, como era alvo de racismo. “Havia moradores aqui no bairro que chamavam nosso sítio de morro dos macacos”, contou.

Renato Lisboa, lider do quilombo do Grotão, em Niteroi (Foto: Tércio Teixeira – 29.jul.23/Folhapress)

No sítio de seu avô plantava-se de quase tudo. “Só não tinha arroz”. Além do cultivo para alimentar a família, Bonfim vendia safras para comerciantes de Niterói e de cidades vizinhas. Após sua morte, o sítio passou a ser administrado por Manoel Lisboa, pai de Renato.

Em meados dos anos 1980, a família parou de plantar. Em 1991, foi criado o Parque Estadual da Serra da Tiririca, onde está situado o quilombo. Alguns anos depois, o parque foi transformado em Unidade de Proteção Integral. Com isso, Renato e as 14 famílias do quilombo correram o risco de serem expulsos dali.

A memória das festas promovidas por Bonfim e sua família na região inspirou Renato. Em 2003, ele criou as rodas de samba e a tradicional feijoada, abertas para todos. Com a renda arrecadada com os eventos, a comunidade criou uma associação para lutar pela permanência no território.

Nos últimos 20 anos, a comunidade passou a denominar-se quilombo do Grotão. E, segundo Renato, a universidade teve papel importante nesse processo de autoconhecimento.

“No início, foi uma novidade, porque nós não sabíamos que éramos descendentes de quilombolas”, disse. Ele conta que após diversos estudos feitos por pesquisadores da UFF (Universidade Federal Fluminense) chegou-se a essa conclusão.

Em 2016, o quilombo foi certificado pela Fundação Palmares. O próximo passo é a titulação do território.

Atualmente, são 32 comunidades quilombolas esperando por titulação pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) no Rio de Janeiro.

Segundo Ronaldo Lobão, professor de direito da UFF, um caminho possível seria fazer a titulação em nível municipal. Sancionado em 2014 em Niterói, o Estatuto Municipal de Promoção e Igualdade Racial garante às comunidades quilombolas o reconhecimento da propriedade de seus territórios.

“A ideia é que a gente faça o reconhecimento pelo município da área do quilombo. E que esse processo dê tranquilidade para todos”, disse.

Os eventos promovidos pelo quilombo do Grotão, que um dia foram fundamentais para a organização política da comunidade, hoje empregam cerca de 20 pessoas, entre membros da família e pessoas de fora. Além disso, 45 músicos se revezam nas diversas rodas de samba que acontecem ao longo do mês.

Sônia Braga, irmã de Renato, vende nos eventos peças de artesanato que ela mesma faz. Sua filha, Mariana, canta e toca cavaquinho no Samba da Comunidade, que ocorre no último sábado de cada mês, com entrada gratuita.

“O samba trouxe maior visibilidade para o que a gente faz. Não é só a música. Quando as pessoas chegam aqui, elas entendem o que é o quilombo. Que é um lugar de resistência, de fomento à cultura, que trabalha com pautas importantes como o meio ambiente e a pauta racial. O samba faz com que as pessoas conheçam isso tudo e queiram se aprofundar”, disse Sônia.

Além do Samba da Comunidade, há também outras rodas, como Samba de Fé, Saudação aos Tambores e Mulheres no Quilombo. A programação é sempre divulgada nas redes sociais.

A história do quilombo é contada no livro “Quilombo do Grotão: práticas de habitar o tempo”, lançado no último dia 29 de junho em evento realizado durante uma das rodas de samba.

Escrito pela antropóloga Daniela Velásquez Peláez em colaboração com outros pesquisadores e moradores do quilombo, o livro está disponível gratuitamente no site da editora Uaná.

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