Quilombolas e caiçaras distribuem 15 toneladas de alimentos para comunidades vulneráveis

A Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale) organizou a produção e entrega emergencial de cestas de produtos da pesca caiçara e da roça dos quilombos para ajudar a suprir, durante a pandemia da Covid-19, as necessidades básicas de 716 famílias da região e da capital paulista.

Foram beneficiadas 18 aldeias Guarani, dois quilombos, moradores dos municípios de Eldorado e Iporanga (SP) atendidos por organizações como a Ação Social e a Associação Mulheres Unidas por uma Vida Melhor (Amuvim), e moradores da zona sul da capital paulista atendidos pela ONG Bloco do Beco e coletivos parceiros.

São, ao todo, 26 tipos de alimentos orgânicos que fazem parte do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola, registrado como patrimônio imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O volume total é de 15 toneladas.

Segurança alimentar no Vale do Ribeira

A limitação de renda e acesso à alimentação de diversas comunidades e povos tradicionais da região do Vale do Ribeira e grupos sociais de diversos municípios tornou-se dramática durante a pandemia da Covid-19.

Ao todo, 39 grupos sociais, entre aldeias indígenas, comunidades quilombolas e caiçaras, trabalhadores rurais e urbanos de nove municípios pediram alimentos. E os pedidos de famílias continuam a chegar. A demanda atual mapeada é de cerca de mil cestas de alimentos por mês.

“A gente estava sem poder escoar nossos produtos. Juntos, criamos uma ação solidária. Foi muito bom ajudar quem está precisando nessa pandemia”, afirmou Rosana de Almeida, do Quilombo Nhunguara, coordenadora financeira da Cooperquivale.Fazem parte das cestas produtos da roça quilombola como mandioca, cará, chuchu, abacate, diferentes variedades de banana, laranja, poncã, palmito, mel, farinha de mandioca, rapadura, taiada, entre outros.

Estão também incluídos nas cestas produtos de higiene e cinco tipos de pescados – parati, corvina, tainha, salteira e bagre – de comunidades tradicionais da Ilha do Cardoso e região e beneficiados em peixe seco pela Comunidade Caiçara da Enseada da Baleia.

“Produção entregue, alívio pelo trabalho coletivo cheio de força, união e de saber que nosso peixe agora vai para mesa em receitas caiçaras, trazendo sabores e lembranças”, escreveu
Tatiana Mendonça Cardoso, caiçara da Enseada da Baleia. “O cuidado e o respeito seguem na transformação até chegarem à mesa dos nossos parentes indígenas e quilombolas.”

Alimento e afeto em meio à pandemia

Alimentos prontos para distribuição na sede da Cooperquivale, em Eldorado (SP) | Ivy Wiens-ISA

A entrega de alimentos promovida pela ONG Bloco do Beco chegou a famílias da periferia de São Paulo.

As cestas carregavam mais que um respiro contra o isolamento social e a pandemia da Covid-19. Traziam também memórias afetivas de alimentos que fizeram parte da vida de mulheres na faixa de 40 e 50 anos, chefes de família.

“Teve gente que até chorou e lembrou dos pais e avós ao ver produtos como cará, inhame, palmito e peixe seco. É uma alimentação que preencheu as pessoas de afeto”, relatou Andrea Arruda, psicóloga e professora que faz parte dos coletivos Periferia Segue Sangrando e 8M na Quebrada.

“Fiquei muito emocionada de ver quem eram as pessoas que produziram o alimento e todo o trabalho que foi feito para esse alimento chegar até aqui”, disse Arruda

Uma das cestas chegou em boa hora à casa de Terezinha de Jesus Freitas, 64 anos. Ela mora com outras cinco pessoas no Jardim Amália, região do Capão Redondo, zona sul de São Paulo.

“Para a minha família foi uma bênção. Fui criada nesse mundo de roça, meu pai plantava mandioca, milho, abóbora. É lembrar do tempo que a gente era criança”, contou. “Eu nunca mais comi palmito assim, fresquinho. São coisas de qualidade. Agradeço muito o pessoal que enviou as cestas. São coisas muito naturais, um trabalho muito especial.”

Da mesma forma, os produtos da roça quilombola e da pesca caiçara garantiram alimentação farta e variada para o povo Guarani da aldeia Takuari em Eldorado (SP).

“Os Guarani têm o costume de trabalhar em núcleos familiares, em plantações de subsistência, e não se pensa muito em grandes quantidades. Eles não estavam preparados para a paralisação da pandemia”, afirmou Ataide Vherá Mirim, morador da aldeia. “Os produtos recebidos foram bem aceitos e estão aprovados.”

A iniciativa de distribuição das cestas foi realizada com apoio de Instituto Linha D’Água, Associação dos Moradores da Enseada da Baleia, Instituto Socioambiental, Good Energies e União Europeia.

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