Renúncia de Claudine Gay é sangue que agita águas contra mulheres negras

Conservadores agiram como sol de Ícaro para ex-reitora de Harvard e a aprisionaram no 'requisito Mulher-Maravilha'

Claudine Gay, a reitora da Universidade Harvard, que anunciou sua renúncia na terça-feira após seu problemático depoimento no Congresso sobre o antissemitismo e as crescentes perguntas sobre citações ausentes em seu trabalho publicado, foi, em parte, pressionada por forças políticas além do meio acadêmico e hostis a ele.

Mas a campanha contra ela nunca foi realmente sobre seu depoimento ou acusações de plágio.

Foi um ataque político a um símbolo. Foi uma campanha de revogação. Foi e é um projeto de deslocamento e profanação destinado a reverter o progresso e envergonhar os defensores desse progresso.

Como Janai Nelson, presidente do Fundo Educacional e de Defesa Jurídica da NAACP, escreveu: “O projeto não é impedir o ódio, mas fomentá-lo por meio de ataques cruéis”.

Quando Gay e os presidentes do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e da Universidade da Pensilvânia falharam em suas respostas perante o Congresso, alguns na direita política sentiram uma fraqueza e isso os acelerou. Esta foi a chance deles não apenas de queimar uma bruxa, mas de incendiar todo um grupo delas.

A falha das reitoras em fornecer respostas claras e simples a perguntas cujas respostas pareceriam óbvias –optando em vez disso por respostas hesitantes e excessivamente jurídicas– foi ridicularizada como um sintoma de uma doença; a queda do liberalismo para uma forma de insanidade cultural impulsionada por uma obsessão por identidades e proteção do perverso.

Quando Bill Ackman, um investidor bilionário e ex-aluno de Harvard, publicou uma carta em 4 de novembro para a então reitora Gay, um mês antes do depoimento no Congresso, ele deixou transparecer suas intenções com um ataque ao Escritório de Equidade, Diversidade, Inclusão e Pertencimento de Harvard, reclamando que ele “não apoia estudantes judeus, asiáticos e brancos não LGBTQIA”.

Diversidade, equidade e inclusão, ou DEI –o esforço para ajudar e apoiar os sub-representados – acabou sendo o alvo final.

E para enfatizar que a vilificação das reitoras das universidades era sobre algo mais do que seus comentários sobre o antissemitismo, apenas duas semanas depois de Ackman publicar sua carta, ele defendeu Elon Musk, dizendo que o controverso fabricante de carros elétricos “não é antissemita”, mesmo depois de Musk ter respondido favoravelmente, em sua plataforma de mídia social, X, à afirmação de que as comunidades judaicas “vêm promovendo o tipo exato de ódio dialético contra os brancos que eles afirmam querer que as pessoas parem de usar contra eles”.

Quando conversei com a professora de Direito da UCLA e da Faculdade de Direito de Columbia, Kimberlé Crenshaw, sobre a batalha na Flórida em relação ao ensino da história negra, ela alertou que esse bode expiatório dos acadêmicos se espalharia para os esforços de DEI além do meio acadêmico, incluindo no mundo corporativo.

“Isso não será apaziguado por uma única vitória”, disse ela. “Este é apenas um conflito preludial em uma batalha mais ampla” para fazer das discussões sobre o legado do racismo um tabu e “conter o poder dos negros, dos gays, das mulheres e praticamente de todos os outros que não concordam com a agenda de recuperar este país que o grupo MAGA [sigla para Faça a América Grandiosa Novamente, slogan de Donald Trump] reivindica”.

Na época, eu não me dei conta totalmente do quão premonitórias eram suas palavras.

Quando surgiram as acusações de plágio contra Gay, a campanha contra ela deixou de ser algo superável para se tornar algo que não era mais possível superar. Seus problemas agora podiam ser rotulados como multifatoriais, sua nomeação, como fundamentalmente falha –elites culturais equivocadas haviam distorcido o quebra-cabeça para fazer a peça se encaixar, e agora estava se desfazendo.

Os conservadores seriam o sol de Ícaro para Gay, demonstrando o quão quente eles poderiam tornar as coisas para ela.

Claudine Gay, ex-reitora da Universidade de Harvard, em discurso em um cerimônia de Shabat realizada em solidariedade a Israel, na Universidade de Harvard (Foto: Sophie Park – 13.out.23/The New York Times)

Em um momento em que as mulheres negras estão ascendendo na cultura, elas se tornaram, para alguns, os emblemas de uma mudança indesejada; sua presença em posições de poder representa uma ameaça ao poder tradicionalmente concentrado nas mãos de poucos.

Como tal, as mulheres negras veem suas credenciais atacadas implacavelmente, seus caracteres difamados, suas vidas vasculhadas. A questão não é que a barra seja abaixada para que elas tenham sucesso, mas sim elevada para que qualquer imperfeição possa ser inflada em uma falha fundamental. Essas mulheres estão aprisionadas nas exigências de perfeição dos outros.

Chame isso de requisito da Mulher-Maravilha.

E esses ataques são incessantes: em 2020, Donald Trump amplificou a teoria racista de que a então senadora Kamala Harris não era elegível para a Vice-Presidência porque seus pais eram imigrantes. Ela nasceu na Califórnia.

Trump também usou a teoria da conspiração racista de que Barack Obama não era um cidadão naturalizado americano para iniciar sua incursão na política presidencial.

No dia em que o presidente Joe Biden indicou Ketanji Brown Jackson para servir na Suprema Corte, Kevin Roberts, presidente da Heritage Foundation, a chamou de “juíza radical” e disse que o Senado deveria rejeitá-la porque “seu limitado histórico judicial” revelou que ela “consistentemente ignorou a Constituição”. Agora, um think tank dirigido por um ex-funcionário da administração Trump pediu uma investigação ética sobre a fonte de renda do marido dela e o financiamento de um evento realizado para marcar sua posse.

Onde está essa energia quando se trata das questões éticas multifacetadas de Clarence Thomas?

O governador democrata da Califórnia, Gavin Newsom, comprometeu-se a nomear uma mulher negra para o Senado caso a vaga de Dianne Feinstein ficasse vaga. Após a morte dela, uma manchete da publicação de extrema direita The Federalist estampou: “Substituição de Dianne Feinstein no Senado será definida pelos critérios racistas e sexistas em que ela se encaixa”.

Até mesmo tentativas privadas de promover mulheres negras estão sob ataque: Edward Blum, o homem por trás do caso contra Harvard e a Universidade da Carolina do Norte que levou ao fim da ação afirmativa nas admissões universitárias, entrou com uma ação no ano passado contra um fundo de capital de risco de Atlanta que concedia subsídios a empresas de propriedade de mulheres negras. A ação alega que os subsídios violam a Lei dos Direitos Civis de 1866.

À medida que as mulheres negras aumentam sua visibilidade, elas também despertam a ira da extrema direita, tornando-se alvos de agressão política. E infelizmente, a renúncia de Gay será como sangue que agita ainda mais as águas. Como Crenshaw colocou, essa coisa não será apaziguada.

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