Sete Questões-Chave No Pensamento Feminista Africano, por Minna Salami

Antes de mais devo dizer que, quando se trata de teoria, é mais correcto falar de feminismos africanos do que de num todo-poderoso feminismo africano. As feministas africanas nem sempre concordam umas com as outras e ainda bem que sim, pois isso ajuda-nos a fazer uma reflexão aprofundada sobre questões [ideológicas] como que são as listadas abaixo. Contudo, o respeito pelas diferenças e o reconhecimento de pontos comuns entre as várias feministas africanas ainda é uma prioridade.

Por Minna Salami No Ondjango Feminista

Como escrevi num texto anterior, muitas mulheres que se identificam como feministas africanas também se identificam como feministas negras. Isto é particularmente evidente nas referências dos escritos feministas africanos e negros. No entanto, o pensamento feminista africano tem um compromisso acrescido com as análises [da condição da mulher] nos contextos africanos.

Devo também esclarecer que quando falo de “feministas africanas” aqui, como em muitos outros lugares, refiro-me às feministas de origem africana residentes em África e na diáspora; e que quando falo em “mulheres africanas” refiro-me às mulheres de origem africana que são rurais, urbanas e de todas as classes sociais, que vivem em África e em todo o mundo.

Por último, as opiniões apresentadas a seguir são somente minhas. A minha escolha em dar destaque a sete questões-chave [do feminismo africano] não é, de modo algum, uma sugestão de que não existam outras questões igualmente importantes e urgentes, ou que estas sete sejam representadas de forma abrangente neste único artigo.

Com isso em mente, mãos à obra!

Patriarcado

A África não é diferente de outros continentes no mundo, onde qualquer espaço autónomo que a sociedade oferece ao indivíduo é mais restrito se o indivíduo for uma mulher. Infelizmente, não sabemos de um único momento na História moderna onde as mulheres de um grupo racial, étnico ou de classe não estiveram em desvantagem em comparação com os homens do mesmo grupo racial, étnico ou de classe. Sabemos de tempos, incluindo o actual, em que as mulheres de uma raça, etnia e/ou classe podem ter vantagens sociais sobre homens de outra raça, etnia e/ou classe. As feministas africanas prestam atenção às formas como o patriarcado – isto é, o sistema psicológico e político que valoriza o homem mais do que a mulher – usa a lei, a tradição, a força, o ritual, os costumes, a educação e a linguagem, para manter as mulheres sob a tutela dos homens, tanto na vida pública como na privada. O feminismo africano entende que os homens e as mulheres africanas poderiam ter relações mutuamente benéficas, transformadoras e progressistas nas esferas pública e privada se as nossas relações fossem igualitárias, ao invés de patriarcais. Por isso, as feministas africanas assumem a responsabilidade de lutar por essas sociedades igualitárias, para criar uma perspectiva melhor e mais harmoniosa para as gerações futuras, em vez de esperar que os homens algum dia redistribuam privilégios e poderes.

Raça

O pensamento feminista africano não se debruça somente sobre as questões do desequilíbrio nas relações entre homens e mulheres porque isso deixaria de fora outros factores que afectam a vida das mulheres africanas, um dos quais é baseado nas hierarquias raciais e nas políticas que as acompanham. Na verdade, as feministas africanas tendem a ser bem versadas sobre como a política racial afectou práticas na história cultural africana que tinham elementos complementares e que nutriam um espírito mútuo de intimidade. Os escritos das mulheres feministas africanas pretendem desfazer os papéis e as condições que deixaram os povos africanos dependentes dos seus colonizadores, eliminar o peso de uma História de imperialismo que atravessou séculos e, por último, criar uma nova linguagem que as mulheres africanas e os homens africanos possam utilizar, para superar o trauma que até hoje afecta as mulheres e os homens, embora de maneira diferente.

Tradição

É bastante impopular criticar as tradições africanas ou salientar que a História africana é marcada pelo domínio masculino, ao qual as mulheres africanas sempre resistiram. Quer se trate da casa, dos costumes matrimoniais, dos métodos de produção ou das liberdades sexuais, as tradições patriarcais africanas, na sua maior parte, fazem distinções entre homens e mulheres de maneiras que prejudicam a mulher. As mulheres africanas foram silenciadas por muito tempo pelos crimes do patriarcado tradicional, como a instituição abusiva e desumanizadora da poligamia patriarcal, o abuso das viúvas, o corte genital, a caça às bruxas e a falta de acesso das mulheres à propriedade e ao poder na sociedade tradicional. Dito isto, o pensamento feminista africano não procura abandonar a tradição, pois a tradição também abriga uma preciosa memória cultural e um rico legado de conhecimento e espiritualidade. Em vez disso, o objetivo é permitir que a tradição se adapte aos seus tempos de modo que, ao invés de estagnar, enriqueça a sociedade, como os costumes e a cultura devem fazer. Tomemos por exemplo Sisonke Msimang, uma feminista africana que aqui descreve a forma como ela incorporou o lobola (alembamento) na sua cerimónia de casamento de uma forma completamente feminista! Esse é um grande exemplo de como manter o orgulho cultural e ao mesmo tempo preservar o compromisso com a evolução e a harmonia.

Desenvolvimento

África, de acordo com índices estatísticos, é o continente mais pobre em termos de acesso às comodidades básicas. O pensamento feminista africano defende que a pobreza em África e a riqueza no Ocidente estão estruturalmente ligadas. A contínua injustiça do Ocidente em relação a África através da intervenção militar, da exploração de recursos, da propaganda das ONGs, das injustificáveis dívidas externas, das práticas comerciais e de outras práticas neocoloniais dos mais poderosos têm efeitos devastadores na capacidade dos Estados africanos de lidar com factores como o VIH/SIDA, a saúde sexual e materna das mulheres, bem como o desenvolvimento de infraestruturas. Talvez o pior de tudo seja que o subdesenvolvimento de África tem impedido o desenvolvimento da consciência [política e civil] através da falta de sistemas educacionais adequados. Como resultado, as sociedades africanas têm sido incapazes de progredir naturalmente de formas que a sua jurisdição, agricultura, comércio intercontinental, saúde indígena e perspectivas filosóficas avancem para atender às necessidades dos cidadãos. O mais preocupante é que essa falta de desenvolvimento de consciência alimenta afirmações falaciosas e equivocadas, como “a busca da igualdade de género não é africana”, ou que “a homossexualidade é pecaminosa”. Nas partes subdesenvolvidas do mundo, a pobreza afeta mais as mulheres do que os homens, porque como Thomas Sankara disse: “…as mulheres são dependentes dos dependentes.” O feminismo africano procura esclarecer que, a fim de desenvolver os países africanos, precisamos criar instituições sociais que irão resistir à hegemonia estrangeira sobre os povos africanos, incentivar o pensamento engajado e uma força de trabalho inclusiva, com toda a população em pé de igualdade.

Sexualidade

Para salientar o óbvio, as lésbicas são mulheres e tanto a homofobia como a perseguição de mulheres queer pelos Estados africanos são questões fundamentais no pensamento feminista africano. A questão da sexualidade feminina, em todas as suas manifestações, e o seu controle e supressão são de facto uma preocupação central para as feministas africanas. Como desafiamos o Estado que promove uma ideia heterossexual rígida como norma? Como desvinculamos a dominância sexual do prazer sexual? Porque é que os corpos das mulheres têm de suportar as feridas da História, da intromissão estrangeira e das prolongadas lutas nacionais? Como lidar com o sofrimento psicológico e físico que as mulheres sofrem após a violação? O pensamento e o activismo do feminismo africano têm como objectivo questionar e desmantelar a mentalidade que não encoraja o direito humano fundamental de propriedade sobre o corpo.

Feminismo internacional

Para que o feminismo tenha um grande impacto, as feministas africanas, como todas as outras pessoas envolvidas no movimento de mulheres, precisam colaborar entre si, como também somos co-dependentes de um mundo cada vez mais inter-conectado. No século XX, as feministas africanas estavam fortemente empenhadas em eliminar a arrogância e o imperialismo que haviam sido importados através do feminismo branco-ocidental para as narrativas das mulheres africanas, mas na última década ou mais, o foco tem sido encontrar formas de trabalhar em conjunto apesar das diferenças e especialmente para fortalecer os laços com as lutas feministas da América Latina e da Ásia. Este padrão é, de vários formas, o ponto máximo de todos os feminismos globais, embora a teoria e a prática nem sempre estejam em uníssono.

As feministas africanas precisam lidar com (mas não negligenciar) o seu descontentamento em relação às imagens negativas que muitas feministas brancas perpetuaram e devem concentrar-se no trabalho engenhoso que muitas feministas brancas produziram. E as feministas brancas precisam estar atentas e ser auto-críticas sob a sua posição privilegiada. Só assim então podemos procurar consolidar mutuamente a força no centro da questão das mulheres.

Arte

O amor é algo que todos os seres humanos desejam na vida mas também é uma emoção subestimada na cosmovisão que molda muitas das ideias modernas. Usar a arte em todas as suas formas, por exemplo, como forma de infundir a teoria com paixão e emoção é, para muitas feministas africanas, um acto radicalmente transformador. A arte é um reino onde as posições das feministas africanas não precisam ser declaradas, mas simbolicamente representadas. Através da criação de novas tradições intelectuais que transcendem a história académica branca/masculina, as feministas africanas questionam a legitimidade da produção do conhecimento e também descolonizam e des-patriarcalizam as mentes.

O pensamento feminista africano é alimentado pela ideia de que o amor e a justiça são complementares à revolução e à mudança. Ele se concentra na cura, na reconciliação e na insistência de que a linguagem da feminilidade africana e da sua posição global é uma linguagem que pode transformar a sociedade numa sociedade onde a igualdade sexual, racial, espiritual, psicológica e social é proporcionada. Nessa sociedade, as pessoas podem viver as suas vidas com menos micro e macro agressões diárias, menos hostilidade e mais espaço para auto-realização. Da música de Miriam Makeba à moda de Oumou Sy, à arte de Nike Ogundaike, as feministas africanas estão na vanguarda do uso da criatividade para expressar que o pensamento progressista não é apenas cerebral, mas também visceral e expressivo.

Tradução de Âurea Mouzinho. O texto original foi escrito em inglês e está disponível aqui.

Sobre a autora:

Nasceu na Nigéria. É uma jornalista que tem divulgado informação relacionada com o Feminismo Africano, a diáspora africana e as mulheres nigerianas através do seu famoso blog MsAfropolitan. Os seus artigos são publicados no The Guardian, na and no The Huffington Post.

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