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Um encontro familiar em A Outra África

Enfileiradas, quatro réplicas dos profetas esculpidos por Aleijadinho dão boas vindas ao visitante do Museu de Arte Sacra da cidade de São Paulo. Este será o primeiro artista negro a distinguirmos senão pelo nome, pelo apelido por entre as centenas de outros artistas populares, negros e negras, a compor um dos museus mais negros da cidade. Ao menos enquanto durar a mostra A Outra África: Trabalho e Religiosidade, de curadoria de Renato Araújo, aberta ao público neste sábado, dia 25 de janeiro com encerramento previsto para o dia 23 de março.

Por Tiago Gualberto enviado para o Portal Geledés

Foto:Tiago Gualberto

A Mostra apresenta cerca de 300 objetos entre máscaras, estatuetas, joias, armas, instrumentos musicais, bustos, urnas funerárias, objetos litúrgicos e do cotidiano africano reunidos ao longo das últimas cinco décadas pela Coleção Ivani e Jorge Yunes (CIJY). Embora resultado deste longo período de aquisições, é a primeira vez que o público paulistano terá acesso a esta seleção de objetos. Outra parte desta coleção integra o projeto África, Mãe de Todos Nós, no Museu Oscar Niemeyer, também sob curadoria de Renato Araújo. Este projeto é composto por três outras exposições, a terceira ainda sendo realizada na cidade de Curitiba, com encerramento previsto também para Março.

Uma das fortunas destas Mostras é o enriquecimento do debate em torno das contribuições dos povos africanos e suas heranças artísticas, sensibilidades e tecnologias não apenas para o Brasil, mas para todo o mundo. Em A Outra África, as ilustrações de saberes raramente vistas por aqui em tão alto grau de diversidade e abrangência geográfica constituem um dos mais atraentes pontos a serem observados. 

Foto:Tiago Gualberto

Assim, o catálogo da Exposição, distribuído gratuitamente no dia da abertura compõe esta dedicação de contribuir com informações precisas e referenciadas. Com cerca de 220 páginas e contendo fotografias dos objetos expostos, além de artigos de Rafael Schunk e Jõao Carlos Cândido S. L. Santos, além de prefácio de Marta Heloísa Leuba Salum (Lisy) e texto curatorial de Renato Araújo, o catálogo serve como ferramenta de formação sobre a diversidade cultural do continente africano. Textos de contextualização e notas explicativas também figuram entre os seus principais recursos.

Deste modo, o assombro e a admiração causados pelas chamadas máscaras africanas por entre artistas europeus durante o início do século passado, entre eles o espanhol Pablo Picasso, por exemplo, tornam-se capítulos da história da presença africana em nós. A produção criativa destes artistas populares transcendeu o posto de objetos de referência para os modernistas europeus e se manteve ativa ao longo de todo o século XX por meio de incontáveis atualizações e diálogos. Como os objetos da mostra testemunham, a arte africana é capaz de envolver não apenas movimentos artísticos e gerações, como também promover a renovação da nossa consciência sobre tantos outros temas, como a agricultura, economia, metalurgia, engenharia e religiosidade praticada por nossos antepassados mais distantes e ainda hoje.

Contudo, refletir sobre os nossos antepassados nos leva a considerar tanto aquilo que nos une e o que compartilhamos enquanto seres humanos quanto nos oferece uma oportunidade de encarar rompimentos, lacunas e mesmo eventos sombrios. E neste ponto cabe destacar o papel que a curadoria ocupa na tarefa de superar esta dificuldade aparentemente intransponível: escutar aqueles que foram secularmente silenciados em meio a uma multidão de vozes dispostas a vociferar sob qualquer evidência de igualdade, liberdade e humanidade.

Ao ocupar o Museu de Arte Sacra, a exposição administra diferentes elementos oriundos destas relações conflituosas. Entre eles, podemos citar a ausência de vida que teima em cercar estas peças de arte africana. No prefácio do catálogo, a professora Lisy arremata ao citar o etnólogo e antropólogo francês Georges Balandier: “detesto os objetos africanos exilados das relações humanas que lhes davam significação plena, sobretudo estes que são tidos como arte estritamente; estes objetos em vitrine são tão impotentes diante dos visitantes como os defuntos diante dos cristãos no dia de Finados.”

Imaginem os sons dos instrumentos musicais, o bater das palmas, os cânticos ou mesmo a poeira erguida diante de cada passo de dança, os risos das crianças ou os seus gritinhos de medo frente a quem portasse uma destas máscaras. As cerimônias africanas e suas narrativas cumpriam inúmeras funções na organização social destas comunidades, inclusive de adaptação e reinvenção de suas identidades frente as mudanças do mundo contemporâneo. Esta parece ser uma das lições oferecidas pelos artistas populares, indicada por Araújo através de suas escolhas curatoriais.

Foto:Tiago Gualberto

Outra importante decisão parece ser a recusa em transformar estes objetos em troféus bem iluminados, isolados de seu sentido comunitário. Ao organizá-los no espaço expositivo de forma a constituir famílias artísticas, cada grupo de máscaras, estatuetas e demais comunidades estilísticas evocam noções de parentesco, sentimentos de conexão e superação da solidão a qual são por vezes submetidas. Ainda diante da impossibilidade de recuperar todos os demais elementos que constituem as infinitas vibrações de seus usos cerimoniais e coletivos, encontramos os objetos a se reconhecerem mutualmente.  

 

Assim, dentro de cada uma destas distintas comunidades recriadas por Renato Araújo somos impelidos a observar, e por que não, a inventar os temperamentos individuais, enredos, provocações e diálogos proporcionados por suas presenças simultâneas. A música a tocar durante toda a visita auxilia no fortalecimento destes significados oferecendo flashes de contextualização e harmonia. Ao longo deste percurso, somos convidados a celebrar a vida ainda presente nos mistérios de cada um destes objetos por meio desta interação imaginativa. 

O acesso a estas diferentes populações de objetos foi possível, vale ressaltar, devido a este extenso gesto de aquisições realizado pela família Yunes. Comparável à coleção de arte africana presente no Museu Afro Brasil, esta seleção de objetos e sua disposição no espaço do Museu de Arte Sacra constitui uma voz dissidente aos modelos usuais de apresentação não apenas da arte popular produzida no continente africano, mas sobretudo daqueles que a detêm em vitrines e armários como insígnias de supremacia.

Neste tumultuado contexto de exposições pós-coloniais, opções sutis também chamam a atenção como a ausência de tambores e o privilégio de outros instrumentos musicais pouco associados a tradição milenar africana. Entre tantos outros detalhes significativos, a presença de uma pequena estatueta, uma figura de Xangô, em um nicho aberto na parede onde antes repousava um santo católico de estima das freiras que ali passavam o período das refeições. Isto por que esta sala correspondia ao refeitório do mosteiro antes da instalação do museu de arte sacra.

Novamente, o espaço expositivo ganha relevância. A arquitetura colonial e seus estreitos corredores ou a pouca luz que atravessa as pequenas janelas desta antiga construção parece adicionar mais camadas de interpretação a este desafio curatorial. Caso a mostra A Outra África fosse instalada em típicas salas de exibição contemporânea, onde se encontram espaços amplos e tetos catedrais, não teríamos a oportunidade de confrontar a palidez de nossos personagens reais com os tons carnais destes objetos até agora pouco ouvidos.

Quantos retratos da família real portuguesa, da aristocracia cafeeira, dos santos e santas barrocos aos oratórios e pequenos meninos jesus não foram pintados e talhados por mãos negras? Talvez se estes objetos africanos ocupassem outro espaço, não teríamos a oportunidade de comparar suas contemporaneidades com as demais presentes no Museu de Arte Sacra e refletir sobre os parentescos entre as mãos talentosas de suas autorias ainda que nos restem anônimas.

Por isso, não nos acomodemos. Diante de todos estes importantes passos em direção a nossa ancestralidade ainda há tantos outros, múltiplos como são os diferentes filhos de uma mesma mãe. Especialmente se esta é a nossa Mãe África.

HORÁRIO

TERÇA A DOMINGO: 9H ÀS 17HH
SEGUNDA-FEIRA: FECHADO

A BILHETERIA FUNCIONA ATÉ 30 MINUTOS
ANTES DO FECHAMENTO DO MUSEU.

 

INGRESSOS

SÁBADO: GRATUITO
DEMAIS DIAS: R$ 6,00 (ESTUDANTES PAGAM MEIA)
ISENTOS: VERIFICAR NA BILHETERIA DO MUSEU

 

LOCALIZAÇÃO

AVENIDA TIRADENTES, 676
LUZ – SÃO PAULO/SP
CEP 01102-000

ESTAÇÃO: METRÔ TIRADENTES ESTACIONAMENTO GRATUITO (SUJEITO A LOTAÇÃO)
RUA JORGE MIRANDA, 43
LUZ – SÃO PAULO/SP

Tiago Gualberto é mestre em Artes Visuais e bacharel em Têxtil e Moda pela Universidade de São Paulo. Atuou como pesquisador de conteúdos no Museu Afro Brasil entre 2015 e 2017. Sua recente pesquisa artística investiga a produção de instalações e objetos, vídeos digitais e performances aliadas a técnicas tradicionais das artes plásticas. Entre os prêmios recebidos, foi finalista Mundial do Concurso de Criação de Padronagem para produção de Furoshiki (tecido de embrulho tradicional japonês) promovido pela Fundação Japão/Tóquio e Ministério das Relações Exteriores do Japão, em 2009; artista residente no Tamarind Institute, integrado a New Mexico University durante o programa Afro: Black Identity in America and Brazil, em 2012. Neste mesmo ano se destacou como finalista da categoria Artes Visuais do Programa Nascente, promovido pela Pró-reitoria de Cultura e Extensão USP e, em 2015, ganhou a Bolsa Funarte de Fomento aos Artistas e Produtores Negros – MinC, prêmio destinado a artistas afro-brasileiros. Em 2017 e 2019, Gualberto foi um dos dez lideres brasileiros selecionados pela Obama Foundation para participar de uma mesa redonda com o Presidente Barack Obama em São Paulo.

 

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** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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