Unidade latino-americana sem negros não serve, por Cidinha da Silva

Por Cidinha da Silva
Por que você me chutou? Pergunta Evra, lateral do Manchester United. Porque você é negro! Responde Luís Suarez, jogador do time adversário, o Liverpool, em partida do campeonato inglês, logo depois da Copa de 2010. A conversa prossegue ríspida e Evra ameaça agredir Suárez, caso ele continue chamando-o de negro. Suárez conclui irônico: eu não falo com negros!
A atitude racista do jogador uruguaio está detalhadamente registrada em 115 páginas de processo da Federação Inglesa de Futebol, nas quais ele alegou que chamou Evra de negro de maneira amigável e conciliatória. Como não se tratava de contexto latino-americano onde o racismo é tolerado e relativizado, onde a palavra racismo é eliminada do discurso, ao tempo em que se fortalecem e reinventam as práticas racistas, não colou. Suárez foi banido do futebol por oito jogos, multado em 40 mil euros, proibido de pronunciar a palavra negro no futuro.
Perdoem-me Mujica, Beatriz Ramirez, Elizabeth Soares, Romero Rodrigues, Mizangas, Mundo Afro, mas não há ufanismo latino-americano que desvie meu olhar de um jogador racista, mesmo que a imprensa queira imputar-lhe contornos épicos como artilheiro da brava Seleção Uruguaia. Aliás, como sabemos todos, a decantada unidade latino-americana pouco ou nada inclui os negros, seja nas obras dos grandes pensadores de América Latina, seja na atuação de ativistas políticos sensíveis ao genocídio indígena nas Américas, mas blindados quanto ao genocídio negro, de ontem e de hoje.
Luís Suarez é um racista desprezível, não posso vê-lo de outra forma. Por isso, entre e a Itália racista e o Uruguai de Suárez, sou Barwuah, o filho de migrantes ganenses que se fez Balotelli na terra de Mussolini.
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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.
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