Verdadeiros ‘círculos viciosos’, trotes universitários expõem contradições e desafiam uma tradição secular

À continuidade ou permanência de uma doutrina, costumes e valores de um grupo se dá o nome de tradição. Sobre ela o historiador britânico Eric Hobsbawm chegou a escrever um livro (A Invenção das Tradições), no qual ele demonstra o quão importante a tradição é na estabilidade social através dos tempos. Mais do que isso: tradições são invenções do homem, elas não aparecem ao acaso. E por vezes é difícil romper com elas.

por  no Brasil Post

“É uma questão de tradição”, disse ao Brasil Post o diretor da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP)José Otávio Costa Auler Junior, após uma das audiências realizadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), que apura os casos de estupros e violações dos direitos humanos em instituições de ensino superior do Estado de São Paulo.

As denúncias de estupros e casos de homofobia e racismo em festas promovidas majoritariamente pela Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz ganharam força no ano passado, e mais de uma dezena de relatos foi feita na CPI e anteriormente na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Legislativo estadual. O Ministério Público já atua no caso e pelo menos oito denúncias estão sendo apuradas, com uma pessoa já indiciada até o momento.

O que chegou a crimes graves começa com os conhecidos – e lamentavelmente tradicionais – trotes. Atividades que marcam a entrada de calouros na vida universitária, os trotes não são uma exclusividade paulista, tampouco brasileira. É uma prática secular, com relatos conhecidos desde os tempos de Platão, e com episódios em instituições europeias. De Coimbra, em Portugal, estudantes da elite brasileira trouxeram a prática.

O próprio nome “trote” tem uma etimologia próxima em vários idiomas. Em comum em todos eles é o significado: é o andar intermediário do cavalo, entre o passo e o galope. No caso equino, é algo que se precisa ensinar, muitas vezes com chicotadas. O mesmo “adestramento”, em muitas universidades, acontece contra os “bixos”, termo aplicado aos calouros, em diversas ocasiões com uma violência ainda maior do que a aplicada contra os cavalos.

Para ser domesticado, o calouro “deve ser humilhado a ponto de nem mesmo merecer que a palavra bicho seja escrita corretamente”. A frase é do professor da Universidade Federal de São Carlos (UFScar), Antônio Zuin, autor de um livro sobre o tema (O Trote na Universidade: Passagens de um Rito de Iniciação). É na sua entrada que o estudante sofre com a “tradição” vigente, da qual lançará mão anos depois, quando se tornar um veterano. Ou seja, um verdadeiro círculo vicioso.

“Os trotes deveriam ser completamente abolidos. Não há quaisquer chances de que eles possam promover uma integração não doentia na vida universitária”, disse Zuin ao jornal O Estado de S. Paulo, no ano passado. “O trote pode ser caracterizado como rito de passagem sadomasoquista, pois o calouro que sofre violências física e psicológica adquire o direito de se vingar de tais sofrimentos nos calouros do próximo ano”, completou.

A opinião do vice-diretor da Faculdade de Medicina do ABC, Marco Akerman – autor do livro Bulindo com a Universidade – Um Estudo sobre o Trote na Medicina –, não é muito diferente. Para ele, vencer “o reino do medo, do silêncio e da naturalização das práticas, que levam ao receio de denúncias e, portanto, à continuidade dos abusos” é uma tarefa diária e constante que deve ser adotada. “É preciso um corpo sensível de escuta das vítimas”, sentenciou.

Os casos mais recentes da USP só ajudaram a dar mais repercussão a pelo menos três casos já relatados no Brasil em 2015. No dia 2 deste mês, uma estudante foi queimada com ácido no primeiro dia de aula do curso de Pedagogia nas Faculdades Adamantinenses Integradas (FAI), em Adamantina, interior de São Paulo. Neste mesmo trote, o produto químico atingiu os olhos de outro aluno, que pode ficar cego. No mesmo dia, na zona oeste da capital paulista, um calouro da Faculdade Oswaldo Cruz foi parar no hospital após ser forçado a ingerir bebidas alcoólicas. O corpo, enrolado apenas em um lençol e fraldas, apresentava várias lesões.

“Acho que está tendo um movimento na sociedade, que ela perdeu o controle dessa barbaridade toda, e de repente a sociedade quer recuperar o controle. Será que ninguém nessa terra sabia o que estava acontecendo? A gente achava que isso acontecia nos grotões das faculdades particulares, que não entra nem MEC (Ministério da Educação) nem nada. Não! São nas melhores, nas mais conceituadas, e na cara de todo mundo. Nós temos que aproveitar esse momento mágico para estabelecer novas regras de funcionamento”, opinou o deputado estadual Adriano Diogo (PT), que comanda a CDH e a CPI na Alesp.

Mas não será fácil, como reconheceu o diretor da FMUSP. “São situações que vêm vindo e que agora, por algumas situações que acontecem hoje, a sociedade não aceita mais”, complementou Auler, garantindo que fará tudo ao seu alcance para vencer uma cultura endêmica e institucionalizada dentro da FMUSP. É um desafio maior do que se pensa e de difícil solução. O Brasil Post tentou desembrulhar as muitas facetas deste tema e pontos que precisam ser discutidos sobre ele.

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