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Violação à intimidade: o gênero epistolar em A cor púrpura, de Alice Walker por: Waltecy Alves dos Santos

RESUMO:
Neste artigo propomo-nos refletir sobre a inserção do gênero epistolar no romance A cor púrpura, de Alice Walker, para compreendermos a importância funcional e estética do próprio discurso epistolar constitutivo desta obra literária, evidenciando as estratégias, as regras e os códigos intrínsecos ao seu sistema.

Palavras-chave: Alice Walker. Literatura e Identidade afro-americana. Gênero
epistolar. “Womanism”. Estudos femininos.

A escritora americana Alice Walker, filha de agricultores de ascendência africana, consagrou-se pela efetiva participação numa literatura que põe em evidência a condição da mulher negra. A cor púrpura (1982) é seu mais premiado e famoso romance. A narração ressalta a difícil experiência de vida de duas irmãs, Celie e Nettie, que vivenciam, por meio da escrita e leitura, a experiência de abarcar, por um lado, a intensa carga das relações humanas, pelo outro, a tensão entre o “interior” e o “exterior” dos indivíduos, em um mundo fundamentado na subjugação e na hierarquização. Por tratar-se de um romance de memórias registradas em cartas, o leitor é instigado a adentrar-se na intimidade de suas autoras. Cabe lembrar, também, que a narradora expõe a intenção de escrever cartas endereçadas para um destinatário extraordinário, Deus: “É melhor você não contar para ninguém, só para Deus. Isso mataria sua mamãe” (WALKER, 1986, p. 8).

Neste romance, realidade e ficção se mesclam e estão imbricadas na composição narrativa, uma vez que as biografias de Celie e Nettie, criações ficcionais, são pretextos que geram as cartas que materializam a obra. Em conversação retratada em uma das cartas, por exemplo, encontram-se Nettie, o missionário Samuel e um estudante de Harvard, chamado Edward, cujo sobrenome Samuel achava fosse “Duboyce” (WALKER, 1986, p.259). Não se trata de uma referência acidental. Com efeito, a ficção de Alice Walker invariavelmente mescla-se com a história real, pois tal personagem explicitamente é uma alusão a William Edward Burghardt (WEB) Dubois, ativista dos direitos civis, primeiro afro-americano a receber título de doutor (Ph.D) em Harvard. Outro personagem, o Sr. Tubman1, refere-se ao presidente da Libéria2 de 1944 a 1971. “Por alguma razão, eu não esperava ver gente branca na África, mas eles estão aqui aos montes. E nem todos são missionários. E o presidente cujo sobrenome é Tubman, tem alguns em seu gabinete. Ele tem também muitos homens negros com
jeito de branco no seu gabinete” (WALKER, 1986, p. 162).

Aqui, a literatura apresenta-se como uma leitura alternativa da História. Vejamos um exemplo em que se evidencia a recorrência ao historiador Joel Augustus Rogers feita pela personagem Nettie: “Apesar de ter havido uma época quando a civilização africana superava a da Europa (claro que não foram os ingleses que disseram isto; eu aprendi lendo um homem chamado J.A. Rogers)3, há vários séculos já que

eles estão passando por ‘tempos difíceis’ é uma expressão que os ingleses adoram usar, quando falam da África” (WALKER, 1986, p. 158). Assim, as fronteiras entre o imaginário e o real se desfazem ou se misturam.

Violação à intimidade: o gênero epistolar em A cor púrpura, de Alice Walker por: Waltecy Alves dos Santos
Violação à intimidade: o gênero epistolar em A cor púrpura, de Alice Walker por: Waltecy Alves dos Santos

O romance de Alice Walker nos remete ao percurso de Celie, menina negra de quatorze anos, que frequentemente é abusada sexualmente por um homem que imaginava ser o seu pai, mas que, no decorrer da trama, ela descobre tratar-se de um padrasto. A menina engravida e tem dois bebês, dos quais é afastada. A narrativa é composta, em sua quase totalidade, por meio das cartas que a jovem endereça a Deus e a Nettie, sua única irmã.

Querido Deus,
Eu tenho quatorze ano. Eu sou. Eu sempre fui uma boa menina. Quem sabe o
senhor pode dar um sinal preu saber o que tá acontecendo comigo.
Na primavera passada, depois que o nenê Lucious chegou, eu iscutei o barulho
deles. Ele tava puxando o braço dela. Ela falou, Inda é muito cedo, Fonso, eu
num tô bem. Até que ele deixou ela em paz. Uma semana depois, ele foi e puxou
o braço dela outra vez. Ela falou Não, eu num vou. Você não vê que já tô meia
morta, e todas essas criança (WALKER, 1986, p. 9).

 

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