Aquele que não pode errar

Estamos lutando por uma sociedade menos punitivista e que olhe para seus processos de mudança e educação como prática de liberdade

Gosto da arte porque ela tem um poder sobrenatural de transformar as coisas, de sintetizar tudo o que a gente sente, às vezes até sem palavras. Pode ser uma pintura, uma fotografia…

A filósofa Viviane Mosé tem um vídeo no YouTube a que sempre reassisto quando esqueço das coisas, quando me perco no caos. Ela diz que a arte é o único prazer livre do ser humano, ele não depende de nada. Mosé abre o episódio lendo um texto de Friedrich Schiller que diz que “as artes vivificam, exercitam, refinam a faculdade do sentir, levando-nos a gostos cada vez mais elaborados, até sermos capazes de sentir o exercício pleno da liberdade.”

Fiquei até com vergonha de contar à minha terapeuta que, depois de meses de ela ficar me falando sobre liberdade e erros, todo o meu entendimento bateu assistindo a uma série. Era aquela cena do último episódio da primeira temporada de “Fleabag”. Num flashback, Boo explica à amiga por que colocam borrachas nas pontas dos lápis.

Fleabag lê para ela a notícia de que um menino de 11 anos foi para a cadeia por enfiar um lápis com borracha na bunda de um hamster. Boo fica surpresa e se pergunta por que alguém faria isso. Fleabag responde que o menino queria ver os olhos do hamster esbugalhados, mas a gente descobre que a pergunta de Boo não era sobre os motivos do menino, mas por que alguém prenderia um menino de 11 anos em vez de ajudá-lo. Segundo ela, só uma pessoa infeliz faria isso com um hamster, e pessoas infelizes precisam de ajuda e não necessariamente de prisão, ainda mais aos 11 anos.

E, por fim, sabe por que colocam borrachas nas pontas dos lápis? Porque as pessoas cometem erros. Tive que parar de ver o episódio para me acalmar, porque fiquei chorando sem parar encarando essa verdade mais que absoluta. Na semana seguinte, eu tatuei um lápis com uma borracha na ponta.

Tudo começa com a palavra “pessoa”. Vocês sabem, os pretos durante muito tempo não foram considerados dentro desta categoria. Quando entramos, foi numa classe diferente. Se você não é pessoa, então não pode errar: resta a nós a desumana busca pela perfeição.

E muitas vezes, mesmo quando estamos “livres”, estamos presos ao tênis mais branco, à roupa mais cara, ao cacho ou liso impecável, ao disfarçado mais bem feito, ao corpo padrão. Como escreveu Gilberto Porcidonio, se o racismo acabasse hoje, a gente iria ao shopping de chinelo.

Você imagina os mandatos de Barack Obama passando 10% dos escândalos do Trump? Imagina ele ao lado da Michelle e das filhas contando sobre estagiárias da Casa Branca. A perfeição era o único caminho possível e continua sendo. A melhor gestão, o melhor ministério (mesmo sem orçamento), a melhor atuação, melhor escrita, mais pontos no jogo, maiores notas. Como escreveu Juliana Sá, “se tu for preto, pobre, favelado ou nordestino, teus erros não serão perdoados facilmente. Se você estiver em algum lugar de status, teus erros estão sendo planilhados para serem projetados na sua cara”.

No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, uma pessoa negra tem 50% mais chances de cometer suicídio que uma pessoa branca. Um dos motivos é que cabe a nós o sacrifício de ser três vezes melhor, de continuar sendo “o mano, homem duro, do gueto, Brown. Aquele loco que não pode errar”. E ninguém está aqui passando pano para o erro, ao contrário, estamos lutando por uma sociedade menos punitivista e que olhe para seus processos de mudança e educação como prática de liberdade.

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