sexta-feira, janeiro 27, 2023
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A consciência de ser negro no Brasil, por Urariano Mota

Todas as vezes em que me debrucei sobre o tema do negro brasileiro, sempre encontrei obstáculos. O primeiro deles é que não existem negros no Brasil. Quero dizer, é muito mais que a sociedade fingir que os negros não sejam a maioria nacional. É mais que fingir. Na verdade, os negros não existem. Ou nem existimos como características físicas de cor escura, para ser mais preciso. Em dúvida, olhem as bancas de revistas, de jornais. Onde estão as capas com negros? Não há. Passeiem os olhos pelos canais de televisão, pelas lideranças empresariais, pelas direções de estatais, pelas universidades, pelos bairros limpos e confortáveis. Ao fim da mais leve ou refinada pesquisa, concluiremos: no Brasil, não existem negros.

No GGN

Mas apesar disso, devemos ir além das ilhas brancas do Brasil, esta grande cidade europeia. Então passemos pelos morros, favelas, prisões, faxineiros, operários, e, principalmente, pelos trabalhadores de menor salário em todas as categorias. O que ocorre? Parece que o Brasil vira negro. Apenas parece, porque não há, até mesmo aí,  uma consciência, um espelho onde o negro se veja como tal, inclusive nos lugares onde ele é majoritário. Com a devida exceção dos terreiros, quilombos e grupos de resistência, negros ainda são os outros. Se perguntássemos “aqui moram negros?”, muitos nos responderiam, incomodados, “aqui, não. Procure na favela mais distante”.

E por que isso se dá? Por que esse paradoxo de o Brasil ser uma das nações mais negras sem negros? Há um ditado popular, em sua infinita aspereza e flagra da pré-história da gente, que diz: “pobre não gosta de pobre”. Ou em uma versão adaptada: “negro não gosta de negro”.  O que isso quer dizer? Nada mais além do que pobres e negros não gostam do modo como vivem e são pintados em uma construção histórica, que até parece se transmitir no leite materno, como uma doença congênita. O que se associa à pobreza? Ignorância, fome, doenças, espancamento, sujeira, miséria e vergonha. E como é que alguém pode gostar de ser um infeliz desses? Uma vez um homem do povo me corrigiu, quando eu, desejando ter com ele uma fraternidade demagógica, lhe disse: “Nós, os pobres…”. Ele me interrompeu: “Pobre é o diabo”.

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Então, no mesmo caminho da adaptação dos pobres, eu pergunto: quem é que pode gostar de ser feio, sujo, miserável, perseguido, espancado, preso, fedorento e estúpido?  Pois essas são as qualidades, o mundo imundo que aparece como o destino natural dos negros, o rosto pintado pela exploração e atraso secular do Brasil. Esse espelho não pode ser a face de um homem ou de uma mulher que honre a pessoa. Por aí já se vê o longo caminho de onde viemos e do muito ainda a ser alcançado. Um combate prático e de ideias, sem descanso ou conciliação. E que exige, por isso mesmo, o mais prolongado estudo, leitura e astucioso pensamento.

Creio que, para um começo de conversa, é necessário extrair a urtiga do mato da mistificação dos pensadores brasileiros. Mais de uma vez, pude notar um sintoma da barbárie nacional, quando vi que os melhores relatos sobre a nossa escravidão vêm de estrangeiros, como os descritos em Charles Darwin e Vauthier, o engenheiro francês que viveu no Recife. Ou de Maria Graham, a digna escritora que visitou Pernambuco em 1821. Cito as palavras da inglesa:

“Os cães já haviam começado uma tarefa abominável. Eu vi um que arrastava o braço de um negro de sob algumas polegadas de areia, que o senhor havia feito atirar sobre os seus restos. É nesta praia que a medida dos insultos dispensados aos pobres negros atinge o máximo. Quando um negro morre, seus companheiros colocam-no numa tábua, carregam-no para a praia onde, abaixo do nível da maré-cheia, espalham um pouco de areia sobre ele”.

Mas na perigosa escrita de Gilberto Freyre o mesmo quadro se conta assim:

“Foi numa praia perto de Olinda que Maria Graham, voltando a cavalo da velha cidade para o Recife, viu um cachorro profanando o corpo de um negro mal enterrado pelo dono. Isto, em 1821. Olinda pareceu à inglesa extremamente bela vista do istmo e da praia pela qual, indo do Recife, chegou até ao pé dos montes da primeira capital pernambucana”.

Vocês viram: o horror ocupa uma só linha em Gilberto Freyre, perdida na bela vista de Olinda. Quem quiser, confira, essa ocultação do real, está em sua Olinda, Guia Prático, Histórico e Sentimental de uma Cidade.

Gilberto Freyre é, seguramente, o homem que glorifica a colonização portuguesa. E nesse caso, tão brasileiro, pela dissolução da crueldade com ares de fazer graça, entre um pigarro no cachimbo e um costume bárbaro, como quem dilui a violência com uma piada. Nesse caso particular, é preciso vencer Gilberto Freyre. O poder da prosa de Gilberto Freyre, a bruxaria do que escreveu nos muitos trechos em que sacrifica a verdade para não perder o ritmo de um parágrafo, esse poder e esse feitiço têm que ser mortos. Mas antes, ele deve ser muito estudado. Contraditoriamente, antes de vencê-lo, Gilberto Freyre há que ser assimilado. Para mais adiante ser descomido, superado em uma etapa necessária rumo ao lugar onde a verdade da nossa história seja soberana. E se faça um acerto de contas com o passado escravocrata, estudado por ele a partir da casa-grande, que continua viva entre os brasileiros.

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Darcy Ribeiro já observou que entre nós a solução do negro se deslocou da raça para a cor. São suas palavras, num enfrentamento com a democracia racial pintada por Gilberto Freyre, sem lhe citar o nome:

“O preconceito nosso é por natureza diferente do preconceito americano. Aqui há um conceito curioso de branquização, o negro quando vai ficando claro, a mestiçagem facilita isso sobretudo quando vai ficando rico, fica branco. Esse preconceito de branquização é um conceito bonito, não é democracia racial. É branquização, é uma possibilidade até preconceituosa de que o negro é aceito como alguém que vai deixar de ser negro, que vai transar com todas as brancas que vão clarear os filhos deles.”

Segundo o mesmo Darcy, até o ano de 1850 cerca de 6 milhões de negros haviam entrado no Brasil como escravos. No mesmo período, os imigrantes brancos não passavam de 500 mil, e os índios, de 5 milhões de pessoas. É muito estranho, para dizer o mínimo, que um país com essa composição de raças pudesse se tornar um país branco, nas relações com o mundo exterior, que não se engana. Mas o que se deu? Carregamos nas costas, como um peso vivo, que nos oprime a todos, a colonização portuguesa e a sociedade de classes. Mudam-se os tempos, mudam-se os costumes, mas a democracia não nos alcança como povo, nem como a nossa própria imagem. Há uma sobrevivência ideológica, de pensamento racista e excludente, que vai das Escolas Militares às instituições civis. Nós até admitimos que o Brasil seja produto de três raças. Mas – e esse “mas” é tudo – com a parte negra em seu devido lugar. Lá na cozinha, longe da sala de visitas. Não venha ele manchar com a sua presença a imagem do Brasil.

É preciso todos os dias acordar e arregalar bem os olhos para ver o que a névoa ideológica não deixa. Isto é, o que mais causa espanto: onde estão os generais, almirantes e brigadeiros negros? Onde estão os reitores, presidentes de senado, da câmara, governadores negros? Onde estão as nossas misses e modelos de exportação negras? Onde estão, de modo mais sério, os nossos grandes físicos e cientistas negros?

Essas não são perguntas retóricas. Entendam, porque até os mulatos que pularam a cerca e o cerco da exclusão no Brasil, em um trabalho extraordinário, heroico e colossal de autoeducação, como foi o caso de Machado de Assis, viraram  brancos. Vocês lembram, não faz muito um anúncio da Caixa Econômica Federal exibiu um Machado de Assis ariano, bem distante do queimadinho de sol. Mas não só ele atesta a nossa glória de nação europeia. Olhem, por exemplo, as imagens que viraram ícones de Carlos Gomes, de Castro Alves, ou num exemplo menos ilustre, de Roberto Marinho. Veem? Viraram todos brancos, ou quase brancos.

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Haveria muito ainda a falar. Mas para o dia 20 de novembro, dia da consciência negra, que assinala a morte do grande Zumbi dos Palmares, destaco o ocorrido com o seu nome, no bairro do Zumbi no Recife. Quando pesquisei para o Dicionário Amoroso do Recife, pude ver que  na língua portuguesa o nome Zumbi significa alma que vagueia a horas mortas, ou fantasma de animal morto, ou com o sentido último de ser o título do chefe de um quilombo, zambi. Estranho, não? Ou melhor, faz um sentido histórico, porque alma de assombração ou fantasma de animal morto lembra mais uma vingança póstuma contra um herói na luta contra a escravidão.

E quanto ao bairro?  O Zumbi, no Recife, foi o Engenho de Ambrósio Machado, lugar de cultivo de cana no trabalho escravo, desde a dominação holandesa. O sociólogo e jornalista José Amaro Correia, assim me informou, lembrando o bairro onde ele morou na infância:  “Diziam para as crianças: ‘Zumbi vai te pegar’. O medo que havia nos senhores de engenho foi transferido para os explorados. O explorado repetia à sua maneira a consciência do explorador. Até os meus 14 anos de idade, para mim e para todos os meninos, Zumbi não era coisa boa. Esse nome era associado ao bairro. Para as pessoas de fora, nós dizíamos que morávamos na Madalena. Nos anos 50, ainda  falavam para as crianças que Zumbi ia voltar, como se fosse uma ameaça. Era o comentário, era o aviso na infância: ‘Zumbi vai voltar’. As mães do bairro diziam para os filhos: ‘não volte tarde, porque Zumbi pode te pegar’”.

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Assim pude ver a origem histórica do bairro e do seu nome. De lugar de escravos, de terras de senhor de engenho, a lugar onde voltaria Zumbi, desta vez como uma ameaça aos proprietários, e para os descendentes dos explorados, até hoje, como uma assombração, no registro dos dicionários. Que deveria receber um novo significado, que a consciência do novo tempo nos ensina. Deixo a sugestão para atualizar o verbete nos dicionários:

Zumbi, substantivo masculino. Nome do herói brasileiro, pessoa de rara coragem, que se levantou contra a escravidão. Falecido no dia 20 de novembro, deu origem ao dia da consciência negra.

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