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A eugenia aqui ao lado

Chamou a minha atenção, no último domingo (18/08), a visão de uma negra vestindo o uniforme da seleção feminina de vôlei da Argentina, numa partida amistosa contra a seleção do Brasil. O ocorrido me levou a uma breve imersão na história da população negra naquele país e a uma também rápida reflexão sobre a relação desses dois países com os negros sequestrados no continente africano.

Por Wellington Oliveira, Enviado para o Portal Geledés 

Wellington Oliveira- homem branco, com pouco cabelo, vestindo camiseta social com uma caneta no bolso- em pé olhando para frente
(Foto: Thaís Coutinho)

Em todas as imagens anteriores que acessei da Argentina, seja através do esporte, do cinema, da política ou de qualquer outra fonte, não me ocorreu a presença de negros em nenhuma delas. A visão da equatoriana com cidadania argentina, Erika Mercado, em meio àquelas outras atletas, todas brancas, me deslocou de um confortável lapso.

Sabia, até aqui, da história da Argentina, apenas a distinção da colonização espanhola ao invés de portuguesa. O breve olhar para a saga da população negra no país vizinho, me mostrou a drástica redução do contingente de negros no curso dos últimos dois séculos. Dos quase 50% da população, no início do século XVIII, hoje restam algo em torno de 3%, conforme dados censitários.

O projeto de eugenia fez uso de artifícios diversos. A utilização de homens negros nas frentes de batalha das guerras da independência e nas posteriores guerras civis; a venda massiva de negros no período pós-abolição da escravatura, para países onde o sistema ainda perdurava (no Brasil, a escravização se manteria por mais de 80 anos); e a aglutinação geográfica da população negra em ocasiões de epidemias, são apenas alguns dos exemplos.

A visão cotidiana que a Argentina mostra ao mundo é de um país eminentemente branco, com traços muito discretos de miscigenação, não parecendo jamais ter havido um sistema escravocrata naquele país. Os hermanos conseguiram varrer para debaixo do tapete a sujeira e o sangue que mancham a história do país. Tiveram êxito naquilo que o Brasil tenta há mais de um século, sem sucesso. Aqui, a despeito das tentativas, os negros continuam vivos e resistindo.


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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