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Alcançar a poesia é o eterno objetivo da múltipla Cristiane Sobral

Primeira negra a se graduar no curso de artes cênicas da Universidade de Brasília, escritora, poeta, mãe e militante, Cristiane Sobral comemora 20 anos do primeiro espetáculo profissional

Por Isabella de Andrade , do Correio Braziliense 

Há 20 anos, a atriz e poeta Cristiane Sobral se graduava como a primeira negra em artes cênicas, na UnB
(foto: Ricardo Pacheco)

Há 20 anos, a atriz e poeta Cristiane Sobral se graduava como a primeira negra em artes cênicas na Universidade de Brasília. O marco serviu para fortalecer o momento de ruptura em um espaço cultural e educativo tradicionalmente elitizado. Com sorriso amplo, olhos firmes e palavras fortes, Cristiane percebeu que poderia representar uma transformação em si e para os outros corpos negros vindouros.

 

Enquanto artista, a militância aparece como impulso entre versos, textos e cenas. “Eu milito com a minha existência e permanência no meio literário e teatral onde sou sempre minoritária, mulher e negra, a exceção que desafia a regra”, destaca.
O teatro e a literatura criaram outros sentidos para sua própria existência, que passou a ser ocupada por um espaço de invenção, potência e denúncia. Para ela, a palavra tem poder e pode ser usada como arma a nosso favor, combatendo paradigmas. Cristiane incentivou a certeza de escolha pelo trabalho cênico ou poético em outros estudantes, inspirados em sua trajetória. “O meu ingresso na universidade levou comigo outras estéticas oriundas das culturas populares, outros saberes, a minha ancestralidade, outras temáticas para o universo criativo produzido naquele espaço até então.”

Cristiane foi impulsionada quando escutou pela primeira vez que no teatro poderia ser o que quisesse, algo que em sua realidade não lhe era ofertado. “Estava ali uma oportunidade para ter lugar de fala, para contar a história do povo negro e do povo brasileiro a partir de outro ponto de vista, de construir outros cenários de realidade”, afirma. Para ela, a palavra é sagrada e profana nos espaços cênicos e literários, o que torna essas contradições e paradoxos ainda mais fortes.

Caminhos

A escrita lhe ensinou a ressignificar a dor pelo saber e chegou à sua vida aos 7 anos, depois da morte de sua mãe. No papel, Cristiane escreve, reescreve e reinventa a própria trajetória. Em seu bairro, a artista nunca conheceu nenhuma mulher escritora nem atriz e conheceu poucas pessoas que cursaram o ensino superior.

Quando optou por esse caminho de luta, consciente de suas escolhas, entendeu que ser atriz-professora-escritora-mãe-militante desenharia seus horizontes pessoais e profissionais. “A escrita me levou a ocupar espaços antes interditados, a ter uma melhor qualidade de vida e a alimentar os sonhos de um tempo melhor para nós.”

Para a autora, a militância, constante em suas produções criativas, é um ato coletivo, social, um compromisso. Além disso, um diálogo permanente, uma visão de mundo para contribuir nessa sociedade, para que seja mais justa, mais  progressista. “Não é uma militância pelo povo negro apenas, é por todosnós, pelo nosso povo brasileiro. Eu milito contra o racismo ao pronunciar e reverenciar as mulheres negras que me antecederam, ao inserir o meu corpo e a minha arte em espaços de exceção onde a nossa escrita ainda não é visível.”

A militância literária aparece como possibilidade de existir e lutar para construir uma carreira de êxito de forma a desafiar estatísticas e trazer outros corpos negros para os espaços enriquecendo e tornando mais rico e diverso o teatro e a literatura nacional. O foco central de sua produção criativa é a experiência humana.

Cristiane gosta de contar histórias, seja no teatro seja na literatura. A essência é falar e experimentar a estética, a ética, o corpo, o gesto, a vida, o cotidiano, os paradoxos da existência, as subjetividades e os feminismos, a ancestralidade, os filhos, a maternidade. “São temas que me permitem construir vozes múltiplas, tridimensionais, sem maniqueísmos de mal e bem, além deles”, destaca.

Cristiane, que viveu no Rio até os 16 anos, conta que sentiu mais liberdade para criar em Brasília, sem a pressão de entrar em grandes emissoras ou grupos de teatro. “Eu me recordo que os convites surgiam para filmes com temática sobre escravidão, pequenas figurações. Eu sempre dizia aos produtores: não me ligue apenas para papeis para atrizes negras, me ligue para qualquer papel, eu sou atriz.”

Cristiane Sobral: poesia, desde o início da carreira(foto: Arquivo pessoal)

Celebração

 

Para comemorar essa trajetória, Cristine Sobral remonta, em 2018, o primeiro espetáculo profissional da carreira: Uma boneca no lixo, com dramaturgia própria e direção de Hugo Rodas. Ele foi criado durante seu último semestre de graduação, em uma época que não existia um teatro, apenas uma sala de ensaios no departamento de teatro da universidade.

 

“Eu me lembro que na época, eu cheguei a pular o muro de madrugada para poder ensaiar, porque era o único horário vago. Também ensaiávamos no terreiro de candomblé da Mãe Bete, em Taguatinga, pois os músicos do Asé-Dudú eram chefiados pela Betinha, percussionista, filha da mãe Bete”, conta a atriz.

 

Em cena, no monólogo musical, Cristiane discute a temática da diferença em um país multicultural. O texto do espetáculo será também publicado pela escritora, que produz atualmente seu primeiro livro infantil, em parceria com a filha, Ayana Thainá, de 7 anos. O ponto de partida da peça é a estória de um bebê negro encontrado por uma enfermeira japonesa numa lata de lixo, na periferia da Grande São Paulo.

 

A autora lembra que, depois de vinte anos, o texto permanece atual, e as questões abordadas continuam na ordem do dia. O racismo, o machismo, a exclusão social, a intolerância religiosa, as questões de gênero ainda não foram vencidos. Sendo assim, é preciso resistir e persistir.

(foto: Arquivo pessoal)

NÃO VOU MAIS LAVAR OS PRATOS

Cristiane Sobral

 

Não vou mais lavar os pratos

Nem vou limpar a poeira dos móveis

Sinto muito

Comecei a ler

Abri outro dia um livro e uma semana depois decidi

Não levo mais o lixo para a lixeira

Nem arrumo a bagunça das folhas que caem no quintal

 

Sinto muito

Depois de ler percebi a estética dos pratos

A estética dos traços, a ética, a estática

Olho minhas mãos quando mudam a página dos livros

Mãos bem mais macias que antes

Sinto que posso começar a ser a todo instante

Sinto qualquer coisa

 

Não vou mais lavar

Nem levar

Seus tapetes para lavar a seco

Tenho os olhos rasos d’água

Agora que comecei a ler quero entender

O porquê, por quê? E o por que

 

Existem coisas

Eu li, e li, e li

Eu até sorri

E deixei o feijão queimar…

Olha que o feijão sempre demora a ficar pronto

Considere que os tempos agora são outros

 

Ah, esqueci de dizer

Não vou mais

Resolvi ficar um tempo comigo

Resolvi ler sobre o que se passa conosco

Você nem me espere

Você nem me chame

Não vou

 

De tudo o que jamais li

De tudo o que jamais entendi

Você foi o que passou

Passou do limite, passou da medida, passou do alfabeto

Desalfabetizou

Não vou mais lavar as coisas e encobrir a verdadeira sujeira

Nem limpar a poeira e espalhar o pó daqui para lá e de lá para cá

Desinfetarei as minhas mãos e não tocarei suas partes móveis

Não tocarei no álcool

Depois de tantos anos alfabetizada, aprendi a ler

Depois de tanto tempo juntos, aprendi a separar

 

Meu tênis do seu sapato

Minha gaveta das suas gravatas

Meu perfume do seu cheiro

Minha tela da sua moldura

Sendo assim, não lavo mais nada, e olho a sujeira

No fundo do copo

 

Sempre chega o momento

De sacudir, de investir, de traduzir

Não lavo mais pratos

Li a assinatura da minha lei áurea escrita em negro maiúsculo

Em letras tamanho 18

Espaço duplo

Aboli

 

Não lavo mais os pratos

Quero travessas de prata

Cozinhas de luxo

E jóias de ouro

Legítimas

Está decretada a lei áurea.

 

Ref: Sobral, Cristiane. Não vou mais lavar os pratos. Poesia. 2017. 3ª ed. revisada e ampliada. Ed. Garcia, Brasília.

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