Angela Davis compara Brasil a uma fênix e afirma que o país é ‘farol de esperança’

Durante congresso em Salvador, filósofa e ativista americana destacou o avanço da luta por melhorias das mulheres negras

filósofa e ativista negra feminista Angela Davis comparou o Brasil a uma fênix e disse que, apesar dos problemas, o país é um “farol de esperança” na luta política das mulheres negras.

“Parece uma fênix que, cada vez que vocês são espancados, surge dessas cinzas. Nos Estados Unidos, nós estamos inspiradas principalmente pela forma como a política tem se desdobrado aqui”, disse Davis, nesta terça-feira, em Salvador.

Professora emérita da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, nos Estados Unidos, Davis veio ao Brasil para participar de uma palestra no congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada, a Abralic, realizado na Universidade Federal da Bahia.

Na palestra, ela se disse privilegiada pela oportunidade de visitar o Brasil e se disse impressionada com a forma na qual os movimentos de mulheres negras emergiram no país ao longo dos últimos anos. E lembrou a vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018, como um símbolo dessa luta.

Também fez referência às líderes do candomblé como uma forma de ativismo. “O feminismo negro nasce no Brasil. O Brasil é um país no qual, no contexto do candomblé, a liderança de mulheres negras mais velhas é levada a sério, é respeitada “, disse.

Ao falar sobre a política dos Estados Unidos, Davis fez referência ao ex-presidente Donald Trump ao afirmar que foi preciso “retirar o fascismo” da Casa Branca. Por outro lado, disse que o país não teve uma boa alternativa ao eleger o presidente Joe Biden.

“Estamos lutando ainda com as mesmas questões que estávamos lutando anteriormente”, afirmou, criticando o conservadorismo no novo governo em relação ao abolicionismo penal e defendendo alternativas às prisões.

Davis veio a Salvador e lançou o livro “Abolicionismo. Feminismo. Já”, editado pela Companhia das Letras, em coautoria com as intelectuais e ativistas americanas Gina Dent, Beth Richie e Erica Meiners. O livro evoca um feminismo abolicionista como a versão mais inclusiva do movimento, que engloba também as lutas antirracista, anticolonialista e anticapitalista.

Ao falar do livro, Davis destacou a importância de analisar o feminismo e o abolicionismo de forma ampla e conjunta. Celebrou ainda que o livro foi produzido em um momento no qual as questões raciais ganharam mais espaço no debate público internacional.

“Quando começamos a falar sobre abolicionismo há 20 anos, nunca imaginamos que poderíamos ver esse tema no debate público. Nunca imaginei que vivenciaria as consequências desse trabalho”, afirmou, destacando o papel dos ativistas nesse processo.

Além de Davis, também participaram da palestra a professora Gina Dent, coautora do livro e professora da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, e a professora Denise Carrascosa, da UFBA. A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, prestigiou o evento em Salvador.

Angela Davis é uma das maiores intelectuais negras americanas e fez parte do partido Panteras Negras. Perseguida, ela entrou na lista do FBI dos dez mais procurados do país e foi presa em 1970, acusada de sequestro, assassinato e conspiração. Depois, foi absolvida das acusações.

A campanha por sua liberdade eternizou a imagem da jovem de cabelo black power e punho cerrado que se tornaria ícone do feminismo negro e do abolicionismo penal, uma teoria que denuncia o caráter racista e classista da justiça criminal e a falência do sistema carcerário para se lançar na busca de outras formas de resolução de conflitos, de garantia da segurança e de liberdade que desafiem esses sistemas.

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